Homenagem
Dona Maria Natividade: uma vida dedicada ao cuidado, à organização popular e à luta
Na última quarta-feira (22), nos despedimos de Dona Maria, militante histórica do MST-PR e símbolo da luta pela Reforma Agrária

Por Setor de Comunicação e Cultura e Setor de Saúde do MST no PR
Da Página do MST
A história do MST é também a história de Dona Maria. É assim que ela relembrou da sua trajetória na tarde em que partiu, no dia 22 de julho, rodeada de companheiras, companheiros, amigos de luta e de vida, no assentamento Contestado, na Lapa (PR).
Maria teve uma vida dedicada à luta – pelo acesso à terra liberta, pela alimentação saudável e pela saúde do povo. E, até o fim, falava firme: “Continuo na resistência de um projeto de vida do cuidado, defendo a vida, e a produção do jeito que meus pais me ensinaram, natural. Foi assim que eu me envolvi, e nesse projeto de vida e do cuidado não saio”.
Camponesa de nascença, chegou ao mundo no dia 7 de agosto de 1952, no sudoeste do Paraná. Era a mais velha de 11 irmãos e irmãs. Como filha mais velha na época, ajudava a tomar conta dos mais novos. O pai peleou na Revolta dos Colonos, em Francisco Beltrão. Apesar de muito criança, ela lembra da recomendação do pai: “Se chegasse gente estranha era para mãe e as crianças correrem pro mato”.
Apesar da vida difícil, ela garante que teve uma infância feliz. Estudou até a terceira série, na comunidade onde vivia. Depois do fim da Revolta e da vitória dos colonos, a família se mudou para Cruzeiro do Iguaçu, em Dois Vizinhos, para morar numa comunidade chamada Pedra de Ouro. Era um lugar muito sinuoso e pedregoso. Lugar difícil. Ali cresceu e se casou. O desejo de continuar estudando seguiu como um sonho para o futuro. Com 17 anos teve o primeiro filho.
A realidade vivida pela família era parecida com a da maioria do povo Sem Terra. Seus pais tinham um pequeno lote, que logo ficou insuficiente para repartir entre os 11 filhos, e para as novas famílias que iam se formando conforme os anos passavam. A terra pra comprar era cara. O trabalho na roça era braçal, feito com tração animal, arado de boi e cavalo. As construções dependiam da força no serrote. Os mutirões e puxirões eram as formas de trabalho coletivo para vencer os tantos desafios da vida na roça.
Com 32 anos, em 1984, começa a se envolver com atividades da Igreja Católica. Fazia leituras, ministrava catequese, trabalhava nas comunidades com a Pastoral da Terra e tinha um trabalho no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, com as ervas medicinais. Naquela época, Areolino Morais, nosso querido Seu Chocolate, era o presidente do sindicato.
A relação com as plantas medicinais e a Saúde Popular vinha de longe. A avó de Dona Maria era parteira e benzedeira. O pai e a mãe eram conhecedores dos remédios naturais, buscavam a alimentação natural e o cuidado com a floresta. Ela contava que a sua atuação na Saúde Popular foi por vontade própria, mas também porque já fazia parte da cultura da família.
Maria até então não havia descoberto que também era uma Sem Terra. A influência dos pais também se estendia à política. O pai também fazia parte do sindicato e era muito envolvido na comunidade. A mãe fazia parte da igreja e também da educação e da organização comunitária.
Dona Maria ajudava a encaminhar as pessoas que tinham condições ainda mais difíceis que as dela – moravam de agregados. Com o tempo, o trabalho sindical e religioso se transformou em organizar famílias para acampar. Foi em 1988 que Dona Maria e a família deixaram a casa dos pais, e foram em busca de conquistar o pedaço de terra.
O sonho era ter um espaço para viver bem e para criar os filhos, ensinar a trabalhar, ensinar a dignidade, os valores e acesso ao estudo. Os pais deram muito apoio para que ela entrasse no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) – arrumaram para ela muito arroz crioulo, feijão, e ela decidiu ir para o acampamento. Dona Maria fez parte de um grupo de 3.500 famílias, organizadas para ir para uma ocupação em Rio Bonito do Iguaçu. A viagem foi num caminhão boiadeiro, com 19 famílias, homens, mulheres e muitas crianças. A mudança tinha o principal das trouxas de um acampado: colchonete, cobertor, uma chapa para fazer comida e os alimentos. Foram cobertos de lona para despistar a polícia.


Registro do acampamento em Inácio Martins. Fotos: Arquivo MST
Quando estavam quase chegando em Rio Bonito, ficaram sabendo de um ataque de um grupo de jagunços armados, que esperava em tocaia. A jornada desviou e seguiu até Inácio Martins (PR), e a ocupação enraizou em uma terra ainda bruta, sem alimento, num dia de geada. As condições de vida eram precárias e o clima de frio era severo. Algumas crianças e adultos faleceram por frio, gripe, pneumonia, debaixo da lona preta.
Nesse momento de luta pela vida, Dona Maria integrou o Setor de Saúde. Organizava a produção de chás medicinais e também a garantir melhores condições de alimentação para o povo. Desde sempre, o trabalho era coletivo com outras pessoas da comunidade e também com nossa grande camarada Irmã Lia (1933-2025), que tanto contribuiu com a resistência do povo Sem Terra nos tempos mais difíceis. Depois de muita batalha, aquelas terras griladas, sem nenhum documento, se tornou o assentamento José Dias.
Roberto Baggio, integrante da direção nacional do MST, conta que conheceu Dona Maria nesse cenário de muita dificuldade, muita fome e muito frio. Mas afirma que, com o Coletivo de Mulheres, ela tomava a iniciativa: “‘Vamos amenizar a fome, achar alternativas para comer para aquelas milhares de mulheres e crianças’. Então, era o sopão, era a mandioca, era o mínimo necessário para cuidar da vida em situações difíceis. E, fundamentalmente, das crianças.”
Dona Maria se orgulhava em contar que fez parte daquela luta e daquela vitória tão difícil e marcante na história do MST do Paraná. Porém, buscou uma nova comunidade, de produção livre de veneno, onde seus filhos pudessem ter acesso à educação. Se mudaram para Cantagalo (PR), mas o projeto de produção agroecológica fez com que se fixassem no assentamento Contestado.
Luta pelo SUS e as conquistas comunitárias
Foi no Contestado, na Lapa, que Dona Maria fortaleceu a construção do Setor de Saúde do MST, como uma das integrantes do coletivo de Saúde Popular do assentamento. Foi uma das grandes defensoras e construtoras da Unidade Básica de Saúde (UBS) Chica Pelega, uma conquista coletiva, que tem a energia, as mãos e as batalhas da Dona Maria. É também ao lado da UBS que está outra conquista histórica para o MST: um horto medicinal integrado à saúde pública, com uma sala específica para o trabalho da Saúde Popular.
Na terra que conquistou com muita luta, era militante da agroecologia. Cultivava a diversidade de alimentos, plantas medicinais e a água boa, que defendia como remédios. Denunciava com força as consequências do modelo capitalista, do agronegócio e os efeitos perversos dos agrotóxicos na saúde humana e para a natureza.
Maria criticava com firmeza o ciclo de envenenamento do agronegócio e da indústria farmacêutica. “Ingestão de comida envenenada e de água contaminada levam o povo a ingerir medicamentos alopáticos, que também envenena. Tratam só dos sintomas e não vão na causa, por isso defendemos a farmácia viva, o respeito, diálogo e solidariedade, não para só produzir lucro”.
“É uma vida dedicada ao cuidado humano. Há beleza maior que isso?”, afirma Baggio. O dirigente compara o avanço histórico da luta popular no MST, pela saúde, que é inseparável da vida de Dona Maria. “Lá, no acampamento, era a colher de sopa que salvou. Um prato de comida a mais, uma roupa a mais que ajudava. Aqui já é um projeto de Saúde Popular que dá outra função para a existência”, explica.
Para Baggio, a experiência de saúde da UBS Chica Pelega, do Contestado, é a mais completa que temos na Reforma Agrária Popular. E Dona Maria, junto com o coletivo, colocou de pé essa bela experiência. No velório de Dona Maria, no Casarão do assentamento, Baggio deixou também relatou: “Certamente, todos nós que estamos aqui, em algum momento ela cuidou de nós. Todos. E muitos que não estão aqui também foram cuidados por ela. Muitos. E talvez hoje a gente não consiga entender esse momento.”
Era conselheira titular do Conselho Municipal de Saúde, representando o MST. “Sua dedicação ao controle social e à defesa da saúde pública deixaram uma importante contribuição para o fortalecimento do SUS em nosso município”, expressou a nota de pesar emitida pela Secretaria Municipal de Saúde da Lapa.




Contribuindo com a formação de adolescentes e jovens, durante um Encontro de Capacitação em Comunicação, Arte e Agroecologia (Ecoa), e mostrando o horto medicinal da Unidade de Saúde Chica Pelega. Fotos: Ednubia Ghisi
Pandemia, Vigília Lula Livre e brigadas de solidariedade






Dona Maria esteve no primeiro grupo de militantes do MST a se somar no acampamento Lula Livre, contribuiu de forma permanente, e também estava no dia em que o presidente foi libertado, 580 dias depois.


Produção do composto de mel com açafrão durante a pandemia da Covid 19, que foram doados junto com cestos de alimentos a famílias de Curitiba. Fotos: Wellington Lenon
Ajudou milhares de pessoas com suas práticas de terapias alternativas, com a escuta, os chás, as tinturas e a famosa mistura de mel com açafrão durante a pandemia. Participou de inúmeros momentos, encontros e atividades do MST e de luta da classe trabalhadora, durante toda vida.
Um dos momentos marcantes foi a contribuição com a Vigília Lula Livre, entre 2018 e 2019. Dona Maria estava no primeiro grupo de militantes do MST que acampou nas ruas próximas à Polícia Federal, com a barraca de atendimento à saúde da militância que resistia na Vigília. Foram 580 dias de organização coletiva da Saúde Popular, dezenas de companheiras e companheiros que conheceram e conviveram com dona Maria.
Outra ação em que dona Maria participou ativamente foi durante a Brigada de Solidariedade em Rio Bonito do Iguaçu. Ficou acampada junto com a companheirada durante semanas, somando com os atendimentos da Saúde Popular naqueles últimos dois meses de 2025, após a catástrofe climática, em 7 de novembro, que deixou 7 mortes, mais de 800 pessoas feridas e milhares de desalojadas.
Concentrados no assentamento 8 de Junho em Laranjeiras do Sul (PR), Dona Maria integrou o atendimento dos cerca de 1.000 militantes Sem Terra que passaram pela Brigada, durante os 43 dias de trabalho coletivo para reconstruir parte do que havia sido perdido.
Sobre o sonho de estudar e a realização plena como ser humano
A militância de Dona Maria é um exemplo para a nossa organização. Dedicada, solidária, comprometida, generosa e aguerrida. Trazia sempre o sorriso, a força da participação ativa, com a sua palavra e sua postura de acolhimento, cuidado e aconselhamento, com sua prática cotidiana e permanente.
Dona Maria, pelas difíceis condições na infância e adolescência, estudou até a terceira série na comunidade, mas sempre enfatizava o valor do ensino e do acesso ao conhecimento. Estava a todo momento estudando e buscando cursos, intercâmbios e atividades para aperfeiçoar suas práticas e para compartilhar sabedorias.
Maria, neste ano, se formou no Curso de Extensão em Práticas Integrativas de Saúde (PICS) com Ênfase em Fitoterapia, realizado entre 2024 e 2025 – a formatura foi realizada no Casarão histórico do assentamento Contestado, em janeiro de 2026.
“Nós também fomos para o Rio Bonito nessas duas últimas semanas. Ela estava fazendo outro curso. Veja aí, ela não se contentou com aquele outro. Ela estava fazendo o curso das brigadas populares no atendimento às catástrofes. E fazendo o curso da AgPop SUS, que é um curso pra defender o SUS”, relata Izabel Grein, militante do Setor de Saúde do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Paraná.
A militante conta que a maior alegria de Dona Maria era o estudo dos filhos – sempre na perspectiva do cuidado. “Esse é o legado que ela deixa para nós. Cuidar dos outros é o mais importante na vida humana. Aqui na Escola, ela cuidou. Lá no Lula Livre, ela cuidou do povo que vinha de todo lugar. Por isso ela é conhecida em todo lugar”, finaliza.
Dona Maria partiu rodeada da militância Sem Terra, num encontro da organização do estado. “O encerramento da vida dela é misterioso, porque o testemunho dela em todas as falas era de uma mulher realizada humanamente, e fez menção à origem, lá em Inácio Martins. Realizada por tudo o que coletivamente foi construído. Por isso que é misterioso”, descreve Baggio.
“E estava junto com ela quem? Um grande grupo de militantes, dirigentes, que estão juntos há 40 anos. Me veio muito a imagem para mim da ceia. Ao redor de Jesus também tinha um conjunto de discípulos. Testemunhando um legado. Um legado”, conta.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem uma gratidão imensa pelo legado também imenso de Dona Maria. Seu corpo foi devolvido à Mãe Terra, mas seus ensinamentos e sua presença militante estarão sempre fortalecendo nossas fileiras – seu exemplo seguirá sendo cultivado.
Dona Maria presente, presente, presente!


Durante a formatura em práticas integrativas de Saúde e lançamento da cartilha do Setor de Saúde, em fevereiro de 2026. Fotos: Wellington Lenon.





Em atividades junto ao Setor de Saúde e a turma de Enfermagem pelo Pronera, da qual foi entusiasta. Fotos: Arquivo MST
*Editado por Fernanda Alcântara



