Eleições 2026
Candidaturas Sem Terra miram ocupar parlamentos e avançar na Reforma Agrária Popular
Com lançamento de plataforma de candidaturas próprias para 2026, Movimento intensifica a luta para enfrentar o agronegócio e garantir a democratização da terra no Brasil

Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra apresenta este mês sua plataforma para as eleições de 2026. São 15 candidaturas próprias, distribuídas em 13 estados do país, com um objetivo comum de levar o projeto da Reforma Agrária Popular para dentro das Assembleias Legislativas e do Congresso Nacional.
O documento lançado pelo Movimento é uma síntese política, construída coletivamente, que orienta o comportamento de cada candidata e candidato antes, durante e depois do pleito. Trata-se de transformar o voto em instrumento de pressão sobre estruturas que o Brasil, apesar de todas as conquistas populares, ainda não resolveu a concentração de terra, a fome e a desigualdade social que continuam sendo a marca registrada de um país onde 1% da população concentra a riqueza produzida pela maioria.
A decisão de reforçar a disputa institucional não nasce isolada, tão pouco é uma novidade. Ela ocorre em meio a uma crise estrutural do capitalismo e à decadência do imperialismo, que tenta recompor sua hegemonia sobre a América Latina através da pressão econômica e política. Para o Movimento, ocupar o parlamento é uma frente necessária da luta de classes, um espaço onde o povo organizado enfrenta o poder do capital financeiro e a influência histórica das elites agrárias.

Mas antes de falar em urna, o MST fala em formação, como explica Elaine Oliveira, do MST na Bahia, que defende que a disputa eleitoral só faz sentido quando está ancorada num processo mais amplo de consciência política. “A educação popular é um dos pilares da construção política do MST, porque forma sujeitos comprometidos com a transformação da sociedade. A educação popular ensina que o mandato não pertence à pessoa eleita, mas é fruto da luta coletiva construída por centenas e milhares de trabalhadores e trabalhadoras, que organizam seus territórios, os assentamentos, os acampamentos do Movimento Sem Terra”.
Este conceito de educação e política é transmitido geração após geração nas escolas de formação e sustenta o documento das 15 linhas políticas apresentado neste ciclo eleitoral, a partir de um conjunto de diretrizes que não nasceu de um gabinete, mas da prática acumulada de décadas de organização popular no campo brasileiro.
Gene Santos, da Direção Nacional, coloca esse mesmo processo dentro de uma leitura de conjuntura mais ampla. Para ele, o período eleitoral é, antes de tudo, um momento privilegiado de disputa de ideias com a sociedade brasileira. Em suas palavras, “estamos vivendo um período muito importante na luta de classe, que é o período eleitoral, um momento de debate com a sociedade sobre os principais problemas”. Nesse cenário, afirma o dirigente, cabe ao MST e aos demais movimentos da classe trabalhadora um papel específico e urgente.
Para Gene, é preciso dialogar de forma concreta com o povo, debatendo os problemas reais e trazendo presente o debate sobre a Reforma Agrária Popular como uma das saídas para superação de problemas históricos. A fome, a crise ambiental e o desemprego não são, para o dirigente, temas de campanha isolados, mas sintomas de um mesmo modelo de desenvolvimento que o Movimento propõe enfrentar a partir da produção agroecológica de alimentos. E Elaine Oliveira reitera que o documento lançado será este instrumento de controle popular sobre o próprio mandato, pensado para evitar que a institucionalidade se torne um fim em si mesma.
Construímos esse documento, as 15 linhas políticas que estão dadas agora para esse próximo pleito, para que este cumpra exatamente o papel de reafirmar princípios, compromissos e diretrizes que orientam a atuação dos nossos candidatos antes, durante e depois das eleições”
Elaine Oliveira
Esse cuidado metodológico dialoga diretamente com o que Gene Santos chama de proposta concreta de país. Para ele, “vivemos no Brasil principalmente com o problema da fome, da questão ambiental, do emprego e da renda”, e é justamente por isso que o Movimento entende esse período eleitoral como uma oportunidade de apresentar à sociedade brasileira sua proposta de Reforma Agrária numa perspectiva agroecológica. O dirigente detalha que essa proposta passa pela mecanização respeitosa da agricultura, pela produção de alimentos saudáveis e pela garantia de que o campo continue sendo, nas suas palavras, um lugar bom de se viver.
O Parlamento como trincheira contra o agronegócio

A disputa institucional que o MST propõe não se resume a eleger nomes comprometidos com pautas populares, mas também define um adversário claro e nomeado. Ao longo de décadas, o Movimento tem chamado de “bancada do boi” o setor do parlamento que representa as elites fundiárias, historicamente responsável por barrar qualquer avanço na Reforma Agrária.
A tática de ocupar a política institucional, segundo o documento apresentado este mês, busca romper — ou ao menos reduzir — o domínio desse grupo, que segue utilizando cargos públicos para fins privados e coloniais. “A/O deputada/o estadual, a/o deputada/o federal, só faz sentido quando está na institucionalidade subordinado ao poder popular”. Por essa razão, defende a militante, os representantes eleitos pelo Movimento devem continuar presentes nos assentamentos, acampamentos, periferias, escolas, sindicatos, igrejas e demais espaços de organização do povo, fortalecendo a participação popular como fundamento da democracia.
Além disso, essa presença constante nos territórios, explica Elaine, tem uma função protetiva, funcionando como um antídoto contra o distanciamento que costuma capturar quem assume um cargo público. Segundo a dirigente baiana, “os candidatos e candidatas funcionam como uma referência política permanente, lembrando que a institucionalidade é um espaço de disputa e não um lugar de acomodação”. Quando o vínculo com a base se mantém com escuta, diálogo permanente e prestação de contas reduz-se significativamente, na avaliação dela, o risco de o mandato se afastar do projeto coletivo que lhe deu origem.
Sobre o agronegócio e sua presença hoje no Congresso, Gene Santos afirma que é fundamental que o período de campanha sirva também para expor, sem meias palavras, os efeitos concretos desse modelo produtivo sobre o campo brasileiro.

[O agronegócio] é um promotor de violência contra trabalhadores, trabalhadoras, ribeirinhos, camponeses, camponesas e comunidades originais. O agronegócio de monocultura e commodities joga centenas de milhares de litros de veneno na natureza, contamina o solo e a água, acaba com nossas matas. É violento com as pessoas e principalmente com a natureza, e o processo eleitoral é um momento também para denunciarmos todas as violências”
Por isso, defende o dirigente, o processo eleitoral precisa ser também um momento de denúncia e não apenas de pedido de voto, mas de confronto público com quem historicamente lucra às custas da destruição do território. Para ele, politizar o processo eleitoral significa recusar uma abordagem meramente eleitoreira. “Vivemos em uma sociedade em disputa, que existe projeto de sociedade em disputa”. É esse enfrentamento de projetos — o do agronegócio contra o da Reforma Agrária Popular — que dá sentido às candidaturas Sem Terra.
E essa disputa não se limita ao momento do voto, lembra Elaine. Ao detalhar a relação entre institucionalidade e organização de base, a dirigente da Bahia reforça que ocupar cargos públicos é apenas uma frente entre várias, nunca a frente principal. É essa mesma lógica, mandato como instrumento, nunca como fim, que orienta o texto das 15 linhas políticas apresentado pelo Movimento e que deve nortear toda a atuação dos candidatos eleitos nas próximas legislaturas.
Reforma Agrária Popular e Soberania Nacional

João Pedro Stedile, dirigente nacional do Movimento, vem sintetizando essa posição ao afirmar que o voto é fundamental, porém insuficiente se não vier acompanhado de um estímulo permanente à luta de massas organizada nas ruas e nos campos pois só a mobilização é capaz de arrancar conquistas e mudanças estruturais duradouras. Elaine Oliveira detalha este princípio a partir da experiência acumulada nos assentamentos . “O MST compreende essas candidaturas como parte de uma estratégia mais ampla de luta da classe trabalhadora, pois ocupar a política institucional não substitui a ocupação do latifúndio improdutivo nem reduz a centralidade da Reforma Agrária Popular”.
A dirigente lembra que esse grande projeto de nação segue em construção permanente, e que a história do Movimento comprova, passo a passo, os limites da via puramente institucional, porque “nenhuma conquista ocorreu apenas pela via institucional: cada assentamento, cada política pública e cada direito conquistado foi resultado da organização de massa, da mobilização coletiva e da pressão social sobre o governo”.
É esse acúmulo histórico, construído em mais de quarenta anos de luta em muitos dos espaços do Movimento, que sustenta a confiança do Movimento na disputa eleitoral sem abrir mão da ocupação como ferramenta legítima de pressão popular. “O processo eleitoral é um período de pedir voto e de eleger as candidaturas comprometidas com a classe trabalhadora, mas é um momento também de fazer denúncia contra aqueles e aqueles que historicamente têm trabalhado contra o povo brasileiro, de forma especial contra as camponesas e os camponeses”.
Assim, cada uma das campanhas cumpre uma dupla função: eleitoral e formativa. Do ponto de vista programático, o documento apresentado pelo MST detalha propostas econômicas concretas que devem orientar a atuação dos parlamentares eleitos, como a taxação do agronegócio e dos agrotóxicos, a revogação da Lei Kandir, o controle popular sobre o Banco Central, a redução da jornada de trabalho e a implementação de programas habitacionais robustos para a classe trabalhadora. São medidas que buscam garantir trabalho digno para os milhões de brasileiros hoje submetidos à informalidade, um contraponto direto ao modelo de acumulação que o agronegócio exportador representa.

A lista de candidaturas lançada este mês reflete essa diversidade de sujeitos que compõem a classe trabalhadora do campo e da cidade, com mulheres negras, juventude organizada e a militância LGBTQIA+, como o caso de Ruth Venceremos, candidata no Distrito Federal. Todas elas carregam o compromisso de democratizar o acesso à terra e de assegurar produção agroecológica também para as periferias urbanas, ampliando assim o alcance social de uma proposta historicamente identificada apenas com o meio rural.
Elaine Oliveira finaliza situando o lugar em que o mandato deve ocupar na estratégia do Movimento. Para ela, os candidatos e assentados têm clareza de que as candidaturas estão vinculadas ao projeto popular, ao Movimento, e têm o papel de fortalecer e defender políticas públicas, enfrentar os interesses do capital e abrir caminhos as lutas sociais.
“O mandato deve ser uma extensão da luta do povo e não um substituto dela. Ocupar a política significa levar a voz dos trabalhadores para os espaços de decisão, sem abandonar as ruas, os territórios e a organização de base”. A força do MST, conclui as lideranças, continuará sendo sua capacidade de mobilizar o povo, formar consciência crítica e construir poder popular,sendo os mandatos apenas instrumentos dessa estratégia, nunca seu objetivo final.
O horizonte internacional também está presente no documento. O manifesto do MST reafirma solidariedade aos povos de Cuba, Venezuela e Palestina, denunciando a perseguição promovida por potências imperialistas e por governos alinhados ao projeto fascista. Trata-se de uma visão de mundo que conecta a luta local pela Reforma Agrária à resistência internacional contra a opressão do capital financeiro. O verdadeiro projeto popular que busca, no plano global, uma ordem multipolar onde a cooperação entre povos prevaleça sobre a lógica da guerra.
Ao consolidar as 15 candidaturas em 13 estados, o MST sinaliza que a conquista definitiva da terra exige, ao mesmo tempo, inteligência política e mobilização constante nas bases. O impacto esperado, segundo o próprio documento, é a formação de uma bancada popular capaz de pautar o desmatamento zero e a agroecologia como prioridades nacionais dentro do Congresso. Em 2026, resume o Movimento, o povo Sem Terra pretende ocupar as urnas com a mesma firmeza histórica com que ocupa o latifúndio improdutivo para alimentar a nação.
Confira abaixo o documento:
Veja as candidaturas do MST em 2026:
*Esta reportagem tem como base os materiais e as informações disponíveis até 7 de agosto de 2026, podendo ser atualizada posteriormente.



