Agro é Agrotóxico
O veneno atravessa a cerca e destrói roças em todo o Brasil
Levantamento do Joio localizou 67 processos envolvendo perdas de 55 tipos de cultivos e criações em 12 estados; demora nas perícias dificulta responsabilização de fazendeiros e usinas, enquanto agricultores familiares, povos indígenas e quilombolas são forçados a abandonar atividades produtivas

Por Julia Dolce
Do O joio & O trigo | Mapa das Perdas Alimentares
“Mitã opyrõ hatã haguã ko yvyre” é uma reza repetida pelo povo indígena Avá-Guarani durante uma cerimônia importante para o seu nhanderekó, ou “modo de vida”: a apresentação de recém-nascidos para as roças. A frase pode ser traduzida como “para que possam as crianças pisar firmes nessa terra”.
“É para que elas consigam se desenvolver sem doença, igual as sementes que vêm resistindo ao longo do processo de colonização, em que tentam apagar não só nossa existência, mas nosso cultivo tradicional”, explica Vilma Vera Rios, indígena Avá-Guarani e coordenadora regional da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY).
Nessa cerimônia, o cuidado é mútuo. Os bebês são carregados entre os cultivos, para que o vínculo estabelecido fortaleça plantas e crianças. Há também outro ritual para garantir que as roças vinguem, esse realizado dentro de casas de reza – o batismo das sementes crioulas dos Avá-Guarani.
A proteção extra não é descabida. Em toda a Tekoha Guasu Guavirá, terra indígena reivindicada pelo povo indígena, conflitos violentos com fazendeiros sobrepostos ao território têm impactado diretamente a produção de alimentos. Uma das principais ameaças é a contaminação por agrotóxicos pulverizados por essas fazendas, produtoras de soja e milho.
“Somos rodeados pelo agronegócio, que cada vez mais avança dentro do território. O veneno se espalha pelo ar e pelo chão. Quando vem a chuva, escorre por todos os lados”, relata Vilma, ressaltando o impacto em todas as formas de vida: humanos, bichos e plantas. “Tudo está ligado em um corpo só”, completa.
Vilma já viu diversas plantas tradicionais do seu território desaparecerem por conta dos agrotóxicos, desde ervas utilizadas com propósito medicinal até variedades de amendoim e de milho, cultivos que estão na base da cultura alimentar guarani. “Hoje os anciãos têm medo de a gente plantar e perder as sementes”, conta.

O Joio esteve na Tekoha Guasu Guavirá e em outras regiões do país para documentar esse desaparecimento. Esse esforço faz parte do Mapa das Perdas Alimentares, projeto que investiga as causas da redução da diversidade alimentar no Brasil. A contaminação de roças por agrotóxicos de fazendas vizinhas ocorre em diversos locais do país.
Em um levantamento não exaustivo de processos judiciais, o Joio localizou 67 casos únicos relacionados a perdas provocadas pela dispersão de agrotóxicos para fora da área de aplicação, em 12 estados. Foram identificados 55 cultivos e criações diferentes perdidas por essa contaminação.
Perdas alimentares por contaminação

O enfrentamento à perda de biodiversidade faz parte do trabalho da assistente técnica rural Elisa Koefender, que atua com os Avá-Guarani por meio da Comissão Guarani Yvyrupa. “Há uma tentativa de se homogeneizar tudo. Os indígenas acabaram perdendo biodiversidade tanto pela violência quanto pela falta de acesso ao próprio território”, revela.
Por esse motivo, tentar resgatar variedades de sementes crioulas perdidas faz parte da rotina de Elisa. “Eles sempre falavam que tinha um avaty [milho em guarani] maizena específico, usado para fazer a chicha, uma bebida sagrada, que se perdeu.”
A pulverização de agrotóxicos e a contaminação cruzada do milho crioulo com o milho transgênico cultivado pelas fazendas têm sido obstáculos para esse resgate. “Muitas plantas que a gente traz para o território morrem por conta da deriva. Prejudica demais. É difícil até para a gente fazer uma barreira, porque os fazendeiros destroem, passam trator em cima”, explica a assistente técnica e rural.

Deriva é o termo técnico para as gotículas de agrotóxico que são transferidas pelo vento. A extensão da deriva varia conforme o método de aplicação – trator, avião ou drone –, as condições climáticas e o respeito às distâncias mínimas de segurança. Em determinadas condições, ela pode alcançar quilômetros e contaminar áreas vizinhas.
Justamente pelo descumprimento dessas condições, é crescente a compreensão dessa contaminação como uma arma química, e não simplesmente um fenômeno acidental. É o que explica a engenheira agrônoma e pesquisadora Fran Paula, integrante da coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.
“Se é algo passível de ser monitorado e evitado, essa contaminação e destruição de roças em áreas próximas às fazendas de monocultivos que utilizam excessivamente os agrotóxicos devem ser consideradas um atentado à soberania, à segurança alimentar e à sobrevivência dessas comunidades. Não geram apenas perdas produtivas e econômicas, mas perdas sociais, culturais e identitárias”, aponta.
Para Fran, o Brasil vive uma verdadeira guerra química, similar ao ataque às áreas de produção de alimentos durante guerras, “onde os agrotóxicos também eram utilizados como arma, com intencionalidade de destruir áreas de produção e alimentos dos inimigos”, ressalta.
A engenheira agrônoma reitera que, em muitos casos, há uma intencionalidade nas contaminações em regiões de conflitos fundiários: “como estratégia de pressão, para fortalecer o êxodo rural nesses territórios”, explica.
Na Tekoha Guasu Guavirá, Elisa relata episódios que, segundo ela, ultrapassam a deriva acidental. “Às vezes não é nem deriva, é passar o veneno direto em cima das casas, das pessoas, das lavouras, indiscriminadamente. Ninguém consegue fugir. Passam para mandar os indígenas embora”, revela Elisa.

Os relatos ocorrem em um contexto de forte aumento das contaminações por agrotóxicos registradas em conflitos no campo. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o número de famílias atingidas passou de 377, em 2010, para 17.027, em 2024 – mais de 45 vezes o total registrado 14 anos antes.
Contaminações crescem, mas responsabilização esbarra na falta de provas
O crescimento dos registros, porém, não tem sido acompanhado por respostas capazes de interromper as contaminações ou reparar as perdas. A aldeia Guarani, parte da Tekoha Guasu Guavirá, vive um dos cenários mais críticos dessa contaminação. Por lá, onde os moradores são completamente cercados por lavouras de soja, as crianças indígenas frequentemente vão parar no pronto-socorro com sintomas de contaminação, e os cultivos dificilmente vingam. É o que conta o cacique Ronaldo Martines Esquivel.
“Para as crianças, dá dor de cabeça e vômito. Para o que a gente planta, a produção é muito fraca, devido ao agrotóxico. Não temos mais acesso a muitas variedades: batata, mandioca, amendoim – apodrece tudo”, lista.
A comunidade já judicializou as contaminações, mas ainda não obteve resposta na Justiça. Enquanto isso, os casos seguem. “Até o cumprimento das distâncias mínimas de segurança é uma luta. Eles continuam passando agrotóxico até que o juiz determine que respeitem o perímetro de segurança”, afirma o cacique.
O caso também foi levado a uma instância internacional de responsabilização empresarial. A contaminação dos Avá-Guarani foi um dos quatro casos apresentados por seis organizações em uma denúncia contra a Bayer, em abril de 2024, ao órgão alemão responsável pelas Diretrizes da OCDE para empresas multinacionais.
As entidades sustentaram que a companhia, dona da Monsanto desde 2018, descumpria seu dever de prevenir impactos associados à venda e ao uso de sementes de soja transgênica resistentes ao glifosato e de agrotóxicos à base da substância. No caso brasileiro, a denúncia citou análises que detectaram glifosato e seu metabólito, o AMPA, em fontes de água de aldeias Avá-Guarani no oeste do Paraná.
Em junho de 2026, o órgão alemão aceitou discutir apenas as políticas gerais de prevenção da Bayer, deixando fora da mediação os danos sofridos pelas comunidades e os pedidos de reparação. Alegou que avaliar a responsabilidade da empresa exigiria análises científicas e jurídicas que ultrapassavam o alcance do mecanismo. As organizações recusaram a proposta e o procedimento foi encerrado. À DW, a Bayer afirmou que o resultado confirmou sua atuação de acordo com padrões internacionais.
As dificuldades enfrentadas pelos Avá-Guarani se repetem em processos movidos por outras comunidades e produtores rurais. No levantamento de ações judiciais realizado pelo Joio, predominam processos em que vítimas da deriva buscam reparação por danos materiais e morais. Há também ações civis públicas que denunciam casos de contaminação coletiva, bem como ações destinadas a impedir novas pulverizações que possam contaminar áreas vizinhas.
A reportagem pesquisou, no filtro de jurisprudência da plataforma Jusbrasil, os termos “deriva de agrotóxico” e “perdas” e selecionou processos cujos documentos relacionavam a dispersão de agrotóxicos a danos em cultivos ou criações. Depois da retirada de duplicidades e de registros fora do recorte, a base reuniu 67 processos únicos em 12 estados. Como nem todos continham uma decisão sobre a responsabilidade pela contaminação, a análise dos resultados judiciais foi limitada a 59 ações civis com decisão de mérito válida.
Explicação do recorte e dados de decisões

Jurisprudência das ações que denunciam a contaminação de roças por agrotóxicos
Em 35 dos 67 processos (52%), havia cultivo de soja e/ou cana-de-açúcar na área apontada como origem da pulverização. A soja aparece em 20 casos (30%) e a cana, em 16 (24%); um dos processos envolve as duas culturas. Em 15 casos (22%), os documentos reunidos não permitiram identificar a cultura sobre a qual o agrotóxico era aplicado.
Um dos principais obstáculos enfrentados por quem busca reparação é demonstrar o nexo causal entre a pulverização atribuída ao réu e as perdas sofridas. A ausência de prova suficiente dessa relação aparece repetidamente como fundamento para a rejeição dos pedidos.
“Uma causa ganha, mas nós perdemos” – o caso do Assentamento Regência
“Não dá nem pra contar uma coisa dessas: uma causa ganha e nós perdemos. A Justiça foi contra nós”, resume José Luiz das Chagas, agricultor que vive no Projeto de Assentamento Regência, em Paulicéia, município do extremo oeste de São Paulo.
Ele e seus vizinhos assentados convivem há anos com a perda de produção contaminada pela deriva dos agrotóxicos pulverizados pela Usina Caeté, que planta cana-de-açúcar do outro lado da estrada vicinal que margeia o assentamento.

A chegada da usina foi um banho de água fria para os agricultores. Eles já haviam enfrentado uma década acampados em barracos de lona para conquistar a área onde seria criado o assentamento, então uma fazenda improdutiva. Nesse período, sofreram 15 despejos por ações de reintegração de posse.
Em 2004, parte das terras finalmente foi destinada à criação do Regência e de outro assentamento vizinho. A maior parte das terras, porém – uma área equivalente a cerca de 1,6 mil campos de futebol – foi excluída do projeto.
Dois anos depois, a Caeté se instalou em Paulicéia e passou a arrendar milhares de hectares no município. Ela logo passou a plantar cana-de-açúcar nesse mesmo pedaço da fazenda que não se tornou assentamento. E não demorou a causar problemas para os recém-assentados: de queimadas provocadas pela usina à contaminação de roças.
Mas foi apenas duas décadas depois, em março de 2023, que ocorreu o episódio mais severo de contaminação.
“Eles começaram a passar veneno às sete da manhã. Às dez, a gente não suportava mais o cheiro forte, e as plantas começaram a murchar. Tudo que fazia divisa com a cana, em nove lotes do assentamento, murchou instantaneamente: colorau, feijão, mandioca”, lembra José, que à época era presidente da Associação dos Agricultores Familiares do assentamento.
Na época, José criava abelhas e chegou a perder dezenas de colmeias para o veneno da usina. “Já perdi muitos enxames para o agrotóxico. Já teve tanta abelha morta que até fedia”, lembra.

Hortaliças, abóbora, melancia, árvores frutíferas. Safras que garantiam a subsistência e a renda dos agricultores do Regência durante todo o ano foram destruídas de uma hora para a outra. O prejuízo foi amplamente documentado. Os assentados estimaram os prejuízos materiais e morais em R$ 2,3 milhões.
“Nós tínhamos boletim de ocorrência, depoimento de vereador, registro de uma visita da própria usina à área constatando que o veneno havia matado tudo”, afirma José. O processo também reuniu relatórios agronômicos de contaminações anteriores. Para preservar as provas da contaminação, recorreram à Justiça com uma ação de produção antecipada de prova, procedimento destinado à realização da perícia que poderia fundamentar uma futura ação indenizatória.
Mas nada foi suficiente: a ação foi julgada improcedente em primeira e segunda instâncias. Segundo Eduardo de Macedo Cunha, advogado da Comissão Pastoral da Terra que representou os agricultores do Regência na ação, passaram-se seis meses até que a perícia fosse realizada. O resultado foi inconclusivo.
“Depois de seis meses do caso, você não encontra o veneno, ou a própria perda. Encontra só relatos, pessoas que sofreram e estão sofrendo até hoje com essa situação”, afirmou. Eduardo ressalta também que, à época do caso, a Polícia Militar Ambiental se recusou a realizar uma perícia no assentamento. Procurada, a instituição não respondeu.

Depois da produção da prova, o juízo de primeira instância encerrou o procedimento. Em novembro de 2025, a 34ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo negou o recurso dos agricultores e entendeu que a ação de produção antecipada de prova não poderia ser transformada em uma ação indenizatória.
Os desembargadores não decidiram se a Usina Caeté havia provocado a contaminação nem se os agricultores tinham direito a reparação. Na avaliação de Eduardo, porém, a demora que tornou a perícia inconclusiva retirou deles a principal prova necessária para propor uma nova ação.
Emiliano Maldonado, professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, explica que o problema começa no enquadramento jurídico desses episódios. Em vez de serem tratados como danos ambientais, sujeitos aos princípios da precaução, da prevenção e do poluidor-pagador, eles acabam analisados sob a lógica de uma disputa privada entre vizinhos.
“São princípios básicos presentes em tratados internacionais que o Estado brasileiro firmou. Mas os juízes estão numa ótica de que estaríamos numa relação apenas de direito civil tradicional, de briga de vizinhos”, explica.
Essa diferença afeta diretamente a produção das provas. A Súmula 618 do Superior Tribunal de Justiça estabelece que a inversão do ônus da prova se aplica às ações de degradação ambiental. Nesse enquadramento, caberia ao responsável pela atividade potencialmente poluidora demonstrar que adotou as medidas necessárias para evitar a contaminação.
“A comprovação desse nexo de causalidade pede que sejam coletadas amostras das plantas perdidas. Só que esse tipo de coleta exigiria uma atuação firme e ágil das autoridades, que, na grande maioria dos casos, não ocorre, dificultando a responsabilização”, pondera.
A dificuldade é agravada pela escassez, sobretudo no interior do país, de laboratórios capazes de identificar resíduos de agrotóxicos em plantas, solo e água.
“Nessa relação assimétrica entre grandes fazendas e pequenas comunidades, quem tem que provar que fez a aplicação adequada de um veneno é quem está aplicando, e não a vítima”, completa Emiliano.
Tal assimetria é bastante evidente no caso do Assentamento Regência. A Usina Caeté é parte do Grupo Carlos Lyra, fundado pelo ex-senador Carlos Benigno Pereira de Lyra Neto, que já era herdeiro de usinas em Alagoas. Carlos foi irmão de outro ex-senador, o também usineiro João Lyra, pai da empresária e política Thereza Collor, ex-cunhada do ex-presidente Fernando Collor de Mello.
Já o atual representante legal da Usina é o senador Fernando Lopes de Farias (MDB-AL), que está na ativa e já utilizou o palanque no Congresso Nacional para homenagear Salvador Pereira de Lyra como um dos patriarcas do setor sucroalcooleiro brasileiro.

A Caeté tem sedes em diferentes estados e, de acordo com levantamento realizado pela reportagem, recebeu pelo menos 17 autuações ambientais do Ibama em diferentes municípios de Alagoas, Mato Grosso do Sul e do interior de São Paulo – incluindo Paulicéia. “A gente percebe que a usina é muito forte, que provoca medo nas autoridades políticas e judiciárias”, afirma o agricultor José Luiz das Chagas.
O caso de 2023 não foi a primeira vez que os assentados de Paulicéia reclamam que foram ignorados pela Justiça ao tentar denunciar contaminações causadas pela Caeté. O agricultor Atair Aparecido Bertão, também assentado no Regência, levou a um promotor local a denúncia de contaminação ocorrida nos primeiros anos de atuação da usina na região.

“Queimaram todas as minhas plantas. Juntei dez assentados e fui direto no promotor. Foi a pior coisa que fiz. Ele só deu risada. Até mandou a perícia vir, mas ela passou em outra estrada, e não aqui perto. Escreveram que não tinha acontecido nada, e a gente perdeu”, resume. Não foi possível identificar o promotor que atuou no caso.
Na contaminação de 2023, Atair perdeu colmeias e vacas leiteiras, além de mil pés de uva, prejuízo que, somando a estrutura construída para o cultivo, foi estimado em R$ 300 mil. “Não adianta recorrer, nós perdemos. Tá na mão de senadores, dos caras lá de cima, e você sabe que a lei do dinheiro é mais forte”, lamenta.
Procurada pela reportagem, a Usina Caeté informou que “respeita as decisões proferidas pela Justiça”, que tem “compromisso com o cumprimento da legislação e com a adoção de práticas responsáveis em suas atividades” e que “mantém o compromisso de respeito e diálogo com as comunidades que estão no entorno de suas operações”. Leia a nota na íntegra.
Pulverização aérea e o boom dos drones agrícolas
“O avião faz o retorno aqui por cima da nossa área, dão a volta para poder aplicar veneno na soja deles. Então com certeza cai tudo para cá, né?”, questiona Siran Nunes Souza, agricultor quilombola da comunidade Baião, que fica no município tocantinense de Almas.
Ele lista espécies importantes para a alimentação local que desapareceram nos últimos anos, após a comunidade passar a ser cercada pelas monoculturas de soja.
“Nossas árvores vão morrendo, principalmente as fruteiras, mangaba, pequi, o que a gente tinha de precioso”, lamenta Siran.
A pulverização de agrotóxicos pode ser feita de forma terrestre, por pulverizadores manuais ou por tratores, ou aérea, por aviões ou drones. Não existe uma distância mínima federal única para todas as aplicações terrestres, embora restrições possam constar das bulas dos produtos e de normas estaduais e municipais.
Já as aplicações aéreas, como a citada por Siran, geralmente causam derivas mais graves e estão sujeitas a regulamentações específicas.
Para aviões agrícolas, a regulamentação federal proíbe a pulverização a menos de 500 metros de povoações e de mananciais usados no abastecimento público e a menos de 250 metros de outros corpos d’água, moradias isoladas e agrupamentos de animais. Para os drones, a Portaria 298/2021 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) estabelece uma faixa mínima de apenas 20 metros em relação a áreas sensíveis, ressalvadas outras restrições previstas para o produto aplicado.
Esse marco regulatório é considerado permissivo, como aponta Fran Paula. “Ele atende aos interesses do agronegócio e da indústria química, e não da produção de alimentos em territórios constantemente ameaçados”, pontua.
O argumento para a menor distância em relação a áreas que deveriam ser protegidas para a pulverização dos drones é que essa tecnologia permitiria uma aplicação de maior precisão, com menos deriva.
A segurança dessa distância, porém, é questionada por um parecer técnico publicado em março de 2026 pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. “Não se tem conhecimento sobre os critérios utilizados para a determinação deste distanciamento, nem garantias técnicas para afirmar que tal distanciamento é seguro”, afirmam os autores. Procurado, o Mapa não explicou os fundamentos para o estabelecimento dos limites de distância para a aplicação de agrotóxicos.
O documento mostra também a rápida expansão da tecnologia. Em 2025, o Brasil possuía 2.722 aeronaves agrícolas tripuladas. Em junho do mesmo ano, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) registrava 8.586 drones com cadastro vigente para pulverização de agrotóxicos.
O número efetivamente em operação pode ser maior. O Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) estimou a existência de até 25 mil equipamentos, enquanto outra estimativa atribuída ao Mapa chegou a 35 mil drones agrícolas. Os números, entretanto, têm origens e critérios diferentes e não permitem determinar quantos equipamentos são utilizados para pulverizar agrotóxicos nem quantos operam irregularmente.
Emiliano Maldonado, um dos autores do estudo da Campanha, estima que, para cada drone voando regularmente, dois estejam operando sem cumprir as exigências legais. “O que a gente tem verificado é que o Mapa não tem controle algum disso”, afirma Emiliano.
Além de mais baratos e acessíveis do que os aviões, os drones também são mais difíceis de fiscalizar, o que facilita o desrespeito às condições adequadas para a pulverização. “O drone tem capacidade de operar nesse limbo jurídico”, resume o professor da UFRGS.
Não à toa, as denúncias de contaminação por agrotóxicos aumentam simultaneamente ao boom dos drones agrícolas. Nesse contexto, a distância de 20 metros tem sido considerada por pesquisadores, agricultores e ativistas amplamente ineficiente para conter a deriva.
No bojo dos casos de contaminação, crescem também as denúncias de perdas agrícolas atingidas pela deriva de drones. É o caso da contaminação das roças do Assentamento Regência, em 2023. “Tem uns quatro anos que só usam drone. Agora eles passam com o drone à noite para a gente não ver, dá pra ver só a luzinha dele”, afirmou o agricultor Atair.
Projetos de lei tentam proibir pulverização aérea
Em resposta às denúncias de contaminação por pulverização aérea, também têm se espalhado pelo país projetos de lei municipais que visam proibir a modalidade. Alguns são bem-sucedidos. É o caso da Lei 1.838/2025, cujo projeto foi apresentado pelos vereadores José Rogério de Santana Toso (PSB) e Vera Lucia Ferreira Leão Oliveira (PT) no município de Rosana, que também fica no extremo oeste de São Paulo. O texto proíbe apenas pulverização por aviões.

Em entrevista ao Joio, eles contaram que a lei foi pensada de forma preventiva, após relatos iniciais de perdas de produção em assentamentos provocadas por agrotóxicos. Boa parte da população do município é formada por famílias assentadas da reforma agrária. “São cerca de 680 famílias assentadas em Rosana, então influencia muito na arrecadação”, explica José, atualmente presidente da Câmara.
Com a chegada recente de fazendas produtoras de eucalipto em Rosana, eles temeram novos casos de contaminação e conquistaram a aprovação da proibição de pulverização por avião. A pulverização por drones, porém, segue permitida. “Existe o entendimento de que o drone é menos agressivo”, explica o vereador.
Ainda que limitadas à pulverização por aviões, legislações do tipo têm encontrado dificuldades para serem aprovadas, como ocorreu em um município vizinho de Rosana, Euclides da Cunha (SP). “Eles tentaram várias vezes aprovar, mas não conseguiram”, afirmou Vera.
Em diferentes municípios, entidades do setor atuaram contra essas propostas. Em 2025, o Joio investigou a máquina de lobby do Sindag, alinhado com fazendeiros locais, para garantir que essas legislações não avancem nas câmaras de vereadores pelo país.
Mas a proibição da modalidade não é a única medida que vem sendo tomada para impedir as contaminações. Em 2019, Florianópolis (SC) delimitou a sua região insular como uma zona livre de agrotóxicos.
O Maranhão é um dos estados que têm liderado medidas do tipo. Por lá, em 2024, o Sindag esteve presente na Câmara do município de Lago do Junco para convencer vereadores a votarem contra um projeto de lei que estabeleceria uma zona livre de agrotóxicos na região, repleta de comunidades extrativistas. Atualmente, 12 municípios maranhenses proíbem a pulverização aérea.
Essas iniciativas avançam em um estado que também lidera os registros de conflitos envolvendo contaminação por agrotóxicos no país, de acordo com o relatório Conflitos no Campo de 2024, elaborado pela CPT. Somente nos primeiros quatro meses de 2026, 200 comunidades rurais maranhenses, em 31 municípios, foram atingidas por veneno pulverizado por fazendas vizinhas, de acordo com dados da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Os drones estão por trás da maioria das denúncias no estado.
Novas pragas e insegurança alimentar
O Maranhão integra o Matopiba, acrônimo formado pelas iniciais de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Em 2015, um decreto federal instituiu o Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba e delimitou os municípios abrangidos por políticas voltadas à expansão das atividades agrícolas relacionadas à produção de commodities, incluindo investimentos em infraestrutura logística e tecnologia. O decreto foi revogado em 2020, mas a denominação continua sendo utilizada para identificar a mais recente fronteira de expansão agrícola do país.
O Joio visitou os quatro estados da região para a série de reportagens “A última fronteira”, que vem sendo publicada ao longo do último ano.
Por lá, para além das mortes de árvores nativas do Cerrado, mencionadas pelo quilombola Siran, os moradores da região têm registrado outro impacto da chegada recente dos agrotóxicos: o surgimento de pragas agrícolas anteriormente desconhecidas nas comunidades.
A mosca-branca é citada em praticamente todas as entrevistas realizadas no Matopiba. “Elas batem lá na soja e vem tudo para nós. Sugam tudo o que a gente planta aqui”, afirma o quilombola Siran.

Segundo agrônomos, o surgimento dessas pragas decorre do desequilíbrio ambiental provocado pelas monoculturas e intensificado pelo uso de agrotóxicos. Afugentadas das fazendas pelo uso intensivo de veneno, pragas associadas a culturas como a soja encontram abrigo e alimento nas roças da agricultura familiar.
A agricultora Devanir de Freitas Martins, atual presidente da Associação de Moradores do Assentamento Regência, em Paulicéia, também destaca o aumento de pragas na região do oeste paulista. “Lagartas, ácaros que não tinham antigamente, agora tem. Não sei se é por conta de um desequilíbrio. Mas tem coisas que não conseguimos mais produzir, como berinjela e jiló”, afirma.
Segundo Devanir, os diferentes efeitos dos agrotóxicos da usina Caeté têm reduzido a diversidade plantada no assentamento, o que também afeta a renda dos agricultores.

“Antes da usina tudo que a gente plantava dava, e a gente vendia cestas agroecológicas, fazia feira na cidade. Mas hoje é difícil produzir o suficiente. Faltam algumas coisas e fica ruim não ter todos os produtos”, afirma.
A agrônoma Fran Paula descreve o processo como uma imposição de mudanças nos hábitos alimentares de agricultores familiares e povos e comunidades tradicionais, como resultado dos diferentes impactos do uso de veneno por vizinhos. Certos alimentos deixam de poder ser cultivados.
“Deixam de se alimentar com alimentos que fazem parte da sua cultura alimentar, mas que também desempenham um papel importante para a sua nutrição”, explica. Ela descreve casos em que as famílias desistem e abandonam sua área de produção. “Passam a ter que consumir alimentos de fora, ultraprocessados que comprometem sua saúde”, completa.
A agrônoma ressalta que, no caso de povos e comunidades tradicionais que têm uma alimentação baseada também no extrativismo de frutas e de outras plantas nativas, essa insegurança alimentar é agravada pela contaminação de toda essa biodiversidade.
“Não são só as roças que devem ser contabilizadas como perda produtiva de alimento. A gente está falando de manejo territorial. Qualquer perda de biodiversidade deve ser considerada como um mecanismo que leva essa comunidade à insegurança alimentar e nutricional”, explica. Ela cita, por exemplo, a contaminação de áreas em pousio, que se tornariam roças nos próximos anos.
Empurrados para as commodities
Para Emiliano Maldonado, essa inviabilização da produção também tem incentivado as comunidades a plantar as mesmas commodities dos vizinhos que os contaminam, ou a adaptar a produção para espécies mais resistentes. “Na pior das hipóteses, as pessoas que conseguem permanecer em seus territórios acabam tendo que se adaptar ao projeto produtivo do agronegócio. Plantar só soja, milho, algodão, ou cana-de-açúcar, a depender da região.”
A trajetória do agricultor familiar Aguinaldo Alves Sobrinho mostra outra forma dessa adaptação. Ele e a esposa, Luciana Fialho dos Santos, vivem no bairro rural Buriti, vizinho ao Assentamento Regência, em Paulicéia. Em 2018, investiram na construção de um barracão para criar bichos-da-seda e no plantio das amoreiras usadas para alimentar as larvas. Durante alguns meses, a atividade rendeu ao casal até R$ 4 mil mensais.
Segundo Aguinaldo, pulverizações realizadas nas plantações de cana da vizinha Viralcool começaram a atingir as amoreiras e comprometer a criação.

“As amoras ficavam intoxicadas de veneno, eu dava para os bichos comerem e eles morriam todos. Às vezes eu tirava uma safra boa, ficava animado, e daqui a pouco eles passavam o veneno de novo e morria tudo. Quando acontecia do bicho sobreviver, chegava a hora dele fazer o casulo, ele não tinha força. Aí ficava aquele casulo mole, casca fina”, lembra.
A família vendia os casulos dos bichos-da-seda para a Bratac Seda, que também fornece as larvas para os agricultores. Aguinaldo conta que a empresa se juntou a eles e tentou negociar com a usina, mas não obteve sucesso. Ele e outros cinco produtores de bicho-da-seda da região foram forçados a abandonar o investimento em 2023.
“Fui persistindo, mas tive que abandonar, não achava outra saída. A usina bateu o pé que o veneno deles não saía de um raio de 500 metros da área aplicada. Falam uma palavra tão bonita que você acredita na realidade deles. Mas é tudo mentira”, afirma Aguinaldo.
Procurada pelo Joio, a Viralcool não respondeu até a publicação
O agricultor acabou derrubando suas amoras para plantar o urucum, que, segundo ele, é mais resistente ao agrotóxico. Enquanto as plantas não cresciam, teve que arranjar bicos.
“Fui trabalhar de diarista para outras fazendas, para ganhar sobrevivência”, conta. À época, o gerente da Viralcool na região chegou a oferecer serviço para Aguinaldo. “Eu falei: rapaz, você acha que eu vou deixar de trabalhar para mim para trabalhar para vocês?”.



