Cultura

A Cultura na Batalha das Ideias: 25ª Feira do MST em Alagoas debate sobre a cultura como ferramenta política em seminário 

Atividade reuniu experiências culturais e apontou processos de articulação entre arte e construção de projeto de sociedade

Foto: Priscila Ramos

Por Júlia Neves

Da cobertura colaborativa da 25ª Feira da Reforma Agrária


O seminário “A Cultura na Batalha das Ideias” abriu a programação dos seminários que farão parte da programação da 25ª Feira da Reforma Agrária em Alagoas. O momento aconteceu no Auditório dos Urbanitários e gerou o debate sobre a cultura como forma de posicionamento político e quebra de padrões e estereótipos.

Integrando a mesa, estiveram a atriz e cantora Juliana Linhares; o integrante da Quadrilha Junina Amanhecer no Sertão de Alagoas, Bruno Melo; a atriz e integrante da Escola Popular de Teatro Político de Alagoas, Ana Antunes e a militante do Movimento Sem Terra em São Paulo, Juliana Bonassa.

Durante o debate, eles puderam compartilhar suas vivências enquanto criadores de cultura popular em seus territórios e mostrar possibilidades de diálogos gerados através das iniciativas construídas.

MST e a construção do ser artístico político

A disputa de um projeto de sociedade nunca se restringe apenas à terra ou à economia, ela passa, de forma incontornável, pela conquista da imaginação e da cultura. Foi partindo dessa premissa que o movimento expandiu suas frentes para a batalha cultural, materializando em Alagoas a criação de uma escola de teatro político, iniciativa que começou no ano de 2020. Um espaço estratégico onde a arte pode se converter em ferramenta de formação, reflexão crítica e resistência popular.

Ana Antunes, atriz e militante do MST, fez parte da construção da escola de teatro e dividiu com os ouvintes do seminário como se deu essa trajetória. “Em 2020, criamos nosso primeiro curso de teatro popular e, naquele momento, só era possível de forma online. Reunimos vários parceiros do movimento e o nosso desafio foi tentar entender como fazer arte naquela época, como seria isso de fazer teatro online. A gente conseguiu organizar 16 cidades de Alagoas e 24 coletivos diferentes para fazer isso. Com a flexibilização em 2021, conseguimos produzir 18 oficinas e mobilizamos 220 pessoas. Se tornou algo tão grande que conseguimos reunir 400 pessoas numa plataforma online para ver a mostra final”, contou Ana.

Foto: Priscila Ramos

O que nasceu da urgência de criar uma articulação ativa, transformou-se em uma rede de fomento à cultura popular no estado. Mobilizados, o MST e outros coletivos e conectaram dezenas de municípios através do teatro. A iniciativa provou que a formação artística nos territórios periféricos não é apenas um escape criativo, mas um pilar na construção de novas consciências e na consolidação da luta social em Alagoas.

A cultura e a quebra de estigmas e preconceitos

Mais do que entretenimento nos palcos ou telas, a produção artística atua como uma das ferramentas mais potentes para desconstruir barreiras invisíveis. Enquanto discursos de ódio e preconceitos tentam manter identidades em caixas limitantes, a arte devolve a humanidade e a complexidade a grupos historicamente marginalizados, escancarando a urgência de pautas que a política tradicional muitas vezes insiste em ignorar. 

Contando sua trajetória de participação nas quadrilhas juninas, Bruno Melo falou sobre como, muitas vezes, os enredos das quadrilhas estavam ligados a estereótipos associados ao Nordeste, e os fazedores de arte mesmo sendo nordestinos acabavam reproduzindo também esse olhar.

“A questão da quadrilha junina envolve santos, colheita e muitas outras questões. Entretanto, começamos a perceber que poderíamos inserir temas que pudessem trazer reflexões muito além do que se esperavam de uma junina. Então os grupos, de uma forma geral, foram entendendo que poderiam trazer outros temas. Em 2018, falamos sobre meritocracia, sobre o funcionamento disso no nosso país e, em 2025, trouxemos o tema da violência contra a mulher. Um problema real que fez a quadrilha ganhar uma projeção maior. Nós precisávamos tocar num ponto que outras pessoas não tocavam”, afirmou ele.

Foto: Priscila Ramos

Ao narrar em uma manifestação cultural um problema social enfrentado por mulheres de todo o país, Bruno demonstra a força da cultura no enfrentamento e na denúncia de questões que atingem minorias, demonstrando que questão social e arte andam lado a lado.

Cultura é feita com paciência e rebeldia

No campo das artes, fazer cultura só por fazer não é um caminho. As manifestações culturais retratam períodos da realidade, ideias e ideologias, denúncias, e muitos outros destinos possíveis.

Para Juliana Bonassa, a cultura é uma grande forma de narrar épocas de opressão. Mas, para fazê-la, é preciso ter coragem e discernimento para escolher esses temas, debate muito presente dentro do Movimento Sem Terra. 

“Para nós do MST, a cultura é política. Nós nos organizamos para o funcionamento disso. Nós precisamos conhecer a história do nosso país, mas a história contada por quem sabe fazê-la, por uma visão não colonialista, não estereotipada e não como aprendemos na escola, por exemplo. Ao conhecer a história, a gente começa a se munir de cultura que conversa com esses assuntos… Cultura é feita com paciência e rebeldia”, disse a militante.

Foto: Priscila Ramos

A análise de Juliana Bonassa demonstra a responsabilidade da arte enquanto lugar de protagonismo de minorias na batalha das ideias, e reforça o papel dos artistas e movimentos sociais e culturais na promoção de uma cultura que atue no papel da desconstrução de pensamentos.

Ser artista é um ato político

Para Juliana Linhares, o momento de virada em que compreendeu seu papel político enquanto artista veio da constatação de que a sua arte incomodava as estruturas estabelecidas. Ao resgatar as próprias raízes e dar corpo às vivências nordestinas nos palcos do país, a cantora percebeu que fazer arte é um exercício diário de enfrentamento, onde o canto deixa de ser mero entretenimento para se tornar cenário de interpretações do mundo.

Lembrando de alguns momentos em que houve a tentativa de limitar sua forma de fazer arte, Juliana Linhares conta que recebia ressalvas das pessoas sobre como realmente deveria ser a arte nordestina. “Nossa voz é, muitas vezes, questionada e as pessoas pensam: Você é nordestina e canta isso? Você é nordestina e se veste assim? Então me ver nesses outros lugares me fez entender muito mais o meu lugar de pessoa nordestina, por que as pessoas falavam coisas que soavam como: Você deveria ser assim; Eu quero que você seja assim. Eu acabei percebendo que eu representava muitas coisas, mas dentro de uma caixa. Eram os estereótipos do que se espera de um nordestino e uma nordestina”, falou.

Foto: Priscila Ramos

A artista ainda demonstrou outras situações em que ela parecia ter que ficar presa ao que as pessoas associavam à uma cantora do Nordeste. “Se você é cantora, ainda tem que cantar forró e usar flor no cabelo. Eu adoro as duas coisas, mas eu queria poder construir camadas de linguagem, escolher o que eu poderia colocar, construir novas camadas de entendimento”, disse ela.

Como uma espécie de movimento contrário, Juliana buscou construir um outro olhar do público para uma artista nordestina. Ao recusar essas amarras culturais, Juliana transformou sua trajetória em um manifesto por pluralidade, provando que a identidade nordestina não cabe em rótulos, mas na liberdade de transitar por todas as linguagens. 

Ao fim, seja nos grandes centros urbanos ou nos acampamentos e assentamentos da reforma agrária, a cultura se reafirma como o território definitivo onde a liberdade se exerce em sua plenitude. Quando a arte assume seu papel político, ela deixa de apenas espelhar o mundo para se tornar ferramenta de construção de um horizonte onde nenhuma identidade seja presa a estereótipos. 

A programação contará ainda com mais outros debates durante a Feira:

Seminário 2:
Os desafios da luta pela terra em Alagoas
Dia 10 às 14h

Seminário 3:
Tecnologia a serviço do povo: o uso da Inteligência Artificial para a luta popular
Dia 11 às 14h

Todas as atividades ocorrem no auditório do Sindicato dos Urbanitários.

Editado por: Vítor Peruch

Foto: Priscila Ramos