Feiras Estaduais

Saberes populares e plantas medicinais aproximam saúde, memória e luta pela terra na Feira da Reforma Agrária

Oficina de garrafadas reuniu militantes para compartilhar conhecimentos sobre plantas medicinais, cuidado e saúde coletiva a partir das experiências dos povos do campo e comunidades tradicionais

Por Alí Nacif
Da Página do MST

Foto: Mariane James

Entre bancas de alimentos, sementes, mudas e produtos, a Feira da Reforma Agrária também abriu espaço para um conhecimento que atravessa gerações e permanece presente na vida das comunidades: o uso das plantas medicinais. Durante a programação, uma oficina de garrafadas para dores crônicas reuniu militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em uma atividade voltada à troca de saberes sobre saúde, memória e cuidado.

A atividade foi conduzida por Maisa Matias, que atua junto ao Setor de Saúde do MST, e partiu das experiências acumuladas pelas famílias e comunidades que, muitas vezes, encontraram nas plantas e nos conhecimentos transmitidos entre gerações uma forma de cuidar da saúde diante da dificuldade de acesso aos serviços e medicamentos.

A oficina propôs uma reflexão sobre o lugar dos saberes populares na construção da saúde coletiva. Mais do que apresentar plantas e seus usos, o encontro recuperou histórias de mães, avós, raizeiras, comunidades quilombolas, povos originários e diferentes territórios onde o cuidado com a saúde está relacionado à terra, à natureza e à memória.

“A ideia é que a gente possa trocar sobre as plantas medicinais, mas entendendo o que é essa luta pela terra, o que a mulherada Sem Terra, as nossas bruxas, os nossos companheiros e companheiras têm feito historicamente nessa relação junto com o Sistema Único de Saúde”, explicou Maisa.

A relação entre plantas medicinais e acesso à saúde apareceu desde o início da atividade. Segundo a facilitadora, esses conhecimentos fazem parte da realidade de uma parcela significativa da população brasileira e estão presentes especialmente nos territórios onde o acesso a medicamentos e serviços de saúde nem sempre está garantido.

“A gente sabe que as plantas medicinais são o tratamento mais acessível para mais de 84% da população brasileira”, afirmou.

Quando o cuidado nasce da terra

A discussão proposta na oficina partiu da compreensão de que saúde não se resume ao tratamento de uma doença. O cuidado também envolve as relações estabelecidas entre as pessoas, a terra, a natureza, a alimentação e os conhecimentos construídos pelas comunidades.

Durante a atividade, Maisa destacou que os saberes populares e tradicionais fazem parte de uma história de cuidado que não pode ser separada dos territórios.

“Os saberes populares e os saberes tradicionais de matriz africana são reconhecidos também pelo Sistema Único de Saúde como base não apenas produtiva, quando a gente fala de produzir plantas para as farmácias vivas, mas também desses saberes relacionados às plantas no sentido do cuidado da nossa saúde”, explicou.

A compreensão apresentada durante a oficina ampliou o debate para além do corpo físico. O cuidado com as plantas também foi relacionado à saúde mental, ao equilíbrio e à relação com a natureza.

“Essa saúde nem sempre é um adoecimento desse corpo físico. Às vezes, ele também é um adoecimento mental. Esse cuidado com as plantas também é uma relação de um cuidado ancestral”, afirmou.

Para Maisa, compreender a história de cada planta também significa reconhecer a memória dos povos que construíram esses conhecimentos.

“Se a gente entende que uma planta tem história, uma planta tem memória, uma planta tem trajetória, que a planta é essa nossa relação com a memória histórica do nosso povo, a gente consegue se cuidar não apenas daquilo que adoece o corpo, mas relembrar, através da memória dos nossos mais velhos e mais velhas, os saberes em plantas medicinais”, disse.

A partir dessa relação, o conhecimento sobre as plantas aparece como parte de uma construção coletiva que envolve os territórios, o bem viver e a saúde coletiva.

Conhecimento popular e disputa de saberes

A oficina também colocou em debate a relação entre os conhecimentos tradicionais e a indústria farmacêutica. A discussão abordou a apropriação de conhecimentos construídos historicamente pelas comunidades e a transformação desses saberes em produtos comercializados pela indústria.

“É muito comum a gente ver, em alguns territórios, aquele povo que passa: ‘Ah, essa planta é boa para quê?’. E, nesse processo, as nossas plantas vão sendo roubadas, apropriadas, patenteadas e voltam para a gente enquanto um medicamento químico sintético”, afirmou Maisa.

Segundo ela, muitos medicamentos utilizados atualmente tiveram como referência estruturas químicas encontradas na natureza. A diferença está no processo pelo qual esses conhecimentos são retirados de seus contextos e transformados em produtos da indústria.

“Historicamente, a indústria farmacêutica observa aquilo que a gente já usa naturalmente e, a partir dessa identificação, faz um espelhamento químico sintético”, explicou.

A discussão também recuperou a história das garrafadas como uma prática de cuidado presente entre diferentes povos e comunidades.

“A ideia de trabalhar com as garrafadas, e não com as tinturas, é inclusive retomar um saber histórico e ancestral dos primeiros preparados de medicamento que nós sempre tivemos”, destacou ela.

Para a facilitadora, a desvalorização das garrafadas também precisa ser compreendida a partir da história racial brasileira, uma vez que esses conhecimentos estão fortemente relacionados à memória de povos negros, quilombolas, comunidades ribeirinhas, povos originários e comunidades de terreiro.

“Até hoje as garrafadas são criminalizadas por um contexto inclusive racial. Porque existe uma memória de um povo negro, existe uma memória de comunidades ribeirinhas, quilombolas, sejam terreiros de Umbanda, de Candomblé, sejam povos de diferentes espaços e, principalmente, os povos originários que sempre utilizaram as garrafadas como o primeiro preparado farmacêutico”, afirmou.

Saúde também é plantar, cuidar e alimentar

Foto: Ali Nascif

Ao caminhar pela Feira da Reforma Agrária, a relação entre saúde e produção também pode ser percebida nas bancas que apresentam plantas secas, mudas, sementes e alimentos produzidos pelas famílias. A oficina trouxe essa dimensão para o centro da conversa. O debate sobre plantas medicinais foi relacionado aos modos de produção e à forma como as famílias se relacionam com a terra.

“A saúde para a gente, enquanto Movimento Sem Terra, não está apenas nesse medicamento natural. Ela está na nossa relação com a terra”, afirmou Maisa.

A produção, nesse sentido, não é pensada somente a partir do que chega à mesa ou do que é utilizado como medicamento; O modo como a produção acontece também faz parte do cuidado. Para ela, a discussão sobre saúde acompanha diferentes dimensões da vida nos territórios.

“Falar de planta medicinal, falar do setor de saúde, desse histórico do setor de saúde, é entender que, desde o início, essa relação do plantar, do cuidar, alimentar, produzir, das nossas sementes, das nossas tecnologias, das nossas formas de pensar, agir, comer, tudo isso para a gente é saúde”, afirmou.

O cuidado com as crianças também foi lembrado como parte desse processo. Desde a alimentação até o preparo de um chá, a relação estabelecida entre as pessoas e os territórios participa da construção cotidiana da saúde.

Cada planta carrega uma memória

Depois da apresentação inicial, a oficina propôs uma dinâmica para aproximar os participantes de suas próprias histórias. Cada pessoa foi convidada a se apresentar a partir de uma planta e contar por que aquela espécie fazia parte de sua memória, recuperando lembranças de infância, de mães e avós, de cuidados realizados em casa e de conhecimentos aprendidos dentro das famílias. Entre as lembranças compartilhadas estavam o picão, a carqueja, a folha e a flor do mamão, a alfavaca e a guiné.

Uma das participantes contou que sua relação com o picão vem da infância e da experiência de sua mãe, que criou dez filhos na roça. Sem acesso fácil à farmácia, a família recorria aos conhecimentos disponíveis no território.

“Minha mãe teve dez filhos e criou todos da roça. Então, a gente não tinha acesso à farmácia e era cuidado com a água do rio, com chá de picão”, relatou.

Ela também lembrou que sua mãe observava os sinais apresentados pelas crianças e recorria aos conhecimentos que havia aprendido dentro da família. A memória das plantas apareceu também ligada às mulheres que transmitiram esses conhecimentos. A participante contou que sua mãe era negra e filha de uma raizeira indígena, recuperando uma linhagem de mulheres que carregavam conhecimentos sobre cuidado e saúde.

A importância de reconhecer as plantas

A atividade também chamou atenção para a necessidade de identificar corretamente as espécies utilizadas. A facilitadora explicou que nomes populares podem ser usados para diferentes plantas, mesmo quando elas pertencem a espécies distintas. Como exemplo, apresentou a confusão comum entre cidreira, capim-cidreira, capim-limão, capim-santo e melissa.

A identificação correta foi apresentada como um cuidado necessário para o uso das plantas medicinais.

“Olha como o nome popular fez a gente passar por várias plantas, quando, na verdade, elas são espécies diferentes. E aí por que é importante a gente saber identificar? Porque não significa que uma planta sendo da mesma família, do mesmo gênero, ou tendo uma utilização tenha a mesma função. Em planta medicinal, a gente nunca pode generalizar”, afirmou.

A oficina reforçou, assim, que o conhecimento popular também envolve observação, transmissão de saberes, identificação e responsabilidade no uso das plantas.

Uma roda de memórias

Em outro momento da dinâmica, uma participante apresentou duas plantas que carregam lembranças familiares: a alfavaca, associada ao frio do Sul de Minas, e a guiné, presente na casa de sua avó. A memória da guiné apareceu relacionada à ideia de proteção da casa, enquanto a alfavaca foi lembrada pelos usos que faziam parte da rotina familiar.

Essas histórias mostram como uma planta pode carregar sentidos que ultrapassam sua utilização. Ela pode lembrar uma pessoa, uma casa, uma infância, uma avó ou um território. Foi nesse ponto que a atividade aproximou o conhecimento sobre plantas da própria experiência dos participantes. 

“Todo mundo aqui tem uma memória de folha”, afirmou Maisa.

Conhecimento que circula entre gerações

A proposta da oficina recuperou uma dimensão presente na organização das comunidades do campo: o conhecimento como algo que circula, é compartilhado e se transforma quando passa de uma geração para outra. O aprendizado não apareceu como uma relação entre quem sabe e quem não sabe. A própria dinâmica foi construída para que cada participante pudesse trazer sua experiência, sua memória e seus conhecimentos.

A oficina também apontou para a relação entre esses saberes e a universidade. Segundo Maisa, conhecimentos produzidos historicamente pelas comunidades passaram a ser reconhecidos em espaços acadêmicos, invertendo uma relação na qual, muitas vezes, o conhecimento popular foi tratado como inferior ao conhecimento científico.

“Há pouco tempo, nós chegamos à universidade. Nós é que fomos ensinar para alguém esse conhecimento que é científico”, afirmou.

Saúde como parte da Reforma Agrária

Ao integrar a programação da Feira da Reforma Agrária, a oficina colocou em evidência uma dimensão da Reforma Agrária que ultrapassa o acesso à terra. Saúde relacionada à produção, à alimentação, às relações comunitárias, aos conhecimentos tradicionais e à preservação da memória.

A discussão também recuperou o papel do SUS e a necessidade de fortalecer a saúde pública. Durante a atividade, Maisa destacou que a luta popular esteve presente na construção e na defesa do sistema público de saúde. Ao final, a atividade reforçou a necessidade de ampliar a formação sobre plantas medicinais dentro do próprio Movimento e de fortalecer as relações com diferentes parceiros na construção da saúde nos territórios.

“Agora, para frente, a gente tem que continuar fortalecendo, trazendo vocês para esse conhecimento, trazendo todas as parcerias para reforçar a saúde, principalmente no setor de saúde no MST”, destacou.

O que começou com a proposta de conhecer as garrafadas tornou-se também um espaço para lembrar mães e avós, recuperar práticas de cuidado e refletir sobre a relação entre terra, produção, alimentação e saúde.

Na Feira da Reforma Agrária, esses conhecimentos encontram o público da cidade e mostram que a produção das famílias Sem Terra não está restrita aos alimentos comercializados. Ela também envolve sementes, mudas, plantas medicinais, conhecimentos e formas de cuidado construídas nos territórios. Ao colocar esses saberes em circulação, o MST reafirma que a Reforma Agrária Popular também passa pelo direito à saúde, pela valorização dos conhecimentos dos povos e pela construção de relações de cuidado com a terra, com as pessoas e com a vida.

Saúde é a capacidade de lutar contra tudo que nos oprime.