Marighella Vive!
Casa onde Marighella cresceu, em Salvador, depende de doações para virar memorial
Sonho de Clara Charf, o memorial aguarda alvará para começar a obra e conta com a contribuição de apoiadores. Festival em São Paulo marca os 115 anos de Marighella, em 5 de dezembro

Por Vitor Peruch
Da Página do MST
Na noite de 4 de novembro de 1969, Carlos Marighella foi fuzilado em São Paulo, desarmado, numa emboscada montada por agentes do Dops. Décadas depois, a União reconheceu que ele poderia ter sido preso com vida e pediu desculpas oficiais à família.
Passados 57 anos, a casa onde ele viveu desde a infância, na Rua Barão do Desterro, Baixa dos Sapateiros, em Salvador, segue de pé, mas deteriorada. Ali o Instituto Carlos Marighella e Clara Charf quer erguer a Casa Carlos Marighella, centro de cultura, memória, defesa dos direitos humanos, educação e pesquisa.
“Todos os recursos arrecadados até agora foram doações voluntárias de simpatizantes, apoiadores e militantes da causa democrática e dos direitos humanos”, afirma a advogada Marília Lomanto, presidenta do instituto. Para ela, o projeto tem importância cultural, política e social e pode ajudar a revitalizar a Baixa dos Sapateiros e o Centro Histórico de Salvador.
A obra está na fase inicial. A documentação para o alvará já foi entregue aos órgãos competentes, e só depois da liberação começa a recuperação da casa. A responsabilidade técnica é do arquiteto Marcelo Carvalho Ferraz e de sua equipe.
A luta de Clara

O instituto leva também o nome de Clara Charf, companheira de Marighella. Ela morreu em 3 de novembro de 2025, aos 100 anos. Desde a volta do exílio, em 1979, reabilitar Marighella foi sua missão. Quem conta é a cineasta Isa Grinspum Ferraz, sobrinha de Clara e de Marighella e integrante da diretoria do instituto. “Tirar seu nome da lama era sua obsessão.”
Com Carlos Augusto Marighella, filho do guerrilheiro, Clara retirou os restos mortais dele da cova comum e articulou com Oscar Niemeyer a lápide em Salvador. Depois vieram a reunião de provas de que o Estado brasileiro era responsável pelo assassinato e a indenização à família. Em seguida, Clara articulou a primeira exposição sobre Marighella, no Memorial da América Latina, com Antonio Candido e Lula presentes.
Mais tarde veio uma grande mostra no Memorial da Resistência, que circulou pelo Rio de Janeiro, por Salvador e por Fortaleza. Veio também o monumento na Alameda Casa Branca, local do assassinato, desenhado por Marcelo Ferraz. Com recursos que Clara ajudou a obter, Isa fez seu documentário sobre Marighella. Mano Brown compôs uma canção para o filme, e o videoclipe foi premiado na MTV. Caetano Veloso fez “Um comunista”.
“Mas faltava a casa, uma das poucas marcas físicas da passagem de Marighella pelo mundo”, diz Isa. Foram 15 anos de luta para obtê-la. “Nunca desistimos. Até o final de sua vida, Clara compartilhou conosco a luta pela casa.” Ela viu e aprovou o projeto arquitetônico inúmeras vezes.
Um acervo a reunir
Construído no início do século 20, o imóvel abrigava também a oficina mecânica do pai, Augusto, imigrante italiano. A mãe, Maria Rita, descendia de escravizados haussás. O projeto do escritório Brasil Arquitetura restaura a casa e ergue ao lado um anexo de concreto vermelho. Serão 391 m² em quatro pavimentos, com exposição de longa duração, auditório de 35 lugares e salas de estudo e pesquisa.
O acervo sobre Marighella e Clara está hoje disperso nas mãos de militantes e amigos do casal. Por isso, segundo Marília, o projeto é decisivo: vai reunir esse material num só lugar e abri-lo ao público.
Movimentos na campanha
A campanha se constrói com movimentos sociais. Segundo Marília, sobreviventes da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização fundada por Marighella, participaram de todas as discussões. O MST apoia cedendo espaços para reuniões, seminários e o festival, e incentivando a arrecadação.
Festival
Em 5 de dezembro, quando Marighella completaria 115 anos, a campanha realiza um festival em São Paulo, com programação ainda não divulgada. A edição de 2025 reuniu música, debates, feira de livros e feijoada no Espaço Cultural Elza Soares.
Como contribuir
Qualquer pessoa pode doar pelo site ou pelo PIX.
Site: cmcc.abraceumacausa.com.br
PIX: chave CNPJ 57.947.437/0001-54 (Caixa Econômica Federal)
Contato: [email protected]
*Editado por Fernanda Alcântara



