João e Maria

Por Ivan Simonetti*

João Brasileiro acordou muito cedo. Madrugada ainda. Dormira muito mal. Tivera uma noite tumultuada, o sono entrecortado por pensamentos e lembranças do passado. De um passado não muito remoto, mas que julgara estivesse para sempre adormecido em sua alma. Eis que de repente ele emerge em sua mente, em sua vida, trazendo novamente um aperto de coração, uma ansiedade, uma renovada aflição.

Permaneceu deitado em sua cama rústica, os olhos bem abertos, pensando. Pensou no próprio nome. João Brasileiro! Não era verdadeiro. Nunca soube muito bem porque o chamavam assim. Mas era pomposo, pensou! Pomposo? Orgulho do nome nunca tivera. Motivos para tal, tampouco. Puxa vida! Nem um sobrenome legítimo lembrava de tê-lo tido! Também pouco importava, pensou. João disso ou daquilo era a mesma coisa. Ou João simplesmente.

João Sem Nome. João Sem Sono. Noite atribulada. Levantou-se e saiu. Quando deixou a barraca uma rajada de vento frio no rosto fê-lo sentir-se melhor. Ainda estava escuro. Caminhou alguns passos, subindo uma pequena elevação do terreno e sentou-se no solo, sentindo a grama úmida do orvalho da noite. De onde estava podia contemplar todo o local. As dezenas de barracas do acampamento dos sem-terra ainda eram apenas sombras difusas na noite.

João pensou nos companheiros, ainda dormindo no interior das barracas. Homens, mulheres, crianças, dezenas de famílias. Uma pequenina fração da humanidade, lutando intrepidamente pelo desejo vivo de um pedaço do planeta. Quem sabe para alguns deles nesse momento, pelo menos na utopia do sonho, tamanha aspiração não fosse transitoriamente verdadeira. Contudo com o despertar viria a desilusão. E o impacto com a dolorosa realidade traria de volta a noção de que a luta continuava. E com muitas dificuldades.

Pensou nas dificuldades dos últimos dias. Alguns companheiros doentes, crianças pequenas também com problemas de saúde, a falta de medicamentos. O dinheiro acabando, os alimentos escasseando, a fome ameaçadora. A policia rondando o local, a possibilidade de serem todos despejados à força dali. A falta de perspectivas, o desânimo tomando conta de alguns. Ele próprio perdendo a fé.

Pensou de novo no próprio nome. João Sem Nome. Sem nome, sem sono, sem fé. João Sem Terra.

Nesse momento um choro forte de criança, chegou até onde ele estava, interrompendo seus pensamentos. Percebeu então que o sol já despontava. Os sons próprios da noite, o murmúrio das folhas agitadas pelo vento, o trilar do aparelho musical dos grilos, cediam lugar a novos ruídos, que começavam no interior das barracas. Sons de vozes abafadas. Um rádio de pilhas que começava a funcionar. Barulho de panelas. Vazias! Era dia e a vida retornava ao acampamento.

Os homens começavam a surgir do interior das barracas, a juntar-se em grupos conversando. A grama alta sob seus pés quase lhes escondia as botas. O acampamento estava armado em local alto, de terreno seco, mas descampado. Poucas árvores ao redor que lhe protegessem. Muito sol nas manhãs de tempo bom. Às vezes muito vento.

João ficou onde estava. Não queria aproximar-se dos homens. Sabia que eles não estavam mais confiando nele. Dias antes tinham discutido. Ele dissera que ia embora, que estava desertando. Questionara a validade do movimento.

Tinha sido sincero. Não estava mais acreditando em tudo aquilo. Sua cabeça estava cheia de dúvidas. Teriam mesmo direito à terra, como diziam os companheiros? Certamente alguns homens tinham muita terra porque mereciam. Outros não tinham e o jeito era se conformar. Afinal o mundo não fora assim desde o seu começo? Essa era a ordem natural das coisas. Que direito tinham de violar a ordem estabelecida? E se tivessem como o fariam?

_ Somos apenas um bando de camponeses ignorantes! – dissera ele.
_ Não fale assim João. – foi a resposta que ouviu dos amigos. – Dizer que não temos direito a terra é o mesmo que falar que não temos direito à vida, ou à liberdade, ou ao ar que respiramos. Terra é pão. E pão é vida. Nascemos e provavelmente morreremos camponeses. O que não queremos é continuar sendo camponeses miseráveis, que não tem um palmo de chão para plantar uma roça ou construir um mocambo.

_ Fique com a gente João Brasileiro – disseram outros. _ Vamos permanecer unidos, assim ninguém nos vencerá! Muitos aqui estão velhos e cansados. Há muito que escutam falar em reforma agrária, terra para quem não tem, coisas deste tipo, você sabe não é João, e já não acreditam mais, como você que parece tão descrente. Mas você é novo e forte, pode ajudar muito.

Ele tinha permanecido em silêncio, só ouvindo.

_ E a grande maioria de nossa gente – falaram por fim – que permanece espalhada pelos latifúndios, plantando em terra alheia, homens e mulheres vivendo na pobreza, submetidos a um trabalho extenuante, velhos aos quarenta anos e tendo a fome como única herança para deixar aos filhos. Pense nisso João, uma boa parte daquilo que o povo come, um camponês faminto o produziu!

Ainda pensando nisso tudo João levantou-se e voltou para sua barraca. Ao passar pelos camaradas estes lhe ofereceram café. Não aceitou. Entrou logo na barraca. Queria ficar só, com seus pensamentos. As emoções do dia anterior, responsáveis pela noite mal dormida, ainda estavam muito agudas em seu cérebro.

Novamente sozinho voltou a recordar o passado. Lembrou do tempo em que morava no campo com Maria. Era feliz naquele tempo. Ou pelo menos julgava sê-lo. Não questionava o próprio nome, nem a propriedade da terra, nem perdia o sono. Apenas arava, plantava, colhia. Também não era sozinho.

João Lavrador tinha Maria. Maria morena, a pele bronzeada pelo sol da roça! Maria bonita, em sua simplicidade de camponesa, a face meiga, a boca pequena. Maria de corpo delicado, muito jovem ainda. Maria de grandes olhos castanhos, os cabelos compridos que ele conhecera feitos em tranças de menina e depois escorridos sobre os ombros de mulher. Maria, tudo o que ele sempre desejara! Conheceram-se ainda crianças e ele, assim que pode, tornou-a sua mulher! Não se casaram conforme a lei ou a religião. Amavam-se simplesmente e isso devia bastar.

João recordou-se da vida naqueles dias. Não era nada fácil. Trabalhava de manhã até a noite, preparando a terra para a sementeira, plantando, cultivando. Contudo se o trabalho era áspero durante o dia, à noite encontrava a recompensa nos carinhos de Maria. E se ao longo do dia o sol candente lhe inflamava a epiderme, à noite os braços de Maria, suaves a deslizar pelo seu corpo, restauravam-lhe a pele. Assim nunca se queixava da sorte, pois se durante o dia espoliava os músculos no trabalho duro, à noite o colo de Maria o reanimava!

Jamais pode lavrar em terra própria, de modo que ele e Maria nunca permaneciam muito tempo no mesmo lugar. Percorriam os campos, de fazenda em fazenda, como agregados de algum fazendeiro, na maior parte das vezes trabalhando apenas em troca do próprio sustento e de um barraco para morar.

Outras vezes conseguia do proprietário um pedaço de terra demarcado para fazer uma pequena lavoura, o que pagava com a metade da produção.

Entretanto pouco lhe importava se a vida era árdua, se o trabalho era ingrato, se alugava o braço por tão pouco. Tinha em Maria o seu lenitivo!

Raras vezes e sem muita seriedade, falava em deixar o campo e morar na cidade. Certa feita, quando uma longa estiagem lhe destruíra uma plantação de feijão, quase desistira de tudo e se fora com Maria.

Mas foi muito tempo depois, num domingo, que a coisa realmente aconteceu! Domingo é dia de descanso, mesmo na roça. Um ótimo dia para se pescar. Ele tinha visto cardumes de tilápias pintadas de branco e rosa na lagoa grande. Algumas eram enormes! Tilápias são peixes de fácil reprodução e crescimento rápido e a lagoa estava povoada deles. Foi só jogar a isca. Em pouco tempo estava com o embornal repleto de gostosa proteína que daria um jantar maravilhoso. À noite Maria preparou os peixes e foi uma verdadeira festa!

Crime imenso! Castigo maior ainda! Foi corrido daquelas terras, cujo proprietário o chamou para ir logo dizendo:

_ Só podem pescar em minha lagoa as pessoas que tem o meu consentimento. Espero não encontrá-lo mais por aqui a partir de hoje!

E foi desse modo que João e Maria deixaram o campo com destino à cidade. João Lavrador começava de fato a se transformar em João Sem Terra. De repente não tinha mais a terra macia para pisar, mas o cimento duro das calçadas, das ruas, sob os pés. Não mais as matas, o verde dos campos, as árvores, mas o concreto cinza dos prédios. Não mais o cantar dos pássaros, mas o barulho das buzinas, o apito das fábricas, o ranger de pneus. Não mais o ar puro para respirar, mas uma atmosfera poluída pela fumaça das chaminés e pelo monóxido de carbono do tráfego. Não mais a voz amiga, de uns poucos companheiros, mas o fragor das multidões. Não mais o aconchego, a proteção do seu meio natural, mas a penosa realidade da cidade grande. E o despreparo para enfrentá-la. Afinal era um João da Roça, não um João do Asfalto!

Sem ter onde morar, ele e Maria acabaram numa favela!

João Sem Terra. João Sem Casa.

Encontrar trabalho, outro problema. Na vida tudo o que aprendera fora lidar com a terra, agora isso de nada valia.

Com muito esforço conseguiu um emprego num posto de gasolina. Não durou muito tempo nele. Novamente desempregado, logo acabou o dinheiro.

Não tardou para que principiasse o pior de tudo o que podia acontecer. Maria estava se tornando diferente. Já não lhe dava tanta atenção, os carinhos não eram mais os mesmos. Reclamava das dificuldades, da falta de tudo. Incapaz de lhe contentar João sofria calado. Com desencanto reconhecia que as noites não eram mais de amores. Estava perdendo o bálsamo que sempre o fizera forte para resistir aos embates mais severos.

João Sem Terra, sem casa, sem emprego, agora era também João Sem Amor.

Uma tarde ao chegar na favela não encontrou Maria à sua espera. Aguardou-a, mas ela não voltou. À noite, sozinho no barraco, compreendeu que Maria não voltaria. Sentiu o desespero tomar conta dele! Não agüentou mais ficar parado e saiu. Procurou por Maria na vizinhança, perguntou se alguém a tinha visto, mas ninguém sabia dela. Só lhe restou retornar ao barraco e curtir dor imensa que estava sentindo!

Maria se fora. Ela o deixara para sempre. Não resistira àquela vida sofrida. Permanecera ao seu lado enquanto pudera, mas finalmente capitulara.

João começou a sentir um aperto na garganta, uma sensação de vazio insuportável, um desconforto tomando conta de todo o seu corpo. Finalmente rompeu em lágrimas, desabafando toda sua miséria e solidão!

Agora sim era um João Sem Nada. Um João Só. João Sem Maria. Um João Ninguém!

O mundo ficou sem graça e sem significado. João perdeu a naturalidade e a singeleza. Perdeu também o interesse pela vida. Passou a se sentir cansado e deprimido. Perdeu o apetite e emagreceu. A ansiedade não o deixava dormir direito.

Voltou a trabalhar, pois precisaram dele no posto de combustível novamente. Todavia andava sempre triste e inseguro.

Os dias foram passando, todos iguais. Algumas vezes fantasiava a volta de Maria, o que só servia para fazer ressurgir o velho aperto na garganta e entrecortar a respiração. Outras vezes sentia uma amarga revolta por tudo o que tinha acontecido, mas em tempo algum lançou qualquer culpa sobre Maria por esta tê-lo abandonado e nem sentiu raiva dela.

Com o passar do tempo o estrago que ela tinha feito em sua alma foi se curando, a ferida cicatrizando, e a imagem dela se enfraquecendo em sua mente até permanecer na memória apenas como uma grata lembrança.

João voltou a ter algum interesse pela vida. Mudou de lugar e muitas vezes de emprego. E acabou voltando para a lavoura.

O campo não estava exatamente igual como ele o deixara. Havia uma estranha agitação. Camponeses como ele agora se concentravam e falavam em luta pela terra. Pela primeira vez em sua vida ouviu falar em reforma agrária. Aos poucos foi entendendo o sentido de tudo aquilo.

Convidaram-no para participar do movimento. A principio hesitou, porém quando até o padre da pequena igreja campesina falou a favor, durante a missa dominical, João se decidiu!

João Guerrilheiro, João Revolucionário! Um novo João! Quando se deu conta estava entricheirado no interior de uma barraca de lona preta, de um acampamento de sem-terras, a participar da invasão de um latifúndio.

E foi ali, no meio daquela gente, marchando de um acampamento para outro, que ele descobriu novos amigos e aprendeu um jeito diferente de trabalhar e de viver. Oito anos tinham decorrido desde aquela noite em que chorara sua solidão.

E agora, entretanto o passado estava de volta! Tinha sido ele a razão de sua noite mal dormida. Tudo acontecera no dia anterior.

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Depois da discussão com os camaradas, alguns dias antes, já amadurecendo a idéia de ir embora do acampamento, ele fora até à pequena cidade próxima do local onde estavam, à procura algum lugar para ficar. Enquanto andava pelas ruas, meio sem destino, sem saber bem o que fazer, o inacreditável aconteceu! Viu Maria!

Sim, era ela! Estava lá, do outro lado da rua, caminhando tranqüilamente!

João quis correr para onde ela estava, mas as pernas não obedeceram! Subitamente a distância entre uma calçada e outra pareceu imensa, intransponível! Aflito pressentiu que em seguida a perderia de vista! Maria fugiria de novo para o passado, onde por tanto tempo estivera perdida e de onde parecia ter surgido apenas por um fugaz segundo, como uma imagem impalpável, para seu espanto e desespero! Mas nesse momento uma mistura de vontade e de fúria, raiva e desejo excitam sua mente e o impelem violentamente para frente! João corre! Chega bem perto de Maria! Sente que vai tocá-la! Quer tocá-la, gritar seu nome! Mas reprime-se, modera o ímpeto, refrea-se, como se repentinamente tomasse consciência da implacabilidade do tempo a mudar as pessoas. Maria certamente não era mais a mesma. Não era mais a sua Maria. Hoje talvez fosse apenas uma estranha.

Então ele deixa que ela se afaste e segue-a um pouco de longe, sem que possa ser percebido. Observa-a com cuidado, olha com atenção a graça amável de suas formas, seu corpo suave. Nota que continua tão bonita como sempre o fora. Mas está diferente! Muito elegante, bem vestida com roupas novas e finas. Os cabelos cuidados, bem penteados. Sapatos de salto alto! Até jóias está usando! E de repente João vê uma aliança em sua mão esquerda! Então é isso, ele pensa, está tudo explicado! Os dois nunca tinham usado aquele símbolo de união enquanto estiveram juntos, porque ela o faria agora não fosse para celebrar algum outro relacionamento?

Uma onda de calor toma conta de seu peito, o coração dispara, palpita. Tenta, mas não consegue evitar que os olhos marejem e os enxuga com o dorso dos dedos com receio de que transpareça sua dor.

Maria tinha arrumado alguém, tinha se casado! E a julgar pelo seu novo aspecto, com um homem muito rico.

João teve vontade de desistir. Deixar que ela seguisse o curso de sua vida. Mas não resistiu ao desejo de continuar seguindo-a. Algumas quadras à frente, contudo, teve que parar, quando a viu entrar em uma bela residência. Era uma casa grande, verdadeira mansão, com amplo jardim, muros altos nas laterais e grade na frente.

Maria entrou e desapareceu em seu interior

Então era ali que ela morava. Quem quer que fosse o homem de sua vida, pensou, era uma pessoa importante. Maria devia ser muito feliz.

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Ainda sob a lona preta de sua barraca, algo abatido pela noite em que se conservou desperto quase o tempo todo e mesmo não querendo reconhecer de pronto que a vontade de ir embora estava arrefecida não tanto pelos apelos dos amigos e sim pelos acontecimentos de véspera, João pressentiu no íntimo a decisão que tomaria. Em qualquer caso o resultado era o mesmo, ficaria!

E daquele dia em diante seus passeios à cidade tornaram-se mais freqüentes, praticamente diários, seu trajeto incluindo sempre os arredores da casa de Maria.

E quando se via rondando a casa ou parado pelas esquinas próximas,como um malfeitor que espreita sua vítima, tinha que se conformar com a idéia de que assim procedia na esperança de ver Maria.

Vira-a de fato sair algumas vezes, quase tendo que se esconder para não ser descoberto. Vira-a no jardim outras vezes.

Finalmente teve que aceitar que ainda a queria! O sofrimento prolongado produzido pela sua ausência apenas fizera com que reprimisse o afeto, mas agora a presença física de Maria remobilizava os sentimentos que trazia latentes no fundo da alma. Precisava tanto falar com ela!

Resolveu forçar um encontro. Faria com que parecesse acidental. Ficaria à espera, em frente a sua casa, sorrateiro até que ela surgisse, então se mostraria de repente, como por obra do acaso. Foi à cidade com esse propósito. Mas para sua surpresa, deu com ela no jardim. Não estava sozinha. Havia uma criança junto dela. Brincavam, conversavam divertidamente.

João aproximou-se dissimuladamente, sem que pudessem vê-lo, o suficiente para escutar o que diziam. Ouviu quando carinhosamente ela chamou a criança de “meu filho!” O espanto fez com que se afastasse! Maria tinha um filho! Isso mudava tudo!

Voltou acabrunhado para o acampamento.

Dali para frente viveu dias de desalento, quebrantado pela vontade de ver Maria, todavia agora o bom senso estava a lhe dizer que não podia mais procurá-la. Ela tinha um filho, uma vida própria, um novo companheiro.Eles eram uma família, com certeza feliz! Não tinha o direito de interferir. Estava acabado para ele.

No acampamento os obstáculos aumentavam. O inverno estava se aproximando e pelo frio que já fazia prometia ser rigoroso. Logo viriam as primeiras geadas. E quando chegassem os ventos e as chuvas próprias da estação, a permanência nas barracas ficaria quase impraticável. A ameaça de serem despejados à força, pela polícia, era iminente. Existia ainda o perigo de serem atacados por jagunços.

Os homens falavam em lutar. Resistir. Usar armas se preciso fosse. João sabia o quanto isso era arriscado, perigoso! Ninguém ali era soldado. Eram todos colonos. Valentes, mas apenas colonos. Seus instrumentos eram a enxada, a foice, não revólveres ou espingardas. Sua força consistia apenas na união e na vontade aguerrida. Até quando resistiriam?

Dali para frente ninguém sabia o que podia acontecer. Ficava difícil prever alguma coisa. Teria outra oportunidade para ver Maria? Só ela seria capaz de lhe serenar o espírito cheio de dúvidas, inquietações e temores.

Na manhã seguinte ele levantou bem cedo. Tinha perdido o sono outra vez. Sentiu que tinha também perdido a prudência, a sensatez, a discrição, a vergonha.

João Sem Vergonha seguiu para a cidade com uma deliberação firmada na mente. Parou em frente à casa de Maria e esperou. Esperaria o tempo que fosse preciso, até que ela aparecesse.

Não demorou muito para que a visse surgir no portão. Devia estar saindo para alguma compra, pois carregava uma pequena sacola.

Dessa vez ele não se escondeu, nem se acanhou! Pode ver a admiração, o pasmo no rosto de Maria quando seus olhos assustados deram com ele ali parado bem perto dela! Uma reação previsível e por ele esperada. Mas sua atitude seguinte, correr para ele de braços aberto, o abraço que ela lhe deu, seus suspiros, agradavelmente o desconcertaram!

_ João! Que saudades!

_ Puxa! Como é bom abraçar você moça! Senti tanto sua falta!

_ Também senti a sua, João!

_ Nesse caso quero outro abraço, e depois um beijo! Sabe de uma coisa? Acho que ainda gosto muito de você!

_ Então não tem certeza?

_ Tenho! Claro que tenho!

_ Eu também lhe quero muito! Que bom que você está aqui! Como foi que me encontrou?

_ Por acaso. Já tem algum tempo que eu sabia que você que você morava aqui nesta casa.

_ E não veio antes? O que estava esperando? Tenho pensado tanto em você. Nunca poderia imaginar que você estava aqui por perto.

_ Mas foi você quem me deixou. Foi embora e nunca mais apareceu. Achei que talvez não gostasse de me ver.

_ João, você me perdoa?

_ Perdôo! Mas tem que me contar a razão de ter feito aquilo.

_ Fui fraca! Nem sei se mereço seu perdão. Estava tudo tão difícil naquele tempo. Achei mais fácil fugir.

_ É, mas você acertou a sua vida. Já tinha percebido que agora está em boa situação.

_ Está certo. Enfrentei muita coisa, mas hoje minha vida esta bem melhor. Contudo estava faltando uma coisa.

_ O que?

_ Você!

_ Eu? Não estou entendendo. Você já tem um marido, um filho, uma bonita casa, o que haveria de querer comigo?

_ Um marido? Você ficou maluco João? Endoidou? De onde foi que tirou essa idéia?

_ Mas você não se casou?

_ É claro que não! Você está louco?

_ Mas certamente tem um companheiro, com quem mora nesta casa.

_ Não é nada disso! Não sabe o que está dizendo. Quer me fazer o favor de parar com essas idéias?

_ Mas esta casa não é sua?

_ Não seja bobo João! Eu trabalho aqui. Sou empregada da família. Doméstica, entendeu?

Apesar de inesperada a explicação lhe soara convincente, todavia não explicava tudo, algumas coisas ainda careciam de esclarecimento.

_ E suas roupas?

_ O que há com elas?

_ São finas, caras, jamais poderia comprá-las com salário de empregada doméstica.

_ Mas o que é que está pensando? Eu não comprei. Ganhei, da patroa. João meus patrões são muito bons. Moro aqui como pessoa da família!

_ E essas jóias que está usando? Não vai me dizer que sua patroa a presenteia também com jóias?

_ Sinto que está me ofendendo, seu burro, mas tudo bem, vou lhe explicar. Não são jóias verdadeiras. É tudo bijuteria!

_ E a aliança que está usando? Você nunca usou aliança. Também é só de imitação?

_ Não é aliança, é só um anel!

_ E a criança? Uma ocasião quando estavam no jardim escutei você chamar o menino de “meu filho!”

_Que feio João, você nos espreitando. Mas pelo menos numa coisa você está certo!

_ Então você tem um filho!

_ Claro! E você também! Ele é seu! Eu não sabia, mas estava grávida quando fui embora!

Foi demais para João, que ficou perplexo, sem conseguir falar! Lentamente seus pensamentos foram se arrumando, se ordenando, no interior de sua cabeça, até que compreendeu tudo. Então conseguiu relaxar! Sentiu um alívio, como se a terra tivesse de repente tragado, através de seus pés, toda a energia inquietante que lhe distorcera a imaginação, toda a excitação dos últimos dias, que concentrada em seu interior ameaçava explodi-lo! Sentiu também uma vasta felicidade. E aí sorriu!

Que idade tem o menino? – perguntou.

_ Ele já tem sete anos!

_ Que nome lhe deu?

_ João, como você!

Outro João, ele pensou, mas este haveria de ter um nome completo!

_ Onde está o garoto? Quero vê-lo.

_ Na escola. Volta daqui há pouco. Já está aprendendo a ler. Você vai esperá-lo aqui não vai?

_ É claro que vou!

_ João, ele vai adorar conhecê-lo. Já sabe de muitas coisas que lhe contei a seu respeito. No fundo, no fundo mesmo do meu coração, sempre achei que a gente ainda ia se encontrar novamente um dia e sempre mantive nosso filho na certeza de que um dia encontraria o pai dele.

_ Não vejo a hora de encontrá-lo!

_ João, – disse Maria – você poderá ficar morando aqui! Meus patrões precisam de um jardineiro. Eu falo com eles. Vai dar tudo certo!

João adorou a idéia! Ele e Maria juntos, como antes. A felicidade de volta. Sorriu novamente e seus olhos brilharam de contentamento!

Mas então lembrou do acampamento. Do inverno chegando, das crianças doentes, da fome. Dos companheiros em luta. Dele próprio como parte integrante de tudo aquilo. Lembrou do passado no campo e de como fora expulso. Da vida na cidade. Das desilusões. Das palavras dos camaradas. Do sonho da terra própria. Da solidez que só ela poderia dar a sua vida.

_ O que foi João? – perguntou Maria – notando que uma nuvem repentina de preocupação turvava-lhe o brilho dos olhos.

_ Maria – respondeu ele – você alguma vez ouviu falar da luta dos camponeses pela terra?

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Naquele dia João acordou muito tarde. Logo que despertou lembrou de Maria e da criança e sentiu saudades dos dois. Sabia que não os veria tão cedo. O novo acampamento em que se encontrava ficava muito distante de onde eles estavam. Mas certamente estavam bem, muito melhor do que se estivessem com ele. Haveria de chegar um dia em que estariam todos juntos!

Quanto a ele, sabia o que tinha que fazer. Não vacilaria nunca mais! Forçaria o coração, o cérebro, os músculos, os nervos, o que preciso fosse. Daria o suor, as lágrimas, o sangue e a vida se preciso fosse. Mas custasse o que custasse só sairia dali rumo à terra prometida ao seu filho!

João Brasileiro! Agora sim, estava sentindo um grande orgulho do nome. O drama de sua vida, sua história de amor, sua odisséia, faziam-no digno do nome que tinha! Saberia honrá-lo! Principalmente agora que o tornava bem autêntico, no momento em que acrescentava o João que faltava na lista dos muitos que fora: o João Esperança!

* O autor é médico, natural do Paraná e radicado em Guarapuava, no oeste do estado. É o atual detentor do Prêmio Literário “Museu de Medicina”, da Associação Médica do Paraná, conquistado com a obra “Quarto de Hospital”, 1º lugar na categoria Conto. Pode ser contactado pelo e-mail [email protected]