Famílias do MST foram obrigadas a desocupar Nova Jerusalém no Ceará

Cerca de 160 famílias de trabalhadores rurais Sem Terra foram obrigadas pela Polícia Militar e pelo Departamento de Edificações, Rodovias e Transportes (DERT) a desocupar o acampamento Nova Jerusalém. O terreno com aproximadamente 500 hectares, localizado no município de Pacatuba, pertence ao governo do Ceará. O MST ocupava o local há cerca de três meses. As famílias estão alojadas provisoriamente em um barracão de lona próxima a localidade.

A polícia militar não apresentou nenhum mandato judicial de reintegração de posse e, durante a operação, foi utilizado um efetivo de mais de 40 homens, incluindo o Esquadrão de Cavalaria e o Batalhão de Choque. Segundo o coronel da Polícia Militar, Carlos Alberto Serra, a ordem partiu do governador do Estado e a presença do policiamento seria só para garantir a segurança dos funcionários do Departamento de Edificações, Rodovias e Transporte do Ceará (DERT), que estavam derrubando e juntando os destroços do acampamento.

As 160 famílias que moravam na Nova Jerusalém estão provisoriamente em um barracão improvisado com lonas próximo as terras do governo. Segundo Flávio Barbosa, que faz parte da coordenação do MST, não existe nenhum projeto do governo do Estado para aquelas terras. “Estamos pedindo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico que apresente alguma proposta de ocupação dessas terras, pois 160 famílias foram despejadas para que o governo não faça nada no local”, completou Flávio.

A coordenação do MST também está pedindo ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) que seja feito uma vistoria nas terras da região para que seja disponibilizado algum lugar para onde os moradores do acampamento Nova Jerusalém possam ser levados. Flávio ressaltou que quase todos são remanescentes dos municípios de Pacatuba e Maracanaú e que decidiram ocupar aquelas terras para poderem construir suas casas e aproveitar a terra para plantio. “Tem gente que mora na região há mais de trinta anos, mas nunca tiveram um lugar certo para morar e estavam aqui procurando essa oportunidade”, disse.

A dona Maria Aparecida, 70 anos, mora há 35 anos na região, nunca conseguiu um lugar para poder viver. Ela disse que aquelas terras estavam abandonas há muito tempo e que nunca foram utilizadas para nada. “Quem tomava de conta dessas terras eram os marginais. Nós que ocupamos e estamos aqui querendo um lugar pra morar e poder viver em paz. Se agente tivesse armado e tentando brigar, talvez tivesse até gente morta agora, mas nós somos da paz e queremos viver tranqüilo”.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Assembléia Legislativa, deputado estadual Heitor Férrer, marcou uma Audiência Pública para tratar do assunto, no dia 9 de agosto, quinta-feira, onde estarão presentes representantes da Secretaria de Segurança e Desenvolvimento Social do Estado, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Ceará, do MST e do Ministério Público.

Há um mês a ocupação foi registrada na prefeitura de Pacatuba, mas como as terras pertencem ao Governo do Estado, a documentação não adiantou nesse caso. Nos três meses de ocupação o prefeito de Pacatuba é quem estava dando apoio aos trabalhadores, inclusive disponibilizando um carro pipa a cada dois dias para o abastecimento de água.