Governo optou pelo agronegócio

Um dos participantes das marchas do MST no Rio Grande do Sul, Frei Vilson Zanatta, avalia esta última marcha do MST, fala do debate feito com os moradores das cidades por onde caminharam, além de contar como entrou para a luta daqueles que não têm terra para viver e plantar, da relação do movimento com os ruralistas e do governo Lula e sua política de Reforma Agrária. “Sabemos que o governo está com uma dívida muito grande com a sociedade porque fez uma opção, a opção pelo agronegócio”, afirma.

Um dos participantes das marchas do MST no Rio Grande do Sul, Frei Vilson Zanatta, avalia esta última marcha do MST, fala do debate feito com os moradores das cidades por onde caminharam, além de contar como entrou para a luta daqueles que não têm terra para viver e plantar, da relação do movimento com os ruralistas e do governo Lula e sua política de Reforma Agrária. “Sabemos que o governo está com uma dívida muito grande com a sociedade porque fez uma opção, a opção pelo agronegócio”, afirma.

Frei Zanatta é formado em filosofia e teologia pela Universidade Federal de Santa Maria e pela Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, respectivamente. Ele acompanha a caminhada do MST desde 1995 e reside no assentamento de Hulha Negra, RS, desde 2002.

Confira a entrevista publicada originalmente pelo portal IHU On-Line

Qual é a avaliação que o senhor faz dessa última marcha do MST no RS?

Frei Zanatta – Eu participei da marcha que saiu de Bagé, passou por Pelotas, Santa Maria. Eu acho que o melhor que tiramos dessa ação é o apoio que recebemos da sociedade. O pessoal começou a apoiar porque entendeu que a Reforma Agrária não estava acontecendo. Então recebemos esse grande apoio da sociedade que nos motivou a continuar. Eu acho que esse foi um ponto positivo. Outro ponto positivo que eu vejo é o debate em relação à Reforma Agrária, porque nos últimos cinco anos poucas famílias foram assentadas, e agora veremos assentadas 1200 pessoas em um ano. Esse foi um ponto muito interessante para o Movimento dos Sem Terra (MST). Outro ponto positivo é a questão da própria marcha, pois mostrou o nível de consciência do nosso povo. Além disso, a marcha ajudou a mexer com a nossa base.

Como funciona esse debate que os sem-terra têm feito nas paróquias, escolas e associações municipais?

Frei Zanatta – Durante a marcha, nós passamos por bairros escolas e igrejas, e fomos muito felizes, pois todos nos receberam muito bem. Então, nós chamamos a atenção para o fato de que a Reforma Agrária não está sendo feita. Nas escolas, nós fomos muito bem recebidos por termos colocado essa situação. A gurizada entendeu a situação e compreendeu a intenção da nossa marcha. Entendeu que o governo deve fazer alguma coisa para melhorar o panorama. A recepção foi muito boa, e não temos do que nos queixar, no geral. É claro que existem certos casos que foram muito ruins. Alguns latifundiários, por exemplo, nos receberam muito mal, principalmente em Bagé. De modo geral, no entanto, o debate foi muito bom, e as pessoas pediram esclarecimentos em relação à marcha, aos sem-terra e à Reforma Agrária.

Como o senhor entrou para essa luta?

Frei Zanatta – Eu entrei no MST em 1995, porque a Igreja precisava fazer alguma coisa, marcar uma presença muito mais ativa junto aos sem-terra. Nesse ano, eu fui morar no assentamento de Encruzilhada do Sul. Fomos eu, o Frei Sergio Göergen (1), o Frei Flavio Vivian (2) e o Frei Laudino Bertoldo (3). Os dois primeiros são franciscanos, e eu e o Frei Laudino somos capuchinhos. O mais interessante disso é que fizemos parte da única experiência no Brasil de unir essas duas congregações para trabalhar com o Movimento dos Sem Terra. Mas por que eu entrei? Justamente pela questão da fé, da nossa fé em Jesus Cristo, porque nós falamos aquilo que pregamos. A fé nos leva à luta dos movimentos sociais e a ir em busca daquilo que acreditamos nos deixa mais felizes.

Como o senhor chegou ao assentamento de Hulha Negra?

Frei Zanatta – Esse município fica na região de Bagé. Eu cheguei aqui em 2002. Agora, nós estamos morando numa região onde existem 54 assentamentos com aproximadamente duas mil famílias numa área de 47 mil hectares de terra. É uma região onde é clara a necessidade da nossa presença, da presença da Igreja, uma presença mais ativa para que pudéssemos organizar algumas coisas dentro do movimento.

Como é que o senhor avalia a relação do MST e da Igreja aqui no Estado?

Frei Zanatta – A Igreja sempre teve uma posição a favor da Reforma Agrária. Os documentos da Igreja sempre dizem que a Reforma Agrária deve acontecer.

Durante a marcha, os ruralistas de Bagé atacaram os sem-terra acampados no ginásio municipal. Ao explicar a situação, a Farsul disse que as agressões partiram da população local. Como é que está a situação com os ruralistas, com a sociedade?

Frei Zanatta – A relação que temos é com a sociedade. Nós somos a favor da Reforma Agrária. Por isso, a posição dos ruralistas é antipática, ou seja, é uma relação de luta. Hoje, essa luta é muito maior, pois não é só com os fazendeiros, mas também com as grandes empresas que estão comprando terras dos grandes fazendeiros para plantar eucaliptos no Rio Grande do Sul. Nós sabemos que existem fazendeiros que não concordam com isso. Com eles, nos entendemos muito bem. No entanto, o nosso interesse é fazer a Reforma Agrária, e o deles é manter a terra da família. Aquilo que fizeram em Bagé, em Caçapava do Sul, e São Sepé foi próprio de uma posição muito truculenta contra o MST e não tem como aceitarmos essa posição.

O que o MST pretende fazer no próximo ano para que as negociações em relação à Reforma Agrária avancem?

Frei Zanatta – Nós sabíamos, antes da governadora Yeda se eleger, que sua posição era de direita. Então, no momento, ainda não esperamos muita coisa. Sabemos que nossas decisões vão depender da conjuntura do início de 2008. O movimento não tem ainda nada previsto do que vai fazer. O movimento tem claro que nossa luta vai continuar independente do governo que estiver à frente do Estado ou da Federação. Nós vamos sempre lutar para que a Reforma Agrária aconteça. Agora, nós sabemos que o Governo do Estado não está fazendo absolutamente nada pela Reforma Agrária. Ele defende a posição da direita, prejudicando questões como a educação, saúde e outros. Nós pretendemos formar novos acampamentos para pressionar a realização da Reforma Agrária em todo o Brasil. A posição da governadora é totalmente contra o MST. Então, ainda não sabemos o que nós vamos fazer em relação a isso. Nós queremos a Reforma Agrária. Qual é o jeito? Nós vamos sentar e discutir e vamos achar um jeito para que essa questão avance.

Com Lula na presidência, como é que o senhor avalia a luta do MST?

Frei Zanatta – Em relação à Reforma Agrária, o Lula não está fazendo quase nada, ou seja, no Rio Grande do Sul foram assentadas 700 famílias e no Brasil, 30 mil famílias apenas. O governo Lula fez menos que o FHC. Ele está com uma dívida muito grande com o MST e os movimentos sociais exatamente porque se elegeu dizendo que iria fazer a Reforma Agrária de qualquer forma. Por outro lado, sabíamos que não era bem assim, pois temos a consciência de que o governo está com uma dívida muito grande com a sociedade porque fez uma opção, a opção pelo agronegócio.

Notas:

(1) Frei Sergio Göergen foi deputado estadual de 2002 a 2006. É, atualmente, coordenador nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA.

(2) Frei Flavio Vivian faz parte da coordenação do Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA – no Rio Grande do Sul.

(3) Laudino Bertoldo é, atualmente, coordenador do programa Infância e Adolescência Missionário da Diocese de Santa Maria.