Fátima Ribeiro: “Todo processo foi feito com muita convicção na utopia de ver a terra livre”

Por Iris Pacheco

Neste depoimento, Fátima Ribeiro, militante do MST e presente no 2° Congresso Nacional do MST, em 1990, relata a conjuntura em que estava inserida a luta pela terra e como isso influnciou as proposições tirada pelo Movimento para o período que se seguia.

Fátima relembra que para os trabalhadores rurais “esse foi um período marcado por muita repressão. O Estado estava determinado a acabar com o MST”.

Por Iris Pacheco

Neste depoimento, Fátima Ribeiro, militante do MST e presente no 2° Congresso Nacional do MST, em 1990, relata a conjuntura em que estava inserida a luta pela terra e como isso influnciou as proposições tirada pelo Movimento para o período que se seguia.

Fátima relembra que para os trabalhadores rurais “esse foi um período marcado por muita repressão. O Estado estava determinado a acabar com o MST”.

Ao mesmo tempo, esse foi um dos um dos momentos “mais bonitos de nossa história, pois aqui nascia a mística e a consciência de um projeto de Reforma Agrária e a luta por um Brasil popular”.  

Confira:

O debate para a realização do 2° Congresso Nacional do MST nasce no bojo das lutas que se desencadeavam no período. A conjuntura era desfavorável para os trabalhadores. A eleição de Fernando Collor de Mello à Presidência da república impôs uma derrota à classe trabalhadora e agravou a crise na agricultura. As organizações sociais foram perseguidas, as políticas públicas já conquistadas começaram a ser destruídas. 

Para os trabalhadores rurais esse foi um período marcado por uma violenta repressão. Foi o governo que menos desapropriou terras. O Estado estava determinado a acabar com o MST. A polícia federal invadiu secretarias, levou documentos, processos judiciais foram instalados. Foram momentos de terror para a militância em vários estados. 

A elite brasileira impôs um cerco à classe trabalhadora e aos camponeses, principalmente aos Sem Terra. O MST começa a se envolver com a cidade e a partir da solidariedade dos movimentos sociais, sindicais, pastorais, estudantis, partidários, surge uma nova forma de fazer luta, com caminhadas que saiam do interior para os grandes centros, fazendo paradas e discutindo com a sociedade a quem interessava a Reforma Agrária e por que ela é uma luta de todos.

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O Estado burguês e a luta pela Reforma Agrária

A realização do 5º Encontro Nacional ocorrido em Nova Veneza no estado de São Paulo aconteceu em meio a efervescência política que ocorria no país, em que as lutas desencadeadas trazia a crença nas possibilidades de mudanças do país e na esperança de se realizar a Reforma Agrária.

Ocupar, Resistir e Produzir

Foi nesse Encontro que se decidiu a palavra de ordem do 2° Congresso Nacional: “Ocupar, Resistir e Produzir”. Ocupar já era uma decisão tomada desde o 1° Congresso, definição política de Resistir com o objetivo de pressionar o governo a desapropriar terras, e Produzir para os trabalhadores rurais melhorarem suas condições de vida no campo e saírem da condição de miséria imposta pelo sistema.

Apesar da dureza da luta, todo o processo foi feito com muita convicção na utopia de ver a terra livre. Foi um dos momentos mais bonitos de nossa história, pois aqui nascia a mística e a consciência de um projeto de Reforma Agrária e a luta por um Brasil popular.

O 2° Congresso Nacional, realizado em maio de 1990, em Brasília, só veio a ratificar o que estava acontecendo na prática e sinalizar que a organização necessitava sobreviver. Esse foi o momento que a truculência e a arrogância do poder se instalou no campo brasileiro. E o MST mostrou sua resistência do ponto de vista orgânico, valorizou as conquistas, olhou para o assentamento como uma simbologia da conquista da luta com suor e lágrimas, com sangue e prisões. 

Com esse valor, em 1991 passa-se a discutir a construção do Sistema de Cooperativa dos Assentados, e mais tarde a criação da Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil (Concrab). O debate dessa construção passava pelo trabalho de base, da participação consciente dos assentados para organizar a cooperação. Era preciso estar fortalecido internamente, com a unidade de base para resistir e caminhar contra o inimigo. 

As perspectivas para o período que estava por vir se pautaram pelos nossos ideais e princípios filosóficos, políticos, organizativos e pedagógicos. Isto nos animava a traçar metas, pois estávamos animados nestas convicções e só o poder do povo poderia nos levar às vitórias, sair desse clima de truculência e mudar a rota da história. 

Desafios 

Do ponto de vista interno passamos por grandes desafios. O primeiro deles, lutar para realizar a Reforma Agrária. Por isso tínhamos de continuar impulsionando a luta pela terra, pois acreditávamos que o povo só tinha força com muita gente organizada e conscientizada. 

Para isso a formação da consciência é um debate fundamental. Este é ao mesmo tempo o segundo grande desafio que foi realizado em cada lugar onde o MST estava organizado: preparar os cursos de formação com a base, militância e direções. 

O terceiro desafio é a organicidade do MST. A unidade e disciplina nas estruturas de nossas instâncias. Vimos que era imprescindível fortalecer com os princípios organizativos. Sem esse desafio consolidado não poderíamos vencer ao inimigo tão feroz.

Por fim, o quarto desafio, onde entendemos que para sair do cerco, do isolamento imposto pelo latifúndio e as elites truculentas, precisamos ter fortes aliados e ganhar a sociedade para o nosso lado. E assim, vai nascendo a ideia do que deveria ser o lema do próximo período que estava por vir…