“Caracas é a nova Havana”, diz escritor Fernando Morais

Na opinião do escritor, os parlamentares opositores transferiram à Venezuela a disputa política que travam no Brasil.

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Por Claudia Jardim, 
De Caracas para o Brasil de Fato 

 
A visita frustrada da comissão de senadores brasileiros a Caracas que pretendiam visitar os políticos opositores que estão presos foi marcada por polêmica e controvérsias. Na opinião do escritor Fernando Morais, os parlamentares opositores transferiram à Venezuela a disputa política que travam no Brasil. “A missão do Aécio (Neves) não era visitar Leopoldo López, era criar um incidente internacional”, afirma.

Na opinião do escritor, em meio ao processo de restabelecimento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba e o iminente fim do bloqueio à ilha, a agenda conservadora teria mudado de foco, acompanhando a mudança de tom da política estadunidense. Ao mesmo tempo, Washington apertou o cerco contra a Venezuela ao incluir o país na lista dos países que representam uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.  “É cenoura para Cuba e garrote para a Venezuela”.

Seria nessa nova recomposição de forças que a oposição brasileira teria embarcado para reposicionar-se ideologicamente. Morais esteve em Caracas junto a uma delegação que incluía políticos de esquerda para fazer “ruído” à presença dos parlamentares opositores. “Vim aqui dizer aos venezuelanos que esse é um problema brasileiro”. Leia os principais trechos da entrevista:

 
O senhor afirma que a visita dos senadores de oposição à Venezuela foi uma provocação. A quem era dirigida essa provocação?

Estou convencido de que se levantarmos nos anais do Congresso a história de cada um deles, estou seguro de que nenhum jamais se preocupou com a questão de direitos humanos em nenhum lugar do mundo. Não se trata somente de uma questão ideológica, há uma despreocupação, não é a área de interesse deles. Foco minha crítica no Aécio (Neves) porque foi ele quem liderou essa história. Será que existe algum registro dos anais do Congresso ou do período que ele foi governador de Minas de algum protesto contra a barbaridade que é a prisão de Guantánamo? Não tenho notícias sobre isso.

Quem estava no alvo dessa provocação?

É uma provocação de duplo alvo. Eles vieram aqui com o objetivo de criar um desconforto para o governo de Nicolás Maduro e ao mesmo tempo para a Dilma porque eles dizem que vieram aqui fazer o que a Dilma não fez. Tomar uma atitude que a Dilma não tomou que é condenar a Venezuela e o bolivarianismo. A condução da política externa é uma obrigação do Executivo, não do Senado.  É importante entender que isso não é uma questão venezuelana, é uma questão brasileira.

O Aécio perdeu protagonismo nos meios de comunicação do Brasil. Ele perdeu a eleição, ficou nas manchetes durante algumas semanas dizendo que tinha que recontar os votos, algo muito parecido ao que aconteceu aqui na Venezuela. Quando ele percebeu que isso era uma coisa absolutamente sem sentido, começou a falar de impeachment e foi perdendo protagonismo mesmo na mídia brasileira que é conservadora e absolutamente favorável a ele.

Ele está sofrendo um processo de isolamento dentro do PSDB. (O ex-presidente) Fernando Henrique (Cardoso) já disse que não compartilha a proposta do Aécio de impeachment da (presidente) Dilma (Rousseff). O Fernando Henrique não veio a Caracas nem com o Felipe González (na semana anterior à visita dos senadores) e não veio com Aécio, não apoiou essa aventura patética deles.

Quais  são esses sinais de isolamento que o senhor se refere?

Há alguns dias houve a convenção do PSDB em São Paulo e escolheram como candidato unânime para disputar a presidência em 2018 ao atual governador Geraldo Alckmin.  Todo mundo sabe, até os sapos que nadam no Tietê sabem que o (José) Serra será o último a apoiar de fato o Aécio Neves. Esse encolhimento do protagonismo do Aécio no Brasil o levou a buscar alternativas. Mas porquê a Venezuela?

Poderia ser Cuba, poderia ser Bolívia, poderia ser o Equador, mas ele escolheu a Venezuela porque resolveu embarcar em um bonde internacional que está tentando isolar o país. Nem é preciso falar das manifestações norte-americanas que estendem a mão à Cuba e batem com o martelo na cabeça do Maduro (ao incluir o país na lista dos países que representam uma ameaça à segurança dos EUA).

Cenoura para Cuba e garrote para a Venezuela?

Exatamente. Cenoura e garrote. Nesse momento de tentativa de asfixia do governo venezuelano, na lógica oportunista do Aécio, ele viu que aqui estava a oportunidade. A grande imprensa se tornou uma trincheira de luta contra a Venezuela. Ele trouxe o pior da direita brasileira para vir à Caracas.

Houve uma transferência da polarização instalada no Brasil antes da eleição da presidente Dilma Rousseff e que persiste até agora a Caracas?

Claro. Antes as pessoas que eram contrárias a Dilma antes e depois que ela ganhou a eleição diziam: “vai pra Cuba! Vai pra Cuba!”. Só que de uma hora para outra o presidente Barack Obama reatou relações, apareceu na televisão abraçando o Raúl (Castro), o bloqueio vai acabar, estão pensando em fechar (a prisão de) Guantánamo e devolver a base a Cuba. De uma hora para outra deixaram de ser o alvo dessa gente que vê a política de maneira superficial e não vão a fundo, não mergulham. Política internacional nunca foi objeto de interesse do Aécio Neves, nunca foi.

Caracas é a nova Havana para o campo conservador da política regional?

Sim, Caracas é a nova Havana. O mesmo que se fez no Brasil durante 50 anos contra Cuba estão repetindo, ressurgindo como zumbis contra Caracas. Porém, bater na revolução bolivariana é mais difícil que bater na revolução cubana. (O presidente Hugo) Chávez era cristão, ganhou todas as eleições das quais participou, não botou ninguém no paredão, não era marxista. Contra a revolução cubana havia o paredão, a aproximação com a União Soviética…

Os senadores argumentam que vieram à Venezuela defender eleições livres, advogar pela libertação do que eles consideram presos políticos e averiguar a situação dos direitos humanos no país, tarefa que segundo o senador Aécio, seria do governo Federal.

Houve mais eleições na Venezuela desde que o Chávez ganhou em 1998 (18 pleitos nacionais e regionais) do que as eleições que o Aécio disputou na vida dele inteira. Chávez perdeu uma, o plebiscito (que promovia a reforma constitucional) e o governo aceitou a derrota. Dizer que não há democracia na Venezuela não é somente má fé, é desinformação.

Não há liberdade de expressão? Primeiro que o Aécio não tem autoridade moral para falar de imprensa quando ele governou Minas Gerais durante oito anos, ou 12 de considerarmos o período do Anastasia, controlando a imprensa com mão de ferro.  Dinheiro na mão direita e chicote na mão esquerda. Não se falava nada na imprensa mineira, salvo as heroicas exceções, não se falava nada contra o Aécio.

A iniciativa desta comissão de senadores é reflexo de uma mudança na postura do governo Dilma em relação à política externa para a América Latina?

Diminuiu muito a intensidade da política externa do atual governo em relação à do governo Lula que era Sul-Sul, África e América Latina fundamentalmente. Acredito que o fato do governo Dilma ter passado por vários chanceleres até agora possa ter contribuído para isso. Estou morrendo de saudades do Celso Amorim, mas
seria leviano dizer que o governo Dilma mudou o enfoque de sua política externa. Não mudou o foco, mas arrefeceu.

O Itamaraty emitiu uma nota pedindo esclarecimento ao governo venezuelano. O governo caiu na provocação.

Acredito que sim. O governo engoliu o factoide, que foi criar uma situação em cima de algo que não existiu. O governo embarcou. Agora é importante considerar o seguinte: o governo está lidando com enormes dificuldades com o Congresso, com a Câmara e o Senado, então certamente não era a hora da Dilma peitar os parlamentares por uma questão que no frigir dos ovos não é essencial para o governo. A Dilma está mais preocupada com a situação interna.

Há uma percepção de que esse tipo de ação é necessária para encarrilhar a situação política na Venezuela?

Existe um cacoete autoritário, de supor que somos uma espécie de sub-imperialismo no continente. Isso é uma concepção pré-colombiana que só as pessoas que vieram com o Aécio acreditam nela. Os países devem conduzir  suas políticas dentro do direito e respeito à sua soberania. Imagina se o Aécio Neves fosse aos Estados Unidos, imagina se ele estivesse indignado com o tratamento que é dado aos Panteras Negras que estão presos há meio século por militarem  numa organização que não existe mais há 40 anos.

Dezessete desses presos estão condenados a prisão perpétua. Um deles, Albert Woodfox, na semana passada pediu para sair da solitária onde está há 43 anos. Woodfox  recorreu à Suprema Corte e perdeu. Imagine se Aécio descesse de avião em Washington e dissesse que queria ver as condições carcerárias dos Panteras Negras e dos latinos presos nos EUA. Ele não poria o pé em solo americano. A visita deles à Venezuela denuncia um ranço sub-colonial. A missão do Aécio não era visitar Leopoldo López, era criar um incidente internacional. Se o Leopoldo López depender da ajuda do Aécio Neves, vai mofar na cadeia.

Após o incidente, os senadores afirmam querer a Venezuela fora do Mercosul por não cumprir o compromisso do bloco com a democracia. Qual sua avaliação?

A grande vantagem e desvantagem do Parlamento, vantagem pra quem está lá, é que se pode falar o que quiser, a Constituição dá o direito de falar as maiores barbaridades. Ronaldo Caiado, Agripino Maia… Este é o senador que a Dilma humilhou naquela sessão no Congresso, quando ele disse que ela mentiu aos torturadores pendurada no pau-de-arara. Esse é o senador que veio à Venezuela defender direitos humanos, é o sujeito que criticou a Dilma por não ter respondido às perguntas da ditadura militar, nua, pendurada num pau-de-arara tomando choque e como ela disse, mentiu para salvar a vida de outros. Alguém pode levar a sério um sujeito como esse? Estão tentando permanecer nas manchetes por mais algum tempo e por isso vieram aqui ofuscar uma revolução que, com todos os problemas que tem, está tirando o povo da miséria.