Os efeitos da cana-de-açúcar na vida dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul

“O quadro social entre os Guarani e Kaiowá é desesperador. Nos últimos 12 anos, 687 indígenas cometeram suicídio e outros 390 foram assassinados no Mato Grosso do Sul”, escreve Cleber César Buzatto.

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Por Cleber César Buzatto*
Do Cimi

A plantação de cana-de-açúcar para produção de açúcar e álcool combustível está em plena expansão, tendo triplicado a produção nos últimos anos, no estado do Mato Grosso do Sul, Região Centro Oeste do Brasil.

O povo Guarani e Kaiowá foi expulso de suas terras e estas são ocupadas com a produção de commodittes agrícolas, dentre as quais o açúcar.

A produção de açúcar e álcool combustível realizada no Mato Grosso do Sul destina-se fundamentalmente à exportação.

O plantio da cana-de-açúcar ocorre, em grande proporção, sobre as terras tradicionais não demarcadas e com uso de mão-de-obra barata ou escrava dos Guarani e Kaiowá.

Esta expansão da produção de açúcar é financiada e subsidiada pelo governo brasileiro.

O governo brasileiro paralisou os procedimentos de demarcação das terras do povo Guarani e Kaiowá.

Os interesses econômicos da indústria canavieira são um dos principais motivos que impedem o reconhecimento e a demarcação das terras tradicionais Guarani e Kaiowá pelo Estado brasileiro.
O quadro social entre os Guarani e Kaiowá é desesperador. Nos últimos 12 anos, 687 indígenas cometeram suicídio e outros 390 foram assassinados no Mato Grosso do Sul.

Nos últimos dois meses, os Guarani e Kaiowá sofreram ao menos 15 ataques paramilitares, executados por milícias formadas por fazendeiros e seus jagunços. Tais ataques resultaram no assassinato de um líder (Simeão Vilhalva) e em diversos casos de tortura, de estupro coletivo e de ferimentos em crianças e adultos provocados por projéteis de arma de fogo e balas de borracha.

A realidade vivida pelos Guarani e Kaiowá e os alarmantes dados reunidos motivaram a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) a atestar, recentemente, que está em curso um processo de genocídio deste povo indígena no Brasil.

O Cimi considera que a eventual abertura dos mercados europeu e alemão para a importação de açúcar brasileiro agravará ainda mais a situação de violação de direitos humanos enfrentada pelos Guarani e Kaiowá e, similarmente, por outros povos originários do país.

Por tudo isso, o Cimi apoia a Campanha que pede o boicote aos produtos agrícolas do Mato Grosso do Sul.

*Cleber César Buzatto é secretário Executivo do Cimi, em artigo publicado por Conselho Indigenista Missionário.