Médicos do MST vão fortalecer cooperação com a classe trabalhadora do Rio Grande do Sul

“Nosso intuito é nos organizarmos para aglutinar forças com os demais médicos populares do Estado, como ferramenta de luta”.

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Coletivo Estadual de Médicos Populares do MST

 

Por Catiana de Medeiros
Da Página do MST

 

Profissionais ligados à saúde participaram, no último sábado (25), de encontro do Coletivo Estadual de Médicos Populares do MST para debater formas de contribuir com a organização popular na luta de classes no país. O evento aconteceu no Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, na região Metropolitana de Porto Alegre.

Conforme Sergio Reis Marques, do Setor de Saúde do Movimento, o encontro marca a retomada da discussão sobre qual deve ser o papel dos 14 médicos Sem Terra, formados em Cuba e na Venezuela, e dos estudantes de medicina nas áreas de Reforma Agrária e na sociedade como um todo.

“Nosso intuito é nos organizarmos para aglutinar forças com os demais médicos populares do Estado, como ferramenta de luta, e sedimentar uma postura que nos reconheça como um grupo que atua no Sistema Único de Saúde, mas que também colabora de forma mais coletiva com toda a sociedade”, explica Marques.

Ele acrescenta que os Sem Terra sempre tiveram dificuldades para acessar o atendimento à saúde, um dos fatores que motivou o Movimento a buscar conhecimento e formação aos seus militantes, estabelecendo parecerias com os governos cubanos e venezuelanos, na Escola Latino Americana de Medicina (Elam). Marques destaca ainda que essa atuação na saúde popular foi fortalecida com o programa Mais Médicos, possibilitando aos médicos do MST cuidarem do povo mais carente em outros espaços, para além dos assentamentos e acampamentos.

“Nós precisamos discutir outras formas de saúde, aquelas que foram acumuladas ao longo da história dos camponeses, para contribuir com o MST e a classe trabalhadora. Isso vai depender de estudos e organização. Sabemos que sem coletivo não há consciência coletiva, e que existem várias formas de contribuirmos através de planejamentos e ações”, aponta. Segundo Marques, esta discussão também deve envolver os 560 agentes de saúde que trabalham com assentados no estado.

O professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e coordenador da Rede de Médicos e Médicas Populares, Marcos de Almeida, fez um resgate histórico da inserção dos militantes Sem Terra nos cursos de medicina. Segundo ele, que trabalha nos assentamentos da antiga fazenda Annoni, em Pontão, há 11 anos o Movimento forma médicos em Cuba. Hoje, mais de 60 profissionais formados em Cuba e Venezuela estão organizados em coletivos em diversos estados do país.

“Quando estávamos em Cuba, estudando, já debatíamos sobre o que é ser médico no MST e qual seria o nosso papel quando voltássemos ao Brasil. Em 2011, quando eu e Alessandra [médica formada em Cuba] viemos ao estado começamos a nos organizar e a constituir núcleos. Em Pontão organizamos os agentes de saúde e chegamos a ter seis médicos atuando no município, indo ao encontro do nosso projeto de Reforma Agrária Popular. Hoje, temos colegas trabalhando em municípios que foram contemplados pelo Mais Médicos”, declara.

Conjuntura

Durante o encontro dos médicos populares do MST também teve análise da conjuntura política e da saúde pública, com a assentada Sílvia Reis Marques e o professor do curso de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Frederico Machado. Ele falou sobre a repressão que os movimentos sofrem quando propõem mudanças “mais radicais” e o papel que eles têm na defesa da saúde púbica.

“Ocorre uma investida contra a organização coletiva dos trabalhadores e a destituição dos direitos sociais, assim como está havendo mudanças radicais nas relações entre o Estado e a sociedade civil”, complementa.
Além dos médicos e médicas do MST formados em Cuba, participaram das atividades profissionais da área de fisioterapia e assistência social, estudantes de medicina, um médico cubano e dirigentes do Movimento.