Mãe Jaciara: Novembro Negro e a luta do MST

“Vejo que nossas lutas passam por trilhos que comungam e pretendem ao fim e ao cabo o mesmo propósito de libertação”, afirma a Yalorixá em artigo para a Página do MST.

 

 

Por Yalorixá Jaciara Ribeiro*
*Especial para a Página do MST

 

Se o novembro é marcado como mês da consciência negra em memória do líder quilombola Zumbi dos Palmares, não tem com pensar nesse período sem relacionar com o Movimento dos Sem Terra, que também trava uma luta contra os poderes hegemônicos, elitistas e brancos que se apossaram do Brasil há mais de 500 anos. 

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Foto: Arquivo/MST

É bom lembrar que terra e território são sinônimos de vida pra uns e poder pra outros. Não à toa que, após a independência do Brasil e quando já havia uma movimentação internacional pela abolição, a elite brasileira começou a criar os caminhos pra manter os negros fora do domínio da terra. Será que foi coincidência que em 1850 se proibiu o tráfico de escravos, mas também se pensou numa Lei de Terras para assegurar que apenas alguns poucos permanecessem donos de grandes quantidades de terras? Anos depois, após a abolição, o Estado Brasileiro criou uma política de imigração que proibia a entrada de africanos livres, mas incentivava a entrada de imigrantes europeus, inclusive lhes oferecendo terras e outros benefícios para firmarem residência no nosso território. 

Toda essa história também guarda relação com as resistências que as comunidades quilombolas têm que enfrentar pra ter seus territórios preservados, com suas identidades e marcas civilizatórias bem vivas. Da mesma forma os terreiros de candomblé e umbanda, enfrentam o racismo institucional de não conseguirem com tanta facilidade gozar da imunidade tributária que a Constituição lhe dá direito. 

No final das contas nossas lutas se traduzem em busca pelo reconhecimento do direito de ter chão nosso pra pisar e criar as formas de viver com dignidade dentro das nossas perspectivas de bem-estar. O Movimento de Sem Terras é fundamental para o enfrentamento que o Movimento Negro organizado faz por outras vias e com outros métodos, mas sempre na perspectiva de ocupação dos espaços, não exclusivamente das terras, mas dos territórios em que se constrói e decide a vida do país.

Eu, mulher negra de Candomblé, vejo que nossas lutas passam por trilhos que comungam e pretendem ao fim e ao cabo o mesmo propósito de libertação, de rompimento com as novas e recriadas formas de colonização e escravidão dos nossos corpos e nossas vivências. Marchar e ocupar pra existir!!! Estamos aqui!!!

 

 

**Editado por Rafael Soriano