Rede BioNatur: duas décadas de pioneirismo na produção de sementes agroecológicas na América Latina

Ligada ao MST, a rede tornou-se referência para quem quer priorizar no campo e na cidade a produção e o consumo de alimentos saudáveis.
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Por Catiana de Medeiros*
Da Página do MST

 

Pioneira na experiência de cultivar sementes em sistemas de produção de base orgânica e agroecológica no Brasil e na América Latina, a Rede de Sementes Agroecológicas BioNatur, ligada ao MST,  tornou-se referência para quem quer priorizar no campo e na cidade a produção e o consumo de alimentos saudáveis.

Fundada por 12 famílias assentadas na Reforma Agrária, a rede está representada juridicamente pela Cooperativa Agroecológica Nacional Terra e Vida (Conaterra), que tem sua sede no Assentamento Roça Nova, localizado no município de Candiota, na região da Campanha do Rio Grande do Sul. Ela foi constituída com o intuito de produzir e comercializar sementes que pudessem ser cultivadas, multiplicadas, conservadas e melhoradas pelos agricultores que as adquirissem.

Segundo Alcemar Adílio Inhaia, presidente da cooperativa, a motivação partiu da necessidade de superar o modelo de produção convencional praticado pelas empresas de sementes que atuavam na região e da conscientização das famílias sobre a importância de construir uma nova experiência baseada na agroecologia, na cooperação e no manejo sustentável. “Os produtores não queriam mais usar o pacotão dos agroquímicos, foi a partir dai que começou a ser constituída a rede agroecológica”, conta.

O experimento iniciou em 1997 em assentamentos de Candiota e Hulha Negra, também na região da Campanha. Hoje, são 200 famílias produzindo em média 100 a 150 toneladas ao ano de aproximadamente 200 variedades de sementes varietais e crioulas. A produção de sementes de hortaliças, plantas ornamentais, forrageiras, grãos e cereais acontece em 20 municípios e 18 assentamentos do estado gaúcho e de Minas Gerais, numa área total plantada de 200 hectares.

Segundo Inhaia, a certificação do lote dos produtores ocorre via auditoria (Associação de Certificação Instituto Biodinâmico – IBD) em todas as safras, variando de 3 meses a 6 meses, de acordo com o tipo de cultivo. A partir de 2018, a certificação também deverá ser realizada de forma participativa, através da Cooperativa Central dos Assentamentos do Rio Grande do Sul (Coceargs) e da Orgânicos Sul de Minas (OSM).

Conforme a camponesa Roberta Coimbra, assentada no município de Piratini, na região Sul gaúcha, os produtores estão organizados em grupos e debatem coletivamente todas as etapas de produção e os passos a serem dados pela rede. Ela destaca que, para produzir as sementes BioNatur, o agricultor deve obrigatoriamente estar organizado em grupo de, no mínimo, quatro pessoas. Ele ainda deve ter o comprometimento de não utilizar agrotóxicos em nenhuma parte do lote, e não apenas nas áreas onde serão produzidas as sementes.

“Nós utilizamos somente o que é permitido na legislação dos orgânicos. Não aceitamos quem trabalha com venenos, mesmo que em outras culturas que não envolvam a BioNatur. O produtor também não pode usar sementes transgênicas. Estas regras existem para que possamos assegurar a qualidade orgânica das nossas sementes”, explica Roberta. As medidas preventivas, segundo a assentada, também dão mais segurança aos consumidores em relação aos produtos.

Boni complementa que os produtores utilizam a matéria-prima que possuem no lote para criar insumos, como calda bordalesa, adubação verde e repelentes naturais. “Sempre que possível usamos produtos que estão disponíveis na propriedade dos agricultores, dependendo o mínimo de terceiros”, enfatiza. Além disto, os assentados apostam na rotação de culturas e na diversidade de produção em cada safra, produzindo ao mesmo tempo de duas a três variedades de sementes.

Para que a marca BioNatur se fortaleça no mercado, a Conaterra aposta na conscientização dos agricultores sobre as vantagens sociais de investir neste tipo de cultivo e na criação das condições necessárias para que as famílias possam produzir com mais qualidade. Isto porque entre as metas está a expansão da rede a nível nacional. Já pensando nesta ampliação, no segundo semente deste ano a cooperativa reuniu educandos, técnicos e assentados dos estados de Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo, Distrito Federal, Bahia e Goiás para estudos sobre insumos agroecológicos, certificação orgânica e comercialização. No entanto, este tipo de capacitação acontece com frequência entre os produtores mineiros e gaúchos.

Uma das conquistas mais recentes da BioNatur foi ter se tornado mantenedora de 19 variedades de sementes — repolho louco de verão, couve manteiga da Geórgia, BRS tortéi, rúcula cultivada, moranga de mesa, tomate bio feliciana, abobrinha de tronco redonda e abobrinha de tronco caserta, abóbora menina brasileira, moranga pataca gigante, alface quatro estações, berinjela preta comprida, couve-brócolis ramoso santana, cenoura brasília, coentro verdão, melancia crimson sweet, melão imperial, quiabo santa cruz 47 e salsa lisa. A partir de 2018, a cooperativa estará apta a produzir suas próprias sementes destas cultivares, que posteriormente darão origem aos campos de produção de sementes comerciais. 

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Produção e comercialização

Boni destaca que as sementes BioNatur são colhidas manualmente, em processos artesanais, que garantem a máxima qualidade. Elas são 100% livres de transgênicos ou híbridos, sendo todas produzidas de maneira agroecológica, sem o uso de insumos químicos sintéticos. “São sementes de reprodução livre, ou seja, podem ser multiplicadas pelos consumidores, que não precisam ficar comprando sementes todos os anos”, frisa.

As sementes BioNatur possuem ainda capacidade de adaptação às diferentes regiões do Brasil. As hortaliças, por exemplo, podem ser produzidas em quase todo o território brasileiro. Por isto, o seu público consumidor, formado tanto por trabalhadores rurais quanto urbanos, se encontra em todas as regiões do país. Para quem mora no campo, elas são boas alternativas para colocar em prática a produção de alimentos saudáveis. 

Este é o caso da agricultora Terezinha Alba de Castro, moradora da zona rural do município de Ametista do Sul, na região Norte do RS. Para propiciar uma alimentação mais saudável à sua família, ela plantou numa horta de 6 metros quadrados sementes de couve, pepino, abóbora, alface e repolho. No pátio da casa ela também semeou sementes de flores. A agricultora afirma que os benefícios foram muitos, principalmente pela capacidade de reprodução das sementes. “Todas são ótimas e produtivas. Os alimentos nascem bonitos e muito saborosos. As sementes de abóbora eu guardei e colho até hoje, também doei para os vizinhos”, argumenta.

E para quem vive na cidade, as sementes BioNatur também são sinônimo de vantagens, especialmente porque várias espécies podem ser produzidas em pequenos pátios e até mesmo em vasos em apartamentos. Laís Tonatto, estudante de História, fez o experimento: adquiriu sementes de cebola, melancia, cenoura e couve para plantar na horta da sua família na cidade de Aratiba, na região do Alto Uruguai do RS. Sua avaliação em relação à qualidade é positiva. “É muito boa, houve um rendimento muito grande em termos de produção. Eu sempre indico e recomendo a todos”, diz.

As sementes BioNatur são disponibilizadas em sachês, envelopes e latas de 100 e 250 gramas. Inhaia explica que os preços variam conforme a variedade e o peso dos produtos. Todos podem ser adquiridos via email (bionaturcomercial@gmail.com), site (www.bionatursementes.bio.br), no Mercado Público de Porto Alegre e em vendas diretas, como na Feira Nacional da Reforma Agrária, Feira Latino-Americana de Economia Solidária (EcoSol), Feira Ecológica do Parque da Redenção e Exposição Internacional de Animais, Máquinas, Implementos e Produtos Agropecuários (Expointer). As sementes também são destinadas à Venezuela, ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e ao Programa Sementes Banrisul. A Conaterra ainda aposta na venda de kits promocionais, que garantem mais sementes por um preço menor aos consumidores.

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Contribuição às famílias

Segundo o presidente da Conaterra, a produção das sementes têm uma estratégia fundamental no lote dos produtores, pois contribuem para a reserva de alimento, a subsistência das famílias, a independência externa e a diversidade da produção. Todo o processo produtivo recebe assistência técnica, que é oferecida aos assentados pela própria cooperativa. Este trabalho se dá através do acompanhamento aos campos de produção, com orientações sobre o manejo agroecológico das lavouras, reuniões nos grupos e elaboração de documentos relacionados ao credenciamento dos campos e à certificação orgânica.

A experiência da BioNatur ainda têm sido fundamental para estimular a permanência das famílias no campo, especialmente da população mais jovem, conforme destaca o agricultor e filho de assentados Laércio Barbosa Nascimento. Ele morou dos 14 aos 24 anos de idade na cidade, mas voltou para o assentamento motivado, principalmente, pela experiência dos seus pais na produção de sementes. “Além de produzirmos orgânicos, que ajudam na sustentabilidade, temos uma renda extra. Muitos jovens buscam emprego na cidade para fazer faculdade. Mas a gente quer estudar e ficar no campo, para continuar o que nossos pais começaram. Através da BioNatur, isto tem se tornado possível”, argumenta.

Nascimento, que hoje tem 30 anos de idade, já pôde realizar inúmeros cursos de aperfeiçoamento na área administrativa e de atendimento ao público. Atualmente, ele ajuda a produzir sementes no lote dos seus pais e contribui no setor comercial em eventos que a BioNatur participa.

 

*Editado por Maura Silva