Herdeiros da Luta: uma homenagem à Revolta de Porecatu

MST rende homenagem com a construção de um monumento no local onde outrora concentrou o primeiro acampamento de luta pelo direito a terra

Por Iris Pacheco
Da Página do MST

 

“…você perguntará porque cantamos…cantamos porque o grito só não basta e já não basta o pranto nem a raiva, cantamos porque cremos nessa gente e porque venceremos a derrota…”

 

Em tempos de resistência ativa permanente, cada vez mais é necessário afirmar que a caminhada na luta pela terra vem de longe. Um país continental como o Brasil, com tanta terra, água e bens da natureza, mas também, com alto índices de concentração nas mãos de poucos, apenas acentua e aprofunda a desigualdade social.

É nesse cenário que o MST do Paraná rende sua justa homenagem à Revolta de Porecatu, com a construção de um monumento no local onde outrora concentrou o primeiro acampamento de resistência desses camponeses e camponesas na luta pelo direito a terra.

“É aqui, com a memória da luta dos camponeses e camponesas de Porecatu, da qual somos herdeiros/as, que nos inspiramos para seguir como protagonistas da nossas própria história, construindo coletivamente um processo de transformação social e enfrentando o latifúndio”, afirma Ceres Hadich, da direção do MST no Paraná.

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A Revolta de Porecatu aconteceu no final da década de 40 e início de 50. Ficou conhecida na região como Quebra Milho. Histórias relatam que os camponeses/as se comparavam a uma espiga de milho arrancada do pé onde os quebradores de milho seriam os policiais, que queriam retirá-los da terra onde viviam.

O enredo da história envolve uma política estadual de ocu­­pa­­­­ção territorial do Oeste do Pa­­raná pelo então interventor Manoel Ribas, com o objetivo de tornar produtivas as terras do estado na região, e depois consolidando o que seria a primeira política de titulação da terra para pequenos produtores/as. Isso provoca um processo de migração de famílias para­­naenses, de São Paulo e Minas Gerais rumo a Porecatu.

A questão é que com o novo governo de Moisés Lupion, essa política não só não teria continuidade, como também seria doada e vendida para conhecidos fazendeiros de São Paulo. Os pedidos dos posseiros nunca teve resposta positiva do governo e os conflitos pela terra se acirraram.

A história da Revolta de Porecatu é retratada no livro “Porecatu: a guerrilha que os comunistas esqueceram”, do jornalista Marcelo Oikawa e publicado pela Editora Expressão Popular.

 

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A obra retrata como a partir da segunda metade do século XX, os conflitos de terra se intensificaram no norte do Paraná, e a guerrilha de Porecatu, organizada sob influência do Partido Comunista Brasileiro que na época, recém tinha sido tornado ilegal (1947 por Dutra) e, por tanto, achavam que só restava a luta armada, mas sobretudo, aponta o silêncio sobre esse importante episódio da luta pela terra, que significou um grande enfrentamento as elites agrárias, mas que gerou críticas necessárias no aspecto da estratégia nunca enfrentadas pelo próprio partido.

Ao retomar a luta pela terra em uma região simbólica como essa, o MST teve que enfrentar grandes obstáculos, sobretudo, no que se refere ao enfrentamento do agronegócio com um intenso monocutivo de cana de açúcar.

Já se foram 20 anos, desde que o primeiro assentamento foi conquistado, destes anos os últimos dez, foram marcados por intensas lutas na ampliação da luta pela terra na região, que hoje se somam mais de 12 mil ha produtivas divididas em dois assentamentos e quatro áreas de acampamentos.

Essa homenagem material, que é o monumento no acampamento Herdeiros da Luta, é uma forma de evidenciar um processo histórico de luta que passou muitos anos silenciado na memória da esquerda brasileira.