“Ocupar escolas, ocupar terras”

Pesquisadora norte-americana publica livro sobre como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra transformou a educação brasileira
Rebecca Tarlau dedicou os últimos dez anos a pesquisar as ações do MST que visavam conectar a luta pela Reforma Agrária a uma proposta educacional emancipadora. Fotos: Gabriel Vargas

Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST

Ao longo dos últimos 35 anos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ficou conhecido no mundo inteiro por organizar milhares de trabalhadores Sem Terra em ocupações de latifúndios para conquistar o direito a terra, saúde, educação e desenvolver práticas de produção de alimentos saudáveis e agroecológicos.

A professora e pesquisadora Rebecca Tarlau dedicou os últimos dez anos a pesquisar as ações do MST que visavam conectar a luta pela Reforma Agrária a uma proposta educacional emancipadora. Segundo a autora, o Movimento desenvolveu práticas pedagógicas em escolas públicas, estimulando a militância, a autogestão e as formas coletivas de trabalho. Tarlau é professora de Educação e de Relações de Trabalho e Emprego na Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA.

No livro “Occupying Schools, Occupying Land”, Rebecca Tarlau explora como os militantes do MST implementaram o programa educacional em escolas públicas e universidades, atingindo centenas de milhares de estudantes.

Na publicação, Rebecca defende o conceito de Cogestão, em que evidencia as relações do MST com o Estado brasileiro —aqui compreendido como um conjunto de organizações, instituições vinculado ao governos federal, estaduais e municipais, muitas vezes com objetivos contraditórios. A intenção foi compreender esta relação que se estabelece entre movimento social, como demandante e propositor de uma política pública e o Estado brasileiro, como promotor e mantenedor desta, à medida em que as famílias ocupam terras para pressionar diferentes governos a redistribui-las para as famílias Sem Terra.

Segundo Tarlau, a relação entre movimento social e Estado é contraditória, já que o MST pressiona o Estado capitalista para garantir o direito a educação pública mas também exige que seja um educação anticapitalista, que visa a construção de uma outra forma de sociedade, por meio de uma educação inclusivas, participativas e coletiva. Os militantes do MST reivindicam não apenas escolas em suas comunidades, mas também o direito de que as próprias comunidades possam participar na gestão dessas escolas, com o propósito de promover práticas organizacionais, curriculares e pedagógicas que garantam o acesso ao conhecimento cientifico, mas também o desenvolvimento integral do ser humano. Ou seja, formas mais coletivas de relações sociais e econômicas, que antecipam o projeto futuro de construir uma sociedade socialista.

Confira a entrevista com Rebecca Tarlau sobre sua pesquisa e os desafios da educação do campo.

O que lhe inspirou a pesquisar e escrever um livro sobre a proposta educacional do MST?

A primeira vez que eu vim para o Brasil foi em 2004, eu estava fazendo um intercâmbio com um grupo feminista em Recife e elas usavam a pedagogia de Paulo Freire para realizar cursos de educação popular em suas comunidades e aumentar a consciência política. Depois desta primeira aproximação, eu decidi que iria ser uma educadora popular, seguindo os ensinamentos de Paulo Freire, e queria ver como os movimentos sociais estavam usando este método. O MST é muito conhecido por incorporar a educação como uma parte fundamental de sua luta social e decidi fazer o doutorado para ter esta oportunidade de pesquisar sobre o MST. Resumindo, o tema foi escolhido a partir de Paulo Freire e minha paixão pela educação popular, e por entender que o MST é um dos maiores movimentos sociais da América Latina, que tem um projeto educacional muito importante.

Em que consiste a sua pesquisa?

A pergunta principal da pesquisa foi como os movimentos sociais podem implementar uma proposta pedagógica com iniciativas socialista dentro de escolas de um Estado capitalista. Eu queria saber como o MST estava fazendo esta relação do movimento social e o Estado, e como esta proposta estava sendo construída no chão da escola. Então eu decidi fazer uma comparação entre várias redes estaduais e municipais e programas educacionais em diferentes estados do Brasil, com resultados diferentes em cada lugar. 

O livro é resultado de uma pesquisa científica de mais de dez anos, quais os lugares e experiências educativas que você tomou contato em sua investigação? 

Eu comecei com o Rio Grande do Sul, por ser o estado onde nasceu a proposta educacional do Movimento e o Setor de Educação, e por exemplo as Escolas Itinerantes dos acampamentos de luta pela terra e o Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária – ITERRA, enfim, muitas iniciativas com diferentes nuances.

Eu também quis estudar as diferenças que se davam nos municípios, então eu peguei dois municípios diferentes de Pernambuco, um que está no sertão de Pernambuco, em Santa Maria da Boa Vista, e outro na Zona da Mata, um município chamada Água Preta. São lugares onde o MST ocupou muitas terras e tem muitos assentamentos até hoje. Em Santa Maria da Boa Vista o MST avançou muito em seu projeto educacional, e em Água Preta o Movimento encontrou mais desafios. Então fiz esta comparação para compreender porque no mesmo estado, com o MST defendendo uma proposta educacional similar, os desafios são tão diferentes.

Depois eu fui ao Ceará, porque lá é um estado em que escolas do campo do ensino médio são um exemplo de como o MST acumulou em seu projeto pedagógico e como o Movimento vem aprimorando nesta última décadas.

O último caso foi no estado de São Paulo, no Pontal do Paranapanema, onde o MST conquistou muitas escolas públicas nos assentamentos mas que nunca conseguiu ter um sistema de cogestão, mas é um exemplo de lugar muito difícil de transformar as escolas públicas. Enfim, a pesquisa comparou as escolas públicas destas cinco redes públicas, e também na esfera nacional no Ministério da Educação – MEC e no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA.  

E quais experiências de vida você destacaria?

Quando eu morei 7 meses em Santa Maria de Boa Vista, em Pernambuco, eu morei com a Edilene, que é uma militante do Setor de Educação do MST, e com a mãe da Edilene, a Dejanira Menezes Mota (Dona Deja). Ela foi como uma mãe para mim, convivi muito com a Dona Deja, conversávamos muito, ela cozinhava, e eu aprendi muito com ela. E em 2017 ela morreu repentinamente, ninguém esperava e foi muito triste. Então eu quis fazer uma homenagem no livro pra ela, em nome de todas as pessoas que integram o movimento e que me acolheram neste percurso de mais de 10 anos de pesquisa. Ela não era uma dirigente, não tinha tarefa orgânica no MST, mas sempre se identificou com as causas e representa a base do Movimento. Estamos muito triste que ela faleceu e estamos sempre lembrando dela.

No livro você apresenta como o MST transformou a educação Brasileira e faz uma análise das experiências educacionais dentro do movimento, quais as constatações e conclusões que você compartilha?

O livro tem várias contribuições, mas acho que a mensagem principal é contra a ideia de que não pode haver relação entre movimentos sociais com o Estado, a cogestão, porque tanto nos movimentos sociais quanto na academia existe a ideia de que você tem que conter a cogestão para não pegar os vícios do Estado. É uma tese muito forte na academia, mas eu acho que também é muito debatida dentro dos movimentos sociais. Eu queria mostrar com este livro que o MST conseguiu transformar as escolas públicas em seus assentamentos e acampamentos, através do que eu chamo da “longa marcha dentro das instituições” um conceito Gramsciano.

O MST conseguiu aumentar sua capacidade interna, técnica e política com a cogestão, conseguiu integrar mais pessoas ao Movimento, principalmente mulheres, porque como o ambiente escolar é uma esfera feminizada, muitas mulheres entraram no movimento através da educação. Assim, o MST abriu espaço para diferentes grupos lutar pelo socialismo, fazendo com que os estudantes possam estar praticando elementos de um projeto socialista, que eu chamo de “prefigurando”. Eu penso que eles estão prefigurando um futuro agora, no momento atual. Por exemplo, a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) é um exemplo deste socialismo sendo praticando, mas nunca vai conseguir abranger a maioria dos jovens do MST. Como estes jovens do MST vão para as escolas públicas, então o Movimento pode colocar alguns elementos da ENFF dentro das escolas públicas e todos terão a oportunidade de praticar elementos da proposta pedagógica do movimento. Isso aumenta a capacidade interno do movimento. Este é o argumento principal do livro.

Você tem lançado o livro em várias Universidades, como tem sido a receptividade da obra e quais as lições para os educadores e pesquisadores?

Este semestre eu fiz lançamento em 14 universidades, como a Universidade de Novo México, Universidade de Columbia em Novo York, Universidade de Texas em Austin, em 5 universidades no Canadá, na Universidade de Wisconsin na Madison, a Universidade de Massachusetts em Amherst, a Universidade Estadual da Pensilvânia, na qual dou aulas, e na Universidade de Harvard, a mais famosa dos EUA. Também no próxima semestre já está agendado mais 10 lançamentos em outras universidades. Neste evento, eu apresento uma visão geral do livro, focando principalmente no capítulo 2, que fala sobre a Programa de Educação na Reforma Agrária – PRONERA, dos conflitos que se tinha com o Estado e da necessidade de fazer negociações políticas e lutas por políticas públicas, sem perder de vista, que não podemos só depender da negociação do estado, mas que fazemos transformações com lutas, marchas e protestos. Eu conto sobre a experiência do PRONERA e os norte-americanos ficam impressionados com as transformações causadas pelo programa. Nas palestras eu dou destaque para o programa, faço um panorama geral do MST e acabo falando sobre a situação atual do Brasil, que é sempre uma curiosidade que as pessoas têm. 

E como você enxerga a conjuntura atual?

No epílogo do livro eu escrevo um pouco sobre este momento atual, como o golpe que teve contra a Dilma (2016) e a situação do país com o Bolsonaro (2018). Meu argumento no epílogo é que o Bolsonaro está no poder, mas não tem o poder de acabar com o MST, ou de acabar com os programas educacionais dos movimentos sociais do campo. O próprio PRONERA tem enfrentado muitas dificuldades, mas as Universidades que desejam ir em frente e apoiar programas similares vão continuar fazendo, porque elas têm autonomia. Os programas ligados à licenciatura de educação do campo não podem ser destruídos por Bolsonaro porque agora eles são institucionalizados dentro de mais que 40 universidades. Este é um momento bem difícil para o país, mas o MST não vai acabar, ele vai continuar lutando e acumulando forças. E o Bolsonaro não tem o poder de eliminar todas as conquistas que o MST teve nos últimos 35 anos de sua história. Eu termino com um pouco de otimismo sobre o futuro da esquerda brasileira e do MST.


E quais são os próximos passos para a pesquisa aqui no Brasil? Alguma previsão?

Estou agora no processo de traduzir o livro para o português. Quando terminar eu vou realizar conversas com editoras, mas pretendo lançar uma versão em português publicado pela Expressão Popular, que é a única que realmente faz com que os livros cheguem nos espaços do MST, e pretendo convidar o Setor de Educação do MST para fazer o prefácio. Eu gosto sempre lembrar que eu sou uma pesquisadora e professora, mas que também sou uma militante das causas populares. Nos Estados Unidos eu faço parte de movimentos sociais, e sou parte do coordenação nacional do Comitê dos Amigos do MST. Tenho uma relação muito próxima com o Setor de Educação do MST, então eu me sinto integrante do MST também.