15 anos do martírio de irmã Dorothy e os povos de Anapu (PA) continuam resistindo

A freira recebeu diversas ameaças de morte durante sua trajetória. Pouco antes de ser assassinada declarou: “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta”

Por Setor de Comunicação CPT Nacional


Hoje, 12 de fevereiro, completam-se 15 anos do assassinato da missionária norte-americana, irmã Dorothy Stang. Religiosa naturalizada brasileira, Dorothy pertencia à Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur. A freira, que fazia parte da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Anapu, no Pará, foi executada com seis tiros no lote 55 do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) – Esperança, em 2005.


O assassinato foi encomendado por dois fazendeiros, Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, e Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como Taradão, em decorrência de disputa por terras que pertencem à União. Mesmo ameaçada de morte, Dorothy nunca fraquejou diante da missão da sua vida, lutar pelos pobres da terra, para que esses tivessem seus direitos garantidos e uma vida digna. De 2005 a 2019, de acordo com dados de Centro de Documentação da CPT Dom Tomás Balduino, foram 23 assassinatos em conflitos no campo no município de Anapu (PA).


Em 1966, irmã Dorothy iniciou seu ministério, no Brasil, na cidade de Coroatá, no Maranhão. Nos anos 1970, passou a atuar junto aos trabalhadores rurais da região do Xingu. Sua atividade pastoral e missionária buscava a geração de emprego e renda com projetos de reflorestamento em áreas degradadas, junto aos trabalhadores rurais da área da Rodovia Transamazônica. Ela também lutava pela redução dos conflitos agrários na região.


Incansável, Dorothy atuou ativamente nos movimentos sociais no Pará. A sua participação em projetos de desenvolvimento sustentável ultrapassou as fronteiras da pequena Vila de Sucupira, no município de Anapu, a cerca de 700 quilômetros de Belém, capital do estado. A ação de Stang ganhou reconhecimento nacional e internacional.


A religiosa fazia parte da CPT desde a fundação da organização, há 45 anos, e acompanhou com determinação e solidariedade a vida e a luta dos trabalhadores do campo, sobretudo na região da Transamazônica, no Pará. Defensora de uma reforma agrária justa e ampla, Irmã Dorothy mantinha intensa agenda de diálogo com lideranças camponesas, políticas e religiosas. Dentre suas inúmeras iniciativas em favor dos mais empobrecidos, Irmã Dorothy ajudou a fundar a primeira escola de formação de professores na Rodovia Transamazônica, que corta ao meio a pequena Anapu. Era a Escola Brasil Grande.


A freira recebeu diversas ameaças de morte durante sua trajetória. Pouco antes de ser assassinada declarou: “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar”.


A luta de Dorothy permanece viva!

Durante o enterro de Irmã Dorothy Stang, em Anapu, foi dito que a religiosa não estava sendo enterrada, mas “plantada” em solo brasileiro.


As irmãs Jane Dwyer e Kátia Webster, da mesma congregação de Stang, continuaram sua luta e deram esperança ao seu legado. Da mesma forma, padre Amaro Lopes, assim o fez. Porém, as mesmas forças que tiraram Dorothy desse plano, continuaram a tentar assassinar a sua presença em meio ao povo pobre de Anapu.


Em 4 de março de 2018, após um longo processo de criminalização, padre Amaro Lopes foi preso. Ele foi vítima de falsas acusações por parte de fazendeiros e da Polícia Civil de Anapu, com o objetivo de mantê-lo afastado de suas atividades pastorais no município. O Ministério Público não encontrou provas que pudessem sustentar diversas das acusações até então levantadas pela Polícia. Foi feita uma verdadeira campanha de eliminação moral do Padre Amaro.


O religioso foi solto após um habeas corpus em junho do mesmo ano. Porém, o processo ainda corre e padre Amaro teve suas atividades limitadas por conta disso.


Nestes 15 anos, que tiveram como marcos temporais a execução de Dorothy e a prisão do Padre José Amaro, os PDS Esperança e Virola Jatobá não foram apenas listados como o Projeto de Dorothy. Nestes 15 anos os PDS Esperança e Virola Jatobá foram projetos de vida de muitos. Cerca de 400 famílias constituíram, nas glebas Bacajá e Belo Monte, que abrangem os dois PDS, formas de viver alternativas ao sistema de exploração do agronegócio. E é esta a grande ameaça para os grileiros, madeireiros e latifundiários da região: viver a floresta em um projeto sustentável.


Sínodo da Amazônia e o legado de Dorothy


Na mesma data em que fazemos a memória de Dorothy, é publicado o documento “Querida Amazônia”, a exortação pós-sinodal nascida de tudo o que foi vivido durante o Sínodo para a Amazônia, realizado em Roma, de 6 a 27 de outubro de 2019.


Um dos momentos que mais marcaram o Sínodo foi a procissão da Basílica de São Pedro à sala sinodal, com os cartazes e estandartes dos mártires da Amazônia.


Dorothy Vive!