O homem precisa abrir mão de seu lugar de privilégio

Dirigentes Sem Terra refletem sobre a construção do feminismo popular e a contribuição dos homens

Por Alan Tygel
Da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Entre os dias 5 e 9 de março, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realizou o seu primeiro Encontro Nacional das Mulheres Sem Terra. Cerca de 3.500 mulheres vindas de acampamentos e assentamentos de todo o país se reuniram em Brasília para debater a construção do feminismo camponês popular, e afirmar a importância da conquista de espaços de liderança pelas mulheres.

Para garantir o exercício pedagógico de construção do feminismo num movimento misto, diversos homens se integraram às equipes da cozinha, segurança, infraestrutura e no cuidado com as crianças. Neste contexto, o site do MST conversou com Kelli Mafort e Luiz Zarref, ambos da coordenação nacional do MST, sobre o papel dos homens na construção da luta feminista.

Confira a conversa a seguir:

Como o MST enxerga a participação dos homens na luta feminista?

Kelli Mafort:

O desafio não é pouco. Quando o homem se envolve no tema do feminismo, ele não pode se colocar num lugar de apoio à libertação das mulheres. Ele tem que se colocar num duplo lugar: primeiro, como uma pessoa impactada pelo modelo patriarcal e por uma masculinidade que foi criada para ser funcional a essa sociedade patriarcal. A ideia de que “homem não chora”, que deve ser o provedor, desenvolveu historicamente uma carga que acabou apartando os homens da dimensão do afeto, da delicadeza, e do cuidado.

Kelli Mafort, da Coordenação Nacional do MST/ Foto: Janine Moraes

Por outro lado, o homem tem que se incomodar com este lugar, que é um lugar de privilégio. Mesmo os homens da classe trabalhadora estão num lugar de privilégio em relação às mulheres, por conta da divisão sexual do trabalho. Então, se não houver uma intencionalidade radical dos homens de enfrentar a divisão sexual do trabalho, sua reprodução fica com uma aparência de natural.

Luiz Zarref:

Nós homens não estamos “nos somando” na luta feminista: Na realidade a nossa organização está se transformando numa organização feminista, baseada no feminismo camponês e popular. Então é uma exigência para cada homem que está organizado pelo MST que compreenda seu papel nesse processo.

Luiz Zarref, da Coordenação Nacional do MST/ Foto: Manuela Martinoya

Assim como há 15 anos nós tomamos a definição de que a agroecologia é a única possibilidade – e não uma alternativa para o campesinato brasileiro-, nós estamos entrando no processo de dizer construindo o entendimento que o feminismo não é apenas uma possibilidade, não é uma coisa só das mulheres. O feminismo é a uma necessidade fundamental para enfrentar os desafios do momento atual única forma de passar por este momento e garantir que nossa organização ainda vai ter mais 35 anos em um processo de construção da revolução.

Qual é a tarefa dos homens nesta construção?

Luís Zarref:

Pensemos em três dimensões: a formação, a prática cotidiana e a organicidade. A tarefa passa por um processo de formação política, porque é necessário compreender como o patriarcado está estruturalmente organizado na sociedade e se reproduz também no cotidiano da nossa vida tanto como assentados e acampados, mas também dentro da nossa organicidade e dentro da forma de organizar o movimento.

A formação passa não só por compreender o trabalho que a mulheres têm feito, mas também quais são as formas de violência que nós praticamos cotidianamente, seja nos territórios, seja na atuação política. A violência física é a mais nítida, mas temos também a violência sexual, patrimonial e simbólica de maneira geral. Essas formas de violência não estão claras para nós homens: elas precisam ser ditas, e uma forma de dizer é com a formação política que requer estudo, leitura, curso.E nossa organicidade precisa ser reflexo dessa transformação de nosso movimento com bases feministas.

A prática cotidiana normalmente está formada pelas estruturas construídas pelo patriarcado. Então, temos que ir atuando nas contradições dessas estruturas, de forma dialética, com o objetivo de avançar na construção do feminismo camponês popular. Desde nossos territórios, as práticas devem mudar. No acampamento e no assentamento, para materializarmos a Reforma Agrária Popular, precisamos fortalecer os grupos de mulheres, mas não apenas isso. Precisamos reorientar toda a divisão sexual do trabalho que há na nossa lida do dia a dia. Precisamos também mudar a forma como a renda gerada pela família – e os investimentos – são definidos e destinados. Mesmo quando produzimos alimentos saudáveis, com agroecologia, precisamos entender que lugar onde tem violência contra a mulher não tem agroecologia.

Da mesma forma, nas nossas lutas a divisão de todas as tarefas deve buscar superar a definição machista de tarefas específicas para homens. Não apenas na definição da paridade de gênero – que é uma conquista muito importante e que possibilitou a exposição e superação de várias contradições – mas em todo nossa dinâmica interna. As metodologias das reuniões, as dinâmicas dos encaminhamentos, as formas de construir o trabalho de base… não basta ter mulheres na organicidade, se a forma dessa organicidade for masculinizada. É necessário nos revolucionarmos internamente.

Como foi a evolução deste debate no setor de gênero do MST?

Kelli Mafort:

Nós viemos de um tradição machista do campo. Quando o setor de gênero foi criado, em 2000, a definição política era da participação de homens e mulheres. Pouco a pouco, começou a acontecer um duplo movimento: por um lado os homens foram saindo do setor de gênero, porque há também nos movimentos populares uma reprodução ainda da divisão sexual do trabalho.

Por outro lado, as mulheres foram também tensionando por um espaço auto-organizado. Nós somos um movimento misto, mas entendemos que o feminismo precisa de um protagonismo das mulheres. E que nós precisamos de espaços próprios de mulheres no movimento.

Esse movimento acabou fazendo com que a gente tivesse um setor de gênero que era quase um sinônimo de setor de mulheres. Não começou assim, mas na prática ele foi setor de mulheres, e a agora nós estamos vivendo uma reformulação disso.

O que disparou este processo de reformulação?

Kelli Mafort:

Essa reformulação começou a acontecer por iniciativa de dois sujeitos políticos que demandaram o debate de gênero no movimento. Primeiro, os sujeitos LGBTs, quando começaram a se organizar e trouxeram pra nós uma provocação muito importante sobre o que a gente concebia sobre gênero. E a nossa visão de gênero estava muito ligada a uma defesa do feminismo e da luta das mulheres. Então a gente não conseguia fazer todas as mediações sobre o impacto do patriarcado na vida dos sujeitos LGBTs, homens e mulheres. O coletivo LGBT nos ajudou a fazer uma mediação entre sexo biológico, gênero e orientação sexual. Isso nos deu muitos elementos para conceber a participação nos espaços de mulheres do MST de mulheres trans, por exemplo, e isso então foi alargando a nossa concepção das mulheres sobre gênero.

O outro movimento é a própria provocação dos homens em dizer: “qual é o nosso lugar nessa trajetória?” Com base nisso, fomos desenvolvendo algumas metodologias de trabalho com os homens. Ainda são metodologias em processo de construção.

Quais são essas metodologias?

Luiz Zarref:

Há cinco anos, temos feito o exercício das Assembleias dos Homens. As assembleias das mulheres eram um momento de sobretrabalho, pois participaram das mesmas atividades que os homens, e ainda tinham um 3o turno de reunião. E era o momento em que se reforçava que esse era um debate que as mulheres tinham que fazer, e os homens não. Então os homens iam pro bar, tomar banho, conversar, e isso foi criando um descolamento profundo dentro da própria organização, do tanto que as companheiras estavam avançando em reflexões e formas organizativas, e os homens estavam em processo de alienação deste debate. Então se criou essa metodologia de Assembleia dos Homens. Elas assumem formas diversas, como debates coletivos, exibição de filmes e estudo conduzido por uma companheira. Todas as assembleias são pensadas em conjunto com as companheiras.

Outro exemplo é a noite antipatriarcial. É um momento em que tentamos criar um momento de mais intimidade entre os homens, num formato de roda de conversa. Justamente por ter esse envolvimento, assumimos uma metodologia mais direta e forte. Lá introduzimos os relatos de assédio, para que a violência seja demonstrada concretamente. Mostramos como nós reproduzimos essa violência, pois são relatos que permeiam a vida de todos os homens.

Nossa organização está grávida de um novo processo organizativo, que se ensaia fundamentalmente na construção do 8 de março. Ali as mulheres exercem sua capacidade de direção de forma plena. E isso reorganiza as formas de tomada de decisão, de distribuir as tarefas, porque fica muito claro que o patriarcado também se reproduz na tomada de decisões e na divisão de tarefas. A construção do 8 de março mostra que o método é mais reflexivo e o detalhe aparece com mais frequência, porque quem cuida dos detalhes são as mulheres, mas isso em geral é relegado a uma questão secundária. Cronometrar os tempos, saber os trajetos, as palavras de ordem, sem isso não se faz uma ação com sucesso.

Kelli Mafort:

Há mais de vinte anos as mulheres fazem Assembleia das Mulheres para as suas pautas, seus temas, e deliberações das lutas. Então nós provocamos que neste momento de Assembleia das Mulheres, deveria ter um momento de Assembleia dos Homens.

E nós temos tido surpresas muito boas. Uma coisa são os homens ficarem naquele âmbito de dizer: “Ah sim, é muito importante as mulheres participarem”. Agora, nós propomos alguns temas que são recorrentes nos movimentos como por exemplo o tema da violência contras as mulheres, do assédio, que é muito comum entre a militância, o tema das relações de poder, o quanto que as mulheres são silenciadas, o quanto que a posição de uma mulher não é considerada e às vezes outro homem num espaço de reunião fala uma coisa e os homens se referenciam entre eles… Existem espaços de poder no qual as mulheres não participam, por exemplo, mesas de análise de conjuntura, debates de economia, filosofia ou política. O quanto que a gente foi naturalizando ver homens falando sobre os grandes temas, e mulheres coordenando, arrumando a mística, servindo café e água. Fomos tocando nesses pontos e criando processos de desconstrução.

Que tipo de iniciativas estão sendo pensadas nos acampamentos e assentamentos junto à base do movimento?

Kelli Mafort:

Na base, nós temos tido algumas experiências de combate à violência doméstica. Há muita dificuldade em obter os número de violência contra a mulher, porque as estatísticas de violência são feitas com base no 180, que é um mecanismo pouquíssimo utilizado no campo por uma dificuldade de acesso. As delegacias especializadas de mulheres não estão nas pequenas cidades do interior.

A nossa orientação, do setor de gênero é: em caso de violência doméstica, denuncie. Só que a gente também tem começado a fazer outras práticas, que são do constrangimento e da pena pedagógica. Isso historicamente nos acampamentos funcionou muito bem em relação ao regimento interno, que é muito firme nessa questão de violências, contra as crianças, contra as mulheres, mas a gente também está construindo algumas experiências, ainda bem incipientes, de punir os homens violentos e agressores com formação de gênero. E o resultado tem sido interessante.

Temos visto que é um caminho bom, porque de alguma maneira, por mais que seja brutal a violência contra as mulheres, nós não podemos nos acomodar somente no punitivismo. Porque aí você está entregando o sujeito para um estado que não vai resolver muita coisa. 

Outra contribuição na base é no tema da Reforma Agrária Popular.

Quando o movimento começa a discutir Reforma Agrária Popular, e se torna uma deliberação a partir do VI Congresso, o movimento também dá uma guinada muito importante, sobre a concepção de produção, a relação com os bens naturais, a questão da agroecologia e do meio ambiente, e quando a gente vai olhar para os o saberes e práticas e que historicamente são feitas, a gente vai encontrar as mulheres. Então esse debate da Reforma Agrária Popular ajudou a conduzir as mulheres para um lugar de maior destaque. Por exemplo, na questão dos agrotóxicos, a ruptura no assentamento e na comunidade em geral começa com as mulheres. São elas que veem que a família está adoecendo, que são casos recorrentes, elas veem que o rio não está mais do mesmo jeito. Quem começa a fazer o processo de transição agroecológica são as mulheres. Vimos nisso uma potencialidade muito grande.

Neste trabalho mais da base, os homens foram percebendo que não dá pra pensar a Reforma Agrária Popular se não tiver de fato as mulheres em relação de poder para poder pensar a produção e a comercialização.

Neste sentido, estamos sendo mais firmes com os homens para garantir a participação das mulheres nos espaços de decisão das cooperativas, da comercialização. Para uma mulher avançar, os homens também têm que ter uma compreensão e entender essa importância.

A discussão no âmbito da produção, que é um espaço muito masculino, não é fácil. Então nós temos tido também uma intencionalidade maior na participação das mulheres na produção de alimentos em larga escala. Não é uma discussão de quintal, mas uma produção de escala que tem que ser também agroecológica. E está provado que é possível, com arroz, as agroflorestas etc.

A expulsão e denúncia são as única medidas para homens agressores? A reeducação é possível?

Luiz Zarref:

Nos nossos acampamentos, aumentou a violência contra as mulheres, porque essa violência aumentou na sociedade. Expulsar não resolve. Nós temos em nossos acampamentos o que a sociedade capitalista rejeitou. São sujeitos completamente fragmentados, violentados. Expulsar também é renegar esses sujeitos.

Então precisamos encontrar mediações que enfrentem de forma contundente essas violências e que envolvam várias ações – formação, ações pedagógicas, denuncias e, quando não tiver jeito, afastamento da organização. Mas a prática nos mostra que é possível sim transformar homens abusadores ou violentos por meio de processos coletivos.

Mais importante ainda é saber como vamos lidar com isso nas nossas instâncias do movimento. Tem que estar dentro da nossa disciplina militante revolucionária a não aceitação destes processos de violência.

Kelli Mafort:

No trabalho com o povo, a gente faz essa defesa sim, do trabalho com os homens. É claro que existem situações gravíssimas. Mas tem uma margem aí de violência psicológica, moral, que nós acreditamos que só a punição não resolve. A gente precisa construir um novo caminho, que é um caminho de reeducação do nosso povo mesmo.

A reeducação é possível. Sem dúvida, a gente vê resultados na prática. Tivemos situações concretas de companheiros que decidimos não expulsar da comunidade, ouvindo também a sua companheira, que foi agredida, e esse companheiro se manteve, e fez uma série de compromissos, em relação a nunca mais agredir. Para essa companheira, foi uma grande conquista. Ela disse: mais do que a terra que eu consegui, eu não apanhar mais é uma coisa de uma importância muito grande.

A classe média, diante do adoecimento mental em massa, consegue fazer terapia, procurar psicólogo e tal. Agora, qual é a terapia dos pobres? As pessoas se juntam. Ao contrário do que pensamos – que as pessoas são individualistas – as pessoas, para resolver seus problemas, se juntam. Nas esquerdas, temos uma enorme ausência de trabalho de base nas periferias, mas existe um trabalho de base sendo feito na ponta pelas igrejas, para alcançar os objetivos delas. Muitas vezes as mulheres ingressam nas igrejas porque é uma forma de participarem de processos de terapia coletiva e elas arrastarem seus companheiros para dentro da igreja para não apanharem mais, não sofrerem mais violências.

Há situações concretas, não só nos assentamentos, mas na base da sociedade que nós precisamos compreender melhor. Qual segredo do fenômeno pentecostal? Em tempos de barbárie, as pessoas buscam se ajudar. E buscam naquilo que está disponível: as igrejas têm sido uma porta pra isso. Infelizmente algumas delas manipuladas para outro sentido.

Como um homem faz o debate do feminismo sem parecer que ele não é machista?

Luiz Zarref

Primeiro precisamos ter clareza de que todos os homens são machistas. É uma questão estrutural, e não de opção. Está cravado na nossa formação desde pequenos, antes inclusive de nós formularmos ideias, o mundo que a gente veio, a nossa cognição está organizada para fazer isso. Então não adianta querer pagar de bonzão, porque você sempre vai reproduzir a opressão em alguma dimensão.

As companheiras são protagonistas deste processo. Nós temos que ter de forma permanente a crítica e autocrítica. É essa forma coletiva que nos coloca diante das nossas contradições. E precisamos ter uma postura militante de aceitar essas críticas.

Eu mesmo vivo isso constantemente. O primeiro impulso é negar: “não foi tão assim”, “eu já faço tanto esforço”, a tendência é negar ou abrandar. E nós temos que ter clareza que são justamente esses homens que estão no processo de construção do feminismo que devem ser mais cobrados. É o mesmo princípio do militante: o último a se servir, o que mais vai ser cobrado, que entrega sua vida também no processo de construção do feminismo. Não é uma posição de privilégio, e sim de mais cobrança e responsabilidade.

Nós constantemente somos traídos pelo cotidiano, então o processo coletivo organizado não é simples, porque não está dado o tempo todo. E também as companheiras não têm a obrigação de ser pedagógicas o tempo todo. Temos que encontrar essas formas de mediação.

Como a companheira Lurdes Vicente falou: “o feminismo é a elevação do nível de consciência”. É possível que os homens, a partir de todos esses processos de formação, reflexão e intervenção, que a gente eleve o nível de consciência, com constante crítica e autocrítica.