Entenda como a pandemia do COVID-19 tem afetado a Zâmbia

Há suspeitas que o governo não está divulgando todos os casos

Quase que a totalidade das famílias que vivem na Zâmbia dependem da economia informal. Foto: Brigada Internacionalista do MST Samora Machel

Da Página do MST*

Zâmbia, país localizado no Sul da África, até este domingo (12), chegou a registrar 39 casos de pessoas infectadas com o COVID-19. Desde o último dia 03 de abril não há novos casos.

O índice de infecção teve dois dias de pico. O dia 28 de março, onde foram registrados dez novos casos, e o dia 31, quando 19 novas pessoas testaram positivo. Duas pessoas morreram em decorrência do vírus e 25 foram diagnosticas como curadas, restando ainda 13 pessoas internadas com a doença. Dessas, 11 estão na capital Lusaka e duas estão em Copperbelt.

Especialistas apontam, que o número baixo de casos confirmados e mortes é reflexo da quarentena instaurada no país no dia anterior a confirmação do primeiro caso de COVID-19. Escolas e repartições públicas tiveram suas atividades suspensas ou reduzidas. Algumas lojas, bares e restaurante fecharam e, em seguida, alguns voos foram cancelados.

O Partido Socialista da Zâmbia também foi às redes sociais e a imprensa reforçar as orientações do governo e cancelou atividades e viagens de seus dirigentes.

Essas medidas contribuíram para uma situação aparentemente controlada. E já há notícias circulando que a quarentena deve ser suspensa nas próximas semanas.

Porém, o que pode reforçar a suspeita de sub-dimensionamento dos dados é que no mesmo período o número de mortos diagnosticados com AIDS, tuberculose e gripe aumentaram. Ou seja, é possível que a baixa imunidade dos soropositivos tenha favorecido a morte pelo coronavírus e que essa gripe não seja gripe de fato, questionando os números apresentados pelo governo.

Há suspeitas, por exemplo, que o governo não tem kits suficientes para testes e que não estão divulgando todos os casos.

Fatores socioeconômicos

Atualmente, a Zâmbia possui mais de 17 milhões de habitantes. 44% dessa população vive concentrada em poucas áreas urbanas. De acordo com os números da Organização das Nações Unidas (ONU), só em Lusaka vivem 1.747.152 milhões de pessoas.

Nessas poucas áreas urbanas, o acesso à água é precário e o saneamento básico é praticamente inexistente. Quase a totalidade dessas famílias dependem da economia informal para ter condições de comprar seus alimentos. Nesse contexto, a quarentena forçada e militarizada, somada a falta de uma política de distribuição de alimento tende a piorar a situação da população ou inviabilizar a quarentena.

Em outras epidemias, como a cólera que aconteceu no início de 2018, o governo colocou o exército para conter os ambulantes, levando a população a fazer uma série de protestos que acarretaram em muita violência policial.

A pobreza e a falta de acesso à comida deixa a população ainda mais vulnerável. Segundo o Banco Mundial, a Zâmbia possui um índice muito alto de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Em 2015, este índice chegava a 54,4% da população, colocando o país entre os 12 piores do mundo.

Dados sobre a saúde também impressionam. A expectativa de vida das pessoas é de 59 anos. A taxa de mortalidade infantil é de 43,30 para cada mil nascimentos e a porcentagem de infectados por HIV é de 12,40% das pessoas entre 15 e 49 anos. Soma-se a isso a precariedade e baixa disponibilidade do serviço de saúde pública.

Camponeses

Os camponeses constituem 60% da população e vivem uma situação contraditória. Por um lado estão em melhor situação devido o isolamento natural e a possibilidade de produção do próprio alimento. Já por outro lado, os serviços de saúde são praticamente inexistentes no campo. Atualmente, os camponeses estão em contato direto com atravessadores e comerciantes.

Portanto, além de atenção para definir a melhor gestão da quarentena, o governo precisa adotar políticas de proteção das famílias pobres do país. Política de compras publica da produção dos camponeses, com os devidos cuidados de proteção dos agricultores, e a distribuição de alimentos para as famílias de baixa renda residentes nas periferias das cidades tendem a ser mais eficazes que colocar militares nas ruas. Assim como a instalação e estruturação de unidades de saúde no campo prontas para a realização de exames e tratamento da doença, a distribuição de equipamentos de proteção e de alimentação complementar para os camponeses que necessitarem.

*Com informações da Brigada Internacionalista do MST Samora Machel
**Editado por Wesley Lima