Para não esquecer: 23 de Julho – Dia da Luta Camponesa do Haiti

Brigada Jean Jaques Dessalines, em conjunto com o movimento Tèt Kole Ti Peyizan, constrói o “Memorial 23 de Julho”

Foto: Arquivo Brigada Dessalines

Por Brigada Dessalines
Da Página do MST

Dito sem meias-palavras, um povo de negros, escravizados, de origem africana e que conseguiu uma revolução vitoriosa através da qual, em vez de esperar a eliminação gradual da escravidão, ele preferivelmente a aboliu brutalmente, esse povo sempre será tratado de forma suspeita num mundo governado pelo pensamento moderno/colonial.”

Franck Seguy

Observando a história da revolução do Haiti, um período de construção de um Estado justo e livre iniciada em 1791 chegando até 1825, passando esse período, as condições de vida da população Haitiana sempre foram de restrições mediadas com total violência. Não houve e não há, em grande parte da história dessa terra invadida pelos europeus/brancos/escravistas, um só momento em que a república negra do Haiti, tivesse ou tenha domínio de seu território, passa-se no Haiti, um longuíssimo processo de colonização, atualmente sob o comando de potências euros-estadounidense.

As etapas da história do povo Haitiano são forjadas em lutas e resistências, desde o grande momento da revolução comandada por Jean Jaques Dessalines, quando em 1 de janeiro de 1804, após derrotar o exército Francês, era declarado a independência da primeira república negra. Forjando uma resistência nunca antes vista no mundo, de povos escravizados à povos conquistadores de sua liberdade.

Em razão desta demonstração, de um povo trazido como escravo, de diferentes nações da África, sendo vitoriosos, derrotando a nação representante da “modernidade européia”, devido a isso, todas às outras nações do mundo voltaram-se contra o Haiti, contra seu povo de fala crioula e voodouista. Não foi permitido ao Haiti a construção de um Estado justo e livre, diga-se, a constituição do Haiti à época da revolução estabelecia que “nenhum branco, seja qual fosse sua nacionalidade, pisará este território com o título de amo ou de proprietário, nem poderá adquirir propriedade alguma”.

Passando por mais uma etapa da história do Haiti, há a invasão cometida pelos os Estados Unidos no ano 1915 durando até o ano de 1934. Entre as intenções dos EEUU’s, estava a retirada do artigo constitucional que proibia o estranjeiro(branco) de possuír terras haitianas. A partir desse ponto da história, acentua-se a presença político/militar dos EEUU’s, financiando ditaduras e mortes.

Em 23 de julho de 1987, na cidade de Janrabél, com a cumplicidade da embaixada Estados Unidos, uma parte da Igreja Católica, proprietários de terras e o exército nacional da então ditadura de “Baby Doc” Duvallier, cometeu um dos maiores massacres camponeses da América Latina. 139 mortos entre homens, mulheres e crianças, que estavam reivindicando melhores condições de vida e trabalho, acesso à água e à terra.

Passaram-se 33 anos, desde então, e prevalece a injustiça dentro e fora do Haiti, como que se às injustiças ocorridas no país, não merecessem serem vistas e combatidas por nenhuma outra nação do mundo.

O massacre de Janrabél superou as barreiras de silêncio e impunidade que foram colocadas na época e se tornaram hoje um símbolo das lutas camponesas no país. O pedido de justiça e reparação para os parentes das vítimas e as reivindicações históricas dos camponeses permanece em vigor, e as cumplicidades dos poderosos que continuam a fugir da justiça são denunciadas.

Haiti (terras de montanhas), nome em respeito aos povos originários da ilha, sendo assim, uma superação sobre os colonizadores, a partir desse momento a referência se tornava a resistência e a luta dos povos contra o europeu/branco/escravista. Lutas e resistências no sentido literal, descartado por completo o sentido abstrato, no Haiti tais sentidos são vividos no cotidiano entre as mulheres trabalhadoras dos mache (feiras), nos sempre lotados tap tap (transporte público), do acelerado vai e vem de motos, da campesina vida que desperta na madrugada para o trabalho. Está no povo do Haiti às resistências e as lutas.

Nas terras do Haiti a batalha é por dignidade, por soberania, por comida, por liberdade. Nas terras do Haiti são cultivadas resistências que brotam lutas populares, que fazem da terra e de seu povo, um símbolo feito um grande mar infinito. Embora, em toda sua história, haja registros de tentativas de invasão de suas terras e de domínio de seu povo, e sempre, segue dessa forma nos dias atuais, a terra é defendida com o mesmo povo de sempre.

Nesta terra há uma luta e resistência, mesmo que os anos passem, a memória se mantém viva na busca incansável pela liberdade e igualdade para todo o povo haitiano.

*Editado por Fernanda Alcântara