Metodologia “De Camponesa a Camponês à Camponesa a Camponês” e a territorialização da agroecologia

Processo de formação técnica e política amplia a produção de alimentos saudáveis
Produção de macaxeira após aplicação da metodologia “De Camponesa a Camponês à Camponesa a Camponês”.
Foto: Divulgação MST

Por Peter Rosset* e Lia Pinheiro Barbosa**
Da Página do MST

A Metodologia “De Camponês a Camponês” (CaC) é uma metodologia de processo social para a transição agroecológica e a territorialização da agroecologia, desenvolvida originalmente na Ásia, na década de 1920. Na América Latina foi difundida por indígenas camponeses da Guatemala, em 1970. Entre as décadas de 1970 e 1990, a Metodologia CaC se expandiu de forma exitosa nas zonas rurais de diferentes países da América Central, principalmente na Nicarágua e em Honduras, adentrando também outros países, como o México e Cuba. Desde sua origem, a Metodologia CaC consiste em uma reação ao modelo convencional de assistência técnica, em que o técnico é o sujeito ativo do processo e as organizações camponesas são consideradas apenas receptoras das instruções técnicas para manter um determinado padrão da produção agropecuária.

Desse modo, a metodologia CaC nasce como uma reação ao modelo convencional de assistência técnica. Nos métodos verticais da extensão agrícola convencional, seja nos serviços públicos, nas cooperativas, e também em muitos projetos, o técnico é o sujeito ativo, o “sabichão” do processo, isto é, aquele que detém o reconhecimento do saber considerado legítimo em relação à produção. Este método técnico-centrista não dialoga de forma satisfatória com uma filosofia política e de organização social que busca pôr a família camponesa como um sujeito central na transformação de sua realidade e de seu próprio destino. Além disso, tem limitações, no sentido de promover o enfoque agroecológico, pois este depende da aplicação de princípios – e não de receitas –, segundo a realidade local de cada estabelecimento rural camponês e de cada cooperativa. Em outros termos, uma abordagem agroecológica exige criatividade, conhecimento local, inovação e inteligência camponesa, muitas vezes não reconhecidas e valorizadas pela assistência técnica.

No modelo de assistência técnica, a família camponesa assume um papel passivo. Quando ocorre um problema, esperam o técnico chegar de fora para resolvê-lo. Eles podem esperar por um longo período, sem tomar a iniciativa de buscar soluções. Estes métodos verticais também se autolimitam, sobretudo por alguns fatores objetivos, por exemplo, número limitado de técnicos, o que afeta a quantidade de famílias que cada técnico pode atender, ou ainda o orçamento, por vezes, insuficiente para garantir uma ampliação da assistência técnica. Nesse sentido, o CaC nasce como uma crítica à concepção tecnicista de produção agropecuária, ao tempo que se propõe como uma metodologia horizontal libertadora, dinâmica e criativa, que permita a plena participação coletiva, em que as comunidades camponesas assumam o controle de seus processos produtivos como sujeitos partícipes, em diálogo com um conjunto de saberes de vida e de luta herdados historicamente.

O momento pedagógico central em um processo CaC ocorre quando um camponês ou camponesa com um problema produtivo (por exemplo, um solo infértil ou um problema de praga no plantio) visita o roçado ou o quintal produtivo de outro camponês ou camponesa que já implementou com êxito uma solução agroecológica para o mesmo problema. A visita constitui a mediação pedagógica de saberes camponeses e camponesas na resolução de problemas relacionados à produção agropecuária em perspectiva agroecológica. A aprendizagem é horizontal, de camponês a camponês ou de camponesa a camponesa. A base é o diálogo de saberes entre camponeses, e entre camponeses e técnicos-facilitadores de processos.

Metodologia é internacionalista

Em 1997, a Metodologia CaC chegou à Cuba, a partir da colaboração da organização camponesa Unión Nacional de Agricultores y Ganaderos de Nicarágua (UNAG). Nesse país caribenho assume outra dimensão, ao tornar-se o Movimento Agroecológico de Camponês a Camponês (MACAC), graças ao estímulo e à ação política da Associação Nacional de Agricultores Pequenos (ANAP), principal organização camponesa do país. Desde então, a ANAP aperfeiçoou a metodologia e mobilizou centenas de famílias camponesas cubanas em escala nacional, impulsionando o MACAC e tornando-se uma referência na transição agroecológica e na territorialização da agroecologia não só em Cuba, mas em toda América Latina e no Caribe. Importante destacar que a ANAP é uma organização membro e faz parte da Coordenação Global da Via Campesina Internacional (LVC).

Foto: Divulgação MST

O vínculo com a LVC responde à estratégia global do campesinato no enfrentamento ao projeto territorial do capital no campo e na disputa hegemônica de uma concepção de território compreendido como espaço de reprodução da vida, em que a produção de alimentos saudáveis pela agricultura familiar camponesa, bem como a soberania alimentar são basilares na apreensão política da “terra para quem nela trabalha”. Nesse sentido, no âmbito das organizações da LVC e como parte constituinte da luta pela consolidação da Reforma Agrária Popular, a agroecologia emerge como princípio e projeto político, em que o impulso do escalamento, massificação ou territorialização da agroecologia em territórios camponeses é o caminho de defesa, resistência ativa e permanência no campo. Além disso, de transformação das relações sociais e com a natureza, em uma perspectiva camponesa e popular.

Um processo de metodologia CaC tem de ser bem estruturado, planejado, com processos de formação dos sujeitos-chave envolvidos. O caso mais exitoso de implementação da Metodologia CaC é o da ANAP. Neste caso, é importante destacar o papel exercício pela Escola Nacional Niceto Pérez, da ANAP, especialmente na promoção de processos permanentes de formação na Metodologia CaC junto às organizações da Via Campesina Internacional, com o intercâmbio de experiências junto às cooperativas e famílias camponesas partícipes do MACAC. Os sujeitos do MACAC são: Camponeses e Camponesas; Promotor(a); Facilitador(a); Coordenador(a) e Aliados. A Metodologia CaC incorpora elementos pedagógicos e ferramentas da Educação Popular, com destaque para as seguintes atividades: a) Assembleia de Associados; b) Oficinas; c) Diagnóstico Rápido Participativo (DRP); d) Visitas; e) Intercâmbios e f) Encontros. A partir da metodologia são elaborados materiais didáticos e audiovisuais, como as cartilhas da Metodologia CaC e o curso metodológico virtual “Escuela Campesina Multimedia: una herramienta audiovisual para difundir la agroecologia”, plataforma digital em que se encontra: 1. Vídeo-curso Metodologia Camponês a Camponês; 2. Vídeos sobre a agricultura camponesa agroecológica; 3. Vídeos sobre a agricultura urbana e 4. Bibliografia sobre agroecologia e o MACAC.

Em Cuba, os promotores são mestres camponeses que já utilizam técnicas agroecológicas com êxito, que recebem visitas de outros camponeses e camponesas nos seus roçados, sendo estes considerados como uma sala de aula para o ensino-aprendizagem das soluções agroecológicas aos problemas de produção. Os facilitadores são pessoas que têm alguma formação técnica, que trabalham em âmbito local, e identificam os camponeses e camponesas que são potenciais promotores, os preparam e organizam o processo de visitas de intercâmbio. Os coordenadores também têm formação técnica, administram e coordenam o processo de CaC em escala maior. Os promotores e facilitadores trabalham, também, com as escolas do campo locais. Organizam “círculos de interesse” para crianças e jovens sobre a agroecologia, e montam salas de aula auxiliares nas casas de famílias camponesas agroecológicas (promotores).

Com a utilização da metodologia de CaC de forma muito organizada, sistemática e intencionada, com alta organicidade e uma escola camponesa para formar promotores, facilitadores e coordenadores, a ANAP conseguiu, em 15 anos, que a metade da população camponesa de todo o país cubano se tornasse agroecológica, e com as maiores taxas de produtividade, algo que eles nunca teriam conseguido com seu modelo anterior de assistência técnica.

Com base no exposto, argumentamos que há uma dimensão pedagógica na Metodologia CaC, uma vez que nesse processo de escalonamento ou territorialização da agroecologia, além da formação teórico-política, as organizações têm fomentado a elaboração e implementação de metodologias de socialização horizontal de conhecimento para o fortalecimento de processos territoriais de agroecologia. Entre os princípios desenvolvidos pelo MACAC para a territorialização da agroecologia, destacam-se: 1. Começar devagar e pequeno; 2. Limitar a introdução de tecnologia; 3. Alcançar resultado rápido e visível; 4. Experimentar em pequena escala; 5. Desenvolver um efeito multiplicador. Ao contrário de uma lógica de produção em larga escala e de monocultivo, tais princípios visam fortalecer processos duradouros, de forma diversificada, orgânica, em intrínseca relação com a dimensão comunitária das comunidades e de seus processos sociais e políticos. A Metodologia CaC incorpora elementos pedagógicos e ferramentas da Educação Popular, com destaque para as seguintes atividades: a) Assembleia de Associados; b) Oficinas; c) Diagnóstico Rápido Participativo (DRP); d) Visitas; e) Intercâmbios e f) Encontros.

Metodologia é utilizada no Ceará

Em 2018, deu-se início, no Centro de Formação Frei Humberto, o “Seminário sobre a Metodologia Camponês a Camponês para levar a Agroecologia a Escala Territorial”, e a “Oficina Intensiva de Planejamento do processo piloto de Camponês a Camponês na região do Assentamento Santana”, no município de Monsenhor Tabosa, no Ceará. Com a presença da ANAP, principal organização camponesa de Cuba e impulsionadora da Metodologia CaC na região latino-americana e caribenha. Esse foi o passo inicial para a implementação da Metodologia CaC no assentamento Santana.

Metodologia sendo aplicada. Foto: Divulgação MST

O processo ocorreu de forma dinâmica, com a participação da Via Campesina, da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e, sobretudo, com a incorporação e participação das famílias assentadas, da assembleia do assentamento, do Setor de Educação e do Setor Produção, da Brigada Dom Fragoso do MST, além de educadores e educandos da Escola de Ensino Médio do Campo Florestan Fernandes, uma escola do campo localizada no assentamento. Além disso, ao incorporar três assentamentos, a saber, assentamento Santana, assentamento Orange e assentamento Bargado, e a Escola do Campo Florestan Fernandes, totalizam-se 327 famílias participantes da Metodologia CaC. Ao refletir sobre a experiência em curso do processo de Camponês a Camponês no Assentamento Santana e região é nítido o papel dessa metodologia para a massificação da agroecologia em escala territorial. Inclusive, a reflexão coletiva em torno dessa experiência nos conduziu à mudança na denominação dessa metodologia, agora denominada “De Camponesa a Camponês à Camponesa a Camponês”, garantindo o equilíbrio participativo de mulheres e homens do campo.

Após dois anos que iniciamos o processo com a Metodologia, o MST no estado do Ceará inicia uma nova etapa na territorialização da agroecologia, incorporando outras quatro regiões do estado: Metropolitana, Jaguariri, Litoral, Sertão e Região dos Inhamúns, envolvendo as famílias assentadas, as cooperativas e dez escolas de ensino médio do campo em áreas de assentamentos rurais de reforma agrária do MST. Entre os meses de novembro e dezembro de 2020, realizamos um ciclo interno de formação, no Seminário de Agroecologia e Metodologia “Camponesa a Camponês à Camponesa a Camponês” nos assentamentos de reforma agrária popular do MST-Ceará, com três principais objetivos: a) estudar a trajetória e os processos da Metodologia CaC; b) promover espaços de diálogo sobre a construção de processos agroecológicos nos acampamentos e assentamentos onde estão as escolas do campo e as agroindústrias do MST Ceará e c) impulsionar a formação das mulheres camponesas nos processos de territorialização da agroecologia, dando visibilidade aos seus saberes e suas experiências.

Embora a agroecologia não se baseie em receitas que possam ser cegamente copiadas e transferidas de uma realidade para outra, o conjunto de elementos presentes na Metodologia “Camponesa a Camponês à Camponesa a Camponês”, associados à participação ativa das famílias camponesas, a uma pedagogia horizontal, um desenho intencionado e organicidade, oferecem importantes princípios para processos nascentes em outros lugares. E, em particular, para pensar o papel das escolas camponesas e das escolas do campo na territorialização da agroecologia, uma vez que as escolas do campo nos assentamentos e comunidades poderiam assumir a função de facilitação territorial.

*Peter é integrante da Via Campesina Internacional, Professor do El Colegio de la Frontera Sur (ECOSUR) e Pesquisador Visitante da UEC
**Lia faz parte do Coletivo Coordenação das ações com a Metodologia CaC – MST-Ce, Professora da Universidade Estadual do Ceará (UECE)

***Editado por Wesley Lima