Resistência

No Rio de Janeiro, Acampamento Cícero Guedes completa um mês de resistência e organização

resultado da organização coletiva, mais de 300 famílias sonham com a conquista da terra.
Marcha das famílias acampadas dentro do Acampamento Cícero Guedes. Foto Clarice Lissovsky

Por Pablo Vergara e Camilla Shaw
Da Página do MST

Em uma quinta-feira, 24 de junho, centenas de famílias Sem Terras ocuparam a fazenda Cambahyba, formando o Acampamento Cícero Guedes, com um mês de resistência a ocupação já teve sua primeira grande vitória conseguindo efetivar a imissão de posse das terras da antiga Usina de Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, concedida pela Justiça Federal ao  INCRA.

O Acampamento Cícero Guedes é resultado da organização coletiva das famílias que se organizam em núcleos de bases e seus setores, com mais de 300 famílias que construíram seus barracos, uma cozinha coletiva que oferece quatro refeições diárias, com café da manhã, almoço, janta e lanches reforçados, uma farmácia coletiva garante proteção e cuidados a todas pessoas e assegura os protocolos necessários para a prevenção da transmissão do coronavírus promovendo o uso de máscaras e álcool em gel, também o setor de produção avança na implementação da horta coletiva com mudas de hortaliças agroecológicas e com um coletivo que trabalha todos os dias na sua manutenção e irrigação. A juventude do acampamento construiu uma quadra de futebol onde já teve o primeiro campeonato de futebol Cícero Guedes onde os jovens levantaram a taça!

Atividade cultural e Ato Politico – ecumênico no Acampamento Cícero Guedes. Foto Tarcísio Nascimento

Além de muito trabalho, o primeiro mês foi marcado por solidariedade e celebração das conquistas. No passado sábado 10 de julho, foi realizada a primeira atividade cultural do acampamento, iniciando com plantio da horta coletiva e ato político-ecumênico, com a presença de entidades religiosas de diversas religiões da região, atividade contou com uma marcha em fileira até os fornos da usina onde aconteceu o ato ecumênico em homenagem às vítimas de tortura e violência no campo e vítimas da ditadura militar, incinerados nos fornos da usina, relembrando também o assassinato covarde da Liderança Sem Terra Cícero Guedes, assassinado nas aproximações da usina em 2013. Diversas personalidades políticas também visitaram o acampamento como os deputados estaduais Flavio Serafini (PSOL/RJ) e Waldeck Carneiro (PT/RJ) e os vereadores Lindbergh Farias (PT/RJ) e Tarcísio Motta (PSOL/RJ).

O sonho no Acampamento Cícero Guedes é um sonho comum. São 300 famílias oriundas da luta pela terra e tem a convicção pela conquista do sua Terra, com o sonho de uma terra para produzir e plantar, sonho de um lar para ver a família crescer com saúde, segurança, nos 1300 hectares de terra que foram desapropriadas e hoje precisa da efetivação do projeto de assentamento, elaborado pelo Incra. Até aqui, chegaram no acampamento famílias que já passaram por diversos despejos violentos ao longo de 21 anos de luta pela terra na região de Campos dos Goytacazes, famílias de acampamentos que foram criminalizados e inclusive destruídos com retroescavadeira, arrasando com plantações, moradias de alvenaria e sonhos da terra para se viver, famílias que passaram anos embaixo da lona preta em acampamentos como: Mário Lagos, Oziel Alves, Madre Cristina, 17 de Abril e Luíz Maranhão, essa é a história cruel de violência contra o povo Sem Terra, de despejo e de uma ausência de política de reforma agrária. Foram exatamente 21 anos para a justiça decretar a imissão de posse de três fazendas, Saquarema, Flora e Cambahyba. As famílias sabem do seu direito e exigem que sejam assentadas já, pois só a luta popular e organização possibilitam a Reforma Agrária.Conheça mais sobre o Acampamento Cícero Guedes.

Farmácia Popular

Farmácia Popular do Acampamento Cícero Guedes, que atende as mais de 300 famílias acampadas. Foto Stefane Girassol

Hoje os acampados contam com uma Farmácia Popular, a saúde é uns dos principais eixos na organização do acampamento, desde o dia da ocupação foi designada uma equipe para cuidar dos protocolos de segurança em combate ao Coronavírus e a farmácia além de distribuir máscaras em reuniões e assembleias, dispõe de medicamentos e cuidados para ferimentos e primeiros socorros.

Horta Coletiva e bosque Marielle Franco

Mudas de árvores distribuídas e plantadas no Bosque Marielle Franco. Foto: Pablo Vergara

O acampamento já conta com uma área preparada e cultivável de 1ha com projeção de expansão, foram 2500 mudas de hortaliças plantadas e 500 mudas de árvores frutíferas distribuídas e plantadas no Bosque Marielle Franco, a produção avança na implementação de um sistema de irrigação automática de “bailarina” e está em estruturação um viveiro para produção de novas mudas. Para Adriano Gomes Alves coordenador da Horta Coletiva e do Núcleo de base 14 “Nós estamos plantando alface, alface roxa, cebolinha, rabanetes, milho, tudo consorciado e de forma orgânica, também melancia, aipim e alguns pés de frutas” relata o agricultor.

Escola do Setor de Educação 

Sem Terrinhas do Acampamento Cícero Guedes em atividade cultural. Foto Clarice Lissovsky

Está sendo organizando pelo acampamento a construção de um grande barracão da educação, a estrutura oferecerá espaço para cursos de formação e de educação do campo para as crianças Sem Terras. Estão sendo recebidas doações de materiais de construção para levantar o barracão da escola do acampamento e também depósitos da conta Pix: Sjosecarlos033@gmail.com. Está programado um mutirão coletivo para a marcar o início da construção do barracão para este sábado 1/8 seguido com uma plenária da Juventude.

Confira mais imagens do Acampamento Cícero Guedes:

*Editado por: Nieves Rodrigues