Palestina

Ghassan Kanafani e o MST

50 anos do assassinato de Ghassan Kanafani, escritor, militante marxista palestino e um dos fundadores da Frente Popular para a Libertação da Palestina
Ghassan Kanafani. Foto: Reprodução

Por Brigada Internacionalista Ghassan Kanafani
Da Página do MST

“Convidamos as crianças, pra pintar no muro da desigualdade.
É o Sem Terrinha, cantando e ocupando com a sua ginga.
Reforma Agrária, justiça e liberdade, uma canção de roda.
Palestina livre, um sonho que também é brasileiro.

Oh, Palestina!

Menino livre, solta pipa e joga bola.
Nossa ciranda, convida tuas crianças pra dançar na roda.
E de mãos dadas, sonhando a liberdade a ser conquistada

Oh Palestina!”

(Música das crianças Sem Terrinha do Brasil às crianças palestinas)

Quando em 2011, o MST decidiu enviar um grupo de militantes para participar da Campanha da Colheita da Azeitona na Palestina, já tínhamos uma forte relação com a luta do Povo Palestino e com várias organizações da esquerda Palestina.

Queremos aqui lembrar de um momento especialmente místico para o nosso Movimento e que continua na memória e nos corações de todos/as os/as Sem Terra:

Há 20 anos, em 2002, o dirigente do MST, Mario Liu, esteve em Ramallah junto com outros membros/as da Via Campesina, durante os bombardeios israelenses à Cisjordânia.

Mario e a delegação da Via Campesina estavam na sede da Autoridade Palestina, junto com Yasser Arafat e outras lideranças palestinas. A sede foi atacada e sitiada pelo exército de Israel por 22 dias. Água e luz foram cortadas. A entrada de comida foi proibida.

Durante esse período dividiram a mesma pouca comida e muita revolta, empunhando a bandeira do MST lado a lado à bandeira Palestina, representando a solidariedade e o apoio de cada Sem Terra à causa Palestina.

Nesses 20 anos que separam esse momento histórico, que marca profundamente a cultura internacionalista do MST, fortalecemos nossos laços de solidariedade e irmandade com o povo palestino.

Nossa identidade com a luta e a resistência palestina vem de nossos objetivos comuns: a luta pela terra, contra todo o tipo de colonialismo e imperialismo e por transformações sociais. Os mais de 70 anos de resistência palestina são uma grande inspiração para o MST e para todos os povos em luta do mundo.

Essa identidade está presente nas várias articulações nacionais e internacionais em solidariedade à Palestina das quais o MST faz parte. Está presente na nossa estreita relação com a UAWC – União dos Comitês Agrícolas da Palestina, uma das principais organizações articuladoras da Via Campesina na região do Magreb e do mundo árabe ou na experiência dos vários militantes e dirigentes do MST que foram à Palestina e puderam conviver pessoalmente com a luta popular do povo palestino contra a ocupação israelense.

Mas está presente também em cada assentamento e acampamento do MST. Em cada bosque plantado em nossas áreas em homenagem ao Dia da Terra Palestina, em cada bandeira palestina pendurada ou hasteada em nossos Centros de Formação, encontros, cursos, lutas etc. Está presente nas nossas crianças, que cantam que a Palestina Livre também é um sonho brasileiro, a ser conquistado de mãos dadas.

Mas voltando à nossa decisão de 2011. Definimos levar nossa contribuição para a Campanha de Colheita de Azeitonas, oferecer nossa militância – o maior patrimônio de nossa organização – para a luta do povo palestino e proteger, com nossos corpos, as oliveiras e os camponeses e camponesas palestinas contra os ataques do exército e dos colonos israelenses.

E como toda Brigada Internacionalista do MST, que são nomeadas em homenagem a processos de luta ou lutadoras/es locais, essa também precisava de um nome, de uma identidade. Mas ainda que tivéssemos essa forte relação com a luta palestina, conhecíamos muito pouco dos homens e mulheres que ofereceram sua vida a essa causa.

Foi então que, depois que alguém sugeriu o nome de Ghassan Kanafani, estudamos e conhecemos a história desse lutador e soubemos que realmente se identificava com a proposta da Brigada e do próprio MST.

E assim Kanafani entrou definitivamente na vida do MST.

Internacionalista convicto, como é nossa Brigada, Kanafani dizia que “a causa palestina não é uma causa apenas para os palestinos, mas para todos os revolucionários, […] como uma causa das massas exploradas e oprimidas da nossa época”, e sempre defendeu que “o problema da Palestina não poderia ser resolvido de forma isolada de toda a situação social e política do mundo árabe”.

Kanafani desempenhou um papel importante no aumento da consciência na luta anti-imperialista internacional: “o imperialismo colocou o seu corpo sobre o mundo, a cabeça na Ásia Oriental, o coração no Oriente Médio, as suas artérias alcançando a África e a América Latina. Onde quer que o atinja, prejudica-o, e serve à revolução mundial”.

Essa é a concepção de internacionalismo que o MST também defende! Como um princípio, um valor, mas também uma estratégia central na luta revolucionária!

Através de Kanafani conhecemos tantos outros e outras, mulheres e homens (in)comuns que defenderam sua terra e sua liberdade com uma dignidade e persistência inquebrantáveis!

Um deles é Abou Othman, o “barbeiro de Ramallah”. Em “Visão de Ramallah” (Cartas da Luta Palestina), Kanafani conta que “quando começou a última guerra da Palestina, [Abou Othman] vendeu tudo o que tinha para comprar armas, que distribuía entre os parentes, pedindo-lhes que cumprissem seu dever. A barbearia se transformou em depósito de armas e munições. Ele nunca pediu nada em troca desses sacrifícios”. Sua esposa e filha foram executadas na sua frente por soldados sionistas na tomada de Ramallah. Abou carregou sozinho os corpos para serem enterrados no cemitério da cidade, onde ele mesmo queria ser enterrado. Enterrou-os com um lençol branco, que pegou na sua barbearia.

Depois “entrou no escritório do comandante sionista para um interrogatório. Quando colocou os pés lá dentro, todos ouviram uma pavorosa explosão. O prédio inteiro desabou e o corpo de Abou Othman desapareceu entre os escombros. Mais tarde, minha mãe contou, enquanto caminhávamos pelas montanhas rumo à Jordânia, o que houve. Abou Othman, ao entrar na barbearia antes de enterrar sua mulher, não havia retornado somente com o lençol branco”.

Ghassan Kanafani foi assassinado pelo Mossad no dia 8 de julho de 1972, aos 36 anos. 36 anos! Uma vida curta que tanto viveu e produziu! Um jovem com experiência de sábio ancião. Um escritor-revolucionário e revolucionário-escritor. Um nacionalista-internacionalista.

Nenhum outro nome poderia honrar mais nossa Brigada Internacionalista do que o dele! E não há melhor forma de honrar seu legado do que seguir, incansavelmente, na luta anti-imperialista e revolucionária!

Obrigada Ghassan, por sua vida e por dar vida a Abou Othman e tantos homens e mulheres que empenham a luta cotidiana.

Brigada Internacionalista Ghassan Kanafani 

*Editado por Fernanda Alcântara