CPI do MST
Resistir ao ódio do agro e ataques ideológicos são desafios atuais para a Reforma Agrária
Na 4ª Feira Nacional da Reforma Agrária, MST e ABJD debateram o crescimento da violência no campo e instalação de CPI; Feira vai até final da tarde de hoje (14), no Parque Água Branca, em SP

Por Vanessa Gonzaga
Da Página do MST
Num contexto de retomada da democracia, os desafios para avançar na construção da Reforma Agrária Popular são diversos, mas um deles é urgente: a resolução dos conflitos no campo, que são uma realidade em 80.165.951 hectares de terra de todo o território nacional, de acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
A Ouvidora Agrária Nacional, Claudia Dadico ressalta que o aumento no número de conflitos tem relação direta com o crescimento nos crimes de ódio contra trabalhadores e trabalhadoras rurais organizados.
O ódio agora não é só direcionado contra o trabalhador, mas contra o trabalhador organizado. O trabalhador rural organizado passou a ser uma peça muito incômoda, que atrapalha esse projeto trazido pela extrema direita. Esse ódio é um projeto dessa nova ordem mundial do neoliberalismo”, explica a jurista.

Dadico, que também é membra da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), esteve na 4ª Feira Nacional da Reforma Agrária, que acontece até o final da tarde deste domingo (14), no Parque Água Branca, em São Paulo, onde participou do Seminário “Reforma Agrária, Conflitos e Desafios da Atualidade” e falou sobre a organização da extrema direita no Brasil para criminalizar os movimentos populares a partir de medidas no Congresso e no Judiciário.
A jurista ressalta que esse ódio se materializa também em ataques ideológicos, a exemplo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do MST, articulada por bolsonaristas e pela bancada ruralista na Câmara dos Deputados, que é a quinta tentativa de criminalização do movimento através de comissões parlamentares. “Não é uma CPI qualquer. Estão colocando como relator o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles (PL). Além disso, essa estratégia de criminalização via CPI acontece também nos estados. Nas assembleias legislativas estão propondo CPI’s estaduais”, alerta a ouvidora.

Dirigente do MST no estado do Pará, Ayala Ferreira também comentou no seminário como o movimento vem encarando a instalação da CPI. “As perguntas que deram razão para a leitura do requerimento feito pelo Arthur Lira (PP) são perguntas que não demandariam uma CPI. Saber qual é a finalidade do MST? Nós estamos há 40 anos dialogando com a sociedade brasileira do porquê nós existirmos e a feira é uma expressão concreta dessa razão. A CPI custa recursos e paralisa um Congresso que deveria estar cuidando de tantas outras pautas importantes para a sociedade brasileira”, afirma.
A análise da dirigente é de que a CPI é uma ferramenta para inviabilizar os crimes ligados ao agronegócio no país. “Nossa leitura sobre a CPI e todas essas ações organizadas é que é um processo para esconder os verdadeiros crimes do agronegócio e do latifúndio no campo. Fazer com que a sociedade fale sobre o MST, mas não fale do trabalho escravo, que tem sido um elemento presente no desmatamento, na grilagem, do uso intensivo de agrotóxicos, da fome. É um esforço de criar uma confusão para esconder seus verdadeiros crimes, que seriam sim pauta de uma CPI no Congresso”, explica Ayala.
Segundo ela o MST não tem o que temer com a CPI. “Nós não temos medo da CPI porque não temos medo do bom debate”, finaliza.
*Editado por Solange Engelmann