Desastre e destruição
Entenda a formação de um tornado e por que é tão difícil prever o fenômeno
Cientista explica que não há tecnologia capaz de prever um tornado, nem mesmo nos EUA, país com maior incidência

Por Clivia Mesquita
Do Brasil de Fato
Não era possível prever o tornado que atingiu a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, na última sexta-feira (7). É o que explica o cientista Marcelo Enrique Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O fenômeno teve como epicentro a cidade de Rio Bonito do Iguaçu e deixou seis mortos.
“Alguns tipos de evento climáticos, como frente frias, ciclones no Hemisfério Norte, furacões, enfim, isso tem tecnologia para saber a intensidade. No Brasil, a gente não deve nada para países mais desenvolvidos. Agora tecnologia para prever tornados não existe nem nos Estados Unidos”, explica.
Imagens de satélite ou radar não tem a resolução suficiente para distinguir um tornado, diz Seluchi. “Estamos falando de 200 metros, talvez no máximo, de largura, e de uma duração muito curta. É muito difícil de detectar”, aponta.
Segundo o metereologista, o que é possível de identificar com radares específicos são as supercélulas, ou seja, as nuvens que podem originar tornados. Ainda assim, não é possível prever o fenômeno com uma antecedência maior do que 1 hora.
“Nos Estados Unidos, que é o país que tem mais tornados no mundo, eles têm toda uma série de radares disseminados, dedicados para a detecção desse tipo de nuvem”, explica. Além dos tornados, a mesma nuvem pode causar outras condições severas.
“Você vai observando a velocidade de deslocamento, a direção, então consegue antecipar a chegada dela em um determinado ponto. Mesmo assim, não consegue prever se ela será ou não um tornado. Mas, mesmo não tendo tornado, essas nuvens supercélulas provocam granizo, vendaval, raios. Então, são muito severas”.
Impactos
Ainda contabilizando os estragos no acampamento Antônio Conrado, em Rio Bonito do Iguaçu, o agricultor Mário Ribeiro relatou momentos de terror durante o tornado. Ele tentou se proteger das pedras de gelo, mas o telhado da casa foi arrancado pelos ventos de 250km/h.
Em meio aos destroços, ele lamentou as perdas, mas agradeceu pela vida da família. “A gente ainda tem esperança, que Deus não deixou a gente morrer. Foi terrível! Quando vi já estava debaixo dos escombros. A gente agradece porque a gente está vivo, um pouco machucado, minha esposa se machucou, minha sogra se cortou bastante”, relatou.
O agricultor, que tinha planos de aumentar a casa e a plantação de milho, espera retomar a vida com esperança em dias melhores. “Estava construindo aqui, a minha esperança é que esse terreno a gente ia ser sempre dono. Agora não sei o que vai acontecer, se a gente vai continuar aqui, tomara Deus que sim. Ia chegar mais mudas, queria fazer um pomar grande, tinha mais de 50 pés de frutas, uva produzindo, coisa mais linda, e agora tem que começar tudo de novo”, lamenta.
Alertas
Ao Brasil de Fato, o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) afirmou que os primeiros alertas para ocorrência de tempestades e ventos fortes para o interior do Paraná foram emitidos na quarta-feira. Porém, não havia como prever a ocorrência de um tornado.
“Ao prever uma possibilidade de tempestade, principalmente quando há supercélulas envolvidas, que são esses sistemas que causam tornados, a gente sabe que se ocorrer um tornado, é bem provável que o vento vai superar tranquilamente os 80 km/h. Mas é difícil estabelecer exatamente a região. Dá para ter uma estimativa, mas a cidade é impossível”, explica o meteorologista Samuel Braun, do Simepar.
Braun indica que a condição climática nos próximos dias para a região atingida pelo tornado será de estabilidade, tempo aberto e temperaturas mais baixas. A chuva fraca deve voltar no meio da semana, com tardes mais quentes, sem tempestades severas.
Segundo o Simepar, o tornado da última semana foi o maior já observado no estado. Braun disse que, no Paraná, o evento não é tão raro e citou outros de menor intensidade, como em Santa Maria do Oeste em setembro; Marechal Cândido Rondon em 2005; e Nova Laranjeiras, em 1997.
Adaptação climática
Segundo o cientista da Cemaden, a explicação meteorológica para o tornado está relacionada a um ciclone extratropical que se formou no Sul do Brasil. Esse tipo de ciclone também é chamado de frontal. Nesse caso, a origem foi em uma frente fria na divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Uma série de nuvens de tempestade muito intensas, chamadas de “linha de instabilidade”, avançaram rapidamente sobre a frente fria, que se tornaram um sistema “autossustentado”. Uma dessas nuvens, uma supercélula, deu origem ao tornado, explica Seluchi.
“As pessoas que moram em lugares que tem alta frequência de tornados, já estão treinadas para identificar. Então, elas avisam, tem observadores voluntários que emitem avisos por rádio. As casas em áreas muito expostas a tornados já têm porões preparados, existe todo um protocolo”, observa.
Antes de atingir o Paraná, a linha de instabilidade pode ter provocado outros tornados de menor intensidade em Santa Catarina. E depois da tragédia na madrugada de sexta-feira (7), a instabilidade continuou avançando, causando ventos fortes em São Paulo e no Rio de Janeiro.
O cientista aponta que, além da dificuldade de prever e detectar esse fenômeno, os casos são raros. “Vamos ver com a questão das mudanças climáticas se essa frequência não se altera.”
*Editado por: Monyse Ravena



