Conquista da Terra

Beatriz Bandeira: o triunfo da resistência camponesa e a ofensiva pela vida no Tocantins

Publicação da Portaria pelo INCRA oficializa o assentamento de 88 famílias em Marianópolis, encerrando anos de violência e consolidando um cinturão de proteção agroecológica na APA Cantão

Famílias do acampamento Beatriz Bandeira comemora a portaria de criação do assentamento. Foto: Comunicação do MST no Tocantins

Por Nadson Ayres
Da Página do MST

O Diário Oficial da União publicou, nesta terça-feira, 3 de fevereiro de 2026, a Portaria nº 1.626, de 30 de janeiro de 2026, que marca um triunfo histórico para a Reforma Agrária Popular: a criação formal do Projeto de Assentamento (PA) Beatriz Bandeira. Localizado no município de Marianópolis, o território de 971,5820 hectares denominado Lote 24 do Loteamento Marianópolis Gleba 2 foi obtido por arrecadação e destina-se ao sustento de 88 famílias camponesas sob a gestão da Superintendência Regional de Tocantins (SR-26). A decisão, assinada pelo presidente do INCRA, César Fernando Schiavon Aldrighi, representa o desfecho de uma cronologia de resistência iniciada em outubro de 2023 contra violações sistemáticas de direitos humanos e a pressão predatória do agronegócio.

A trajetória até esta conquista foi forjada sob fogo e perseguição política em um cenário de avanço e destruição da Área de Preservação Ambiental (APA) Cantão. O acampamento nasceu às margens da rodovia TO-080, enfrentando imediatamente uma conjuntura de “tolerância zero” que resultou em militantes algemados e no incêndio criminoso de barracos. Diante da repressão estatal, a sobrevivência do grupo foi garantida pela solidariedade de classe e pelo apoio de entidades como o Centro de Direitos Humanos de Cristalândia, a Igreja Católica que publicaram notas de solidariedade e se mobilizaram em denúncias fundamentais. A resistência também contou com o apoio vital de famílias assentadas do PA Onalício Barros, em Caseara, reafirmando que a luta pela terra é um compromisso coletivo indissociável da proteção ambiental.

Os anos de espera foram marcados por privações severas, como a falta de água potável e o descaso governamental, culminando em novos picos de violência em 2025. Em abril daquele ano, o acampamento sofreu ataques coordenados entre forças de segurança e fazendeiros locais. Em agosto, após a ocupação do latifúndio que hoje se torna área oficial, um novo despejo violento lançou mulheres e crianças em espaços públicos, levando inclusive bebês detidos para a delegacia de Paraíso do Tocantins. Tais violações foram denunciadas ao Ministério Público e ao Governo Federal, evidenciando o conluio entre o poder econômico e o braço armado do Estado para impedir a democratização do acesso ao chão em uma região onde a biodiversidade do Cerrado é constantemente ameaçada por monoculturas.

Esta vitória é fruto direto da força coletiva e da organização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que manteve a clareza de que a luta é legítima e irredutível, não recuando um centímetro sequer diante das agressões sofridas. O compromisso inabalável com o cuidado da natureza e o amor à terra se materializa agora na promessa de retirar do solo o “pão da vida”, garantindo o sustento das famílias e levando comida de verdade, livre de veneno, para o povo da cidade. Como nas celebrações das crianças Sem Terrinha, onde defender a natureza é defender o próprio chão, o assentamento Beatriz Bandeira surge como um espaço de esperança e transformação social, assegurando que o direito à terra seja o alicerce para uma vida com dignidade e paz.

Foto: Comunicação do MST no Tocantins

Ana Lúcia, militante do MST que acompanhou toda a resistência, celebra a conquista. “Hoje é um dia de muita alegria e celebração pela terra que é de direito do nosso povo. Após mais de dois anos de perseguições, ameaças e descaso, vemos a felicidade no olhar de cada jovem, criança e idoso. Essa vitória prova que vale a pena resistir coletivamente. Nossa luta é legítima, inegociável e não recuamos diante das violações. Seguimos com o compromisso fiel de cuidar da natureza, democratizar o acesso à terra e produzir o alimento que dá vida, garantindo comida de verdade para quem está na cidade.”

Com a oficialização do projeto, o INCRA está autorizado a iniciar imediatamente a seleção das famílias beneficiárias pelo Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Situado estrategicamente entre municípios como Divinópolis do Tocantins e Caseara, o assentamento Beatriz Bandeira nasce como um “território vivo” e uma barreira contra o agronegócio devastador. Ao transformar anos de dor em soberania alimentar e práticas agroecológicas, a conquista em Marianópolis assegura que o sustento das 88 famílias e a preservação do Cerrado caminhem lado a lado, consolidando a Reforma Agrária Popular como pilar fundamental da justiça social.

Confira a Portaria:

*Editado por Fernanda Alcântara