Ataque químico

Famílias do MST denunciam intoxicação por agrotóxico após pulverização em área pública invadida por fazendeiro 

Caso ocorreu em Perobal, no Paraná, e foi denunciado a diversos órgãos públicos. Cerca de 20 pessoas apresentaram sintomas como irritação na garganta, tosse e dores de cabeça

Pulverização de agrotóxicos realizada em fazenda ao lado de acampamento do MST com 450 famílias, em Perobal. Fonte: Vídeo reprodução

Da Página do MST

As famílias Sem Terra, que vivem no acampamento Benedito Gomes denunciam um episódio de intoxicação por agrotóxicos após uma pulverização realizada por um fazendeiro, no município de Perobal (PR), próximo a Umuarama. O caso envolve a possível contaminação das famílias que vivem na área e levanta preocupações quanto aos riscos à saúde e ao meio ambiente.

A denúncia foi encaminhada a diversos órgãos, como Ministério da Saúde, Ministério Público, Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do estado, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) e Instituto Água e Terra (IAT). 

A aplicação do produto ocorreu no dia 28 de março de 2026, por volta das 18h, por um fazendeiro que ocupa irregularmente a área. O veneno atingiu as moradias das cerca de 430 famílias acampadas no local. A pulverização teria sido feita com equipamento acoplado a trator, com indícios de uso de herbicida, embora não tenha sido possível identificar com precisão a substância utilizada.

Testemunhas afirmam que a deriva do agrotóxico foi imediata, acompanhada de forte odor que se espalhou pelo local. Cerca de 20 pessoas apresentaram sintomas como irritação na garganta, tosse e dores de cabeça. Também há relatos de possível impacto sobre uma lavoura coletiva de feijão mantida pelas famílias.

A área corresponde à Fazenda Tiburi, um imóvel público alvo de disputa fundiária há cerca de duas décadas. Em decisão judicial recente, foi reconhecida a irregularidade da ocupação por fazendeiros, com determinação de desocupação e destinação da área para fins de Reforma Agrária. Apesar disso, segundo a denúncia, o atual ocupante estaria descumprindo as determinações legais, incluindo a proibição de novos plantios.

A denúncia também aponta para possíveis violações à legislação ambiental vigente, especialmente no que se refere às normas que regulam a aplicação de agrotóxicos em áreas próximas a núcleos populacionais. A regulamentação estabelece restrições quanto ao risco de deriva em direção a habitações, além de prever distâncias mínimas de segurança.

Diante dos fatos, os denunciantes solicitam a apuração imediata do caso, a realização de fiscalização no local para interromper eventuais contaminações e a responsabilização dos envolvidos. Os documentos protocolados incluem relatos técnicos e registros audiovisuais do momento da aplicação, reforçando a gravidade da situação.

Fazendeiro viola decisão judicial

Ao longo das últimas duas décadas, a Fazenda Tiburi tem sido palco de conflitos entre fazendeiros e famílias camponesas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O imóvel possui cerca de 215 hectares e pertence ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra-PR).

Desde o dia 16 de fevereiro deste ano, centenas de famílias Sem Terra ocupam a área com o objetivo de pressionar o Incra a destinar o imóvel para a Reforma Agrária, já que a terra vem sendo utilizada de forma irregular por fazendeiros há aproximadamente 20 anos.

O caso é objeto de uma Ação Civil Pública, ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2022, após a identificação de irregularidades na tentativa de transferência da terra pública para um suposto proprietário. Segundo o MPF, os requerentes não se enquadravam como agricultores familiares e não dependiam da área para subsistência. A investigação aponta que se tratava de um núcleo familiar de produtores de médio porte, com outras propriedades em Toledo (PR) e arrendamentos no Mato Grosso do Sul.

O Incra já havia notificado os ocupantes irregulares no início de fevereiro para deixarem a área no prazo de 30 dias. Foi autorizado apenas o direito à colheita da safra existente, predominantemente de soja. No entanto, segundo relatos, novos plantios estariam sendo realizados, agora com uso do agrotóxico como ameaça química às famílias acampadas. .

As famílias do acampamento Benedito Gomes estão no local há cerca de um ano, anteriormente ocupando uma área em Umuarama.

No Paraná, cerca de 5 mil famílias Sem Terra vivem atualmente em acampamentos, algumas há mais de 30 anos, aguardando acesso à terra e condições dignas de vida no campo.

Agrotóxicos como arma química 

Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida tem divulgado inúmeros casos de uso intencional e abusivo de agrotóxicos como ferramentas de violência e coerção contra comunidades rurais, quilombolas, indígenas, acampamentos e assentamentos no Brasil. Essa prática visa expulsar camponeses de seus territórios e envenenar modos de vida tradicionais. 

Para avançar na identificação e denúncia de todos os tipos de violação cometidas com o uso de agrotóxico, a Campanha e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima lançaram um canal específico para este tipo de denúncia, no final de março. 

A ferramenta de apoio a denúncias tem como objetivo fundamental qualificar as denúncias de intoxicação e contaminação e auxiliar no encaminhamento correto aos órgãos responsáveis pelo atendimento. Nesse sentido, se aponta a necessidade de o governo fortalecer o compromisso com políticas públicas que coloquem a vida acima do lucro. O caso ocorrido em Perobal também foi denunciado a este canal.