Jornada de Lutas
Nos 30 anos após Eldorado do Carajás, MST faz Jornada histórica pelas ruas do país em defesa da Reforma Agrária
Atos, marchas e ocupações de INCRA se multiplicam de Norte ao Sul do Brasil, na semana em que se completam três décadas do assassinato de 21 trabalhadores Sem Terra no Pará

Da Página do MST
A Jornada Nacional de Lutas em Defesa da Reforma Agrária de 2026 realizada pelo MST encerra-se neste 17 de abril, reafirmando a vitalidade da resistência camponesa três décadas após o Massacre de Eldorado do Carajás. Sob o impacto da memória dos 21 mártires mártires da luta pela terra, assassinados pela Polícia Militar no Pará, em 1996.
Ao longo de todo o mês de abril e com ações mais concentradas, a partir do último dia 13, o Movimento mobilizou cerca de 20 mil militantes em 17 estados e no Distrito Federal. O propósito central das ações foi denunciar a paralisia das políticas fundiárias e exigir que a democratização da terra seja assumida como prioridade pelo Estado brasileiro.
O panorama das mobilizações demonstrou um alcance nacional, com ocupações estratégicas de sedes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em estados como Alagoas, Paraíba, Piauí, Rio de Janeiro e Maranhão. No Tocantins, a ocupação da Fazenda Prata destacou-se pela denúncia de trabalho escravo, exigindo a expropriação da área conforme a Constituição Federal de 1988. Na Bahia, mais de 2 mil pessoas percorreram 120 quilômetros em uma marcha que ligou Feira de Santana a Salvador para pautar o calendário de execução das demandas das famílias Sem Terra junto ao governo estadual.
O fato do Movimento estar mobilizado até hoje, três décadas após a tragédia, marchando, ocupando terras improdutivas e se mobilizando pelos mártires da luta pela terra traduz o significado concreto de que a luta pela Reforma Agrária é tão necessária quanto no período do massacre“, afirma Ayala Ferreira, da direção nacional do Movimento.
No coração do conflito, o estado do Pará sediou o 20° Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra na Curva do S, local do massacre, reunindo jovens de diversas regiões para formação e arte. A retomada simbólica da marcha interrompida em 1996, com caminhada saindo de Curionópolis até a Curva do S; além de audiências para discutir a Reforma Agrária e mineração em Parauapebas, que reforçaram o tom de denúncia contra o modelo latifundiário e extrativista.
Também foram realizadas ações de solidariedade com doação de alimentos da agricultura familiar, em Mato Grosso, dialogando diretamente com as necessidades da população urbana, e plantio de mudas em pelo menos sete municípios.
A Jornada Nacional de Lutas de Abril também simboliza a abertura oficial das Jornadas Universitárias em Defesa da Reforma Agrária (JURAs), que levam o debate camponês para dezenas de instituições de ensino superior. Consolidada como um espaço de aliança entre o Movimento e a academia, a JURA promove seminários e vivências que conectam a produção científica às demandas reais do povo brasileiro. Ao pautar a agroecologia e a soberania alimentar no ambiente acadêmico, o projeto reafirma a função social da universidade pública e rompe com a hegemonia do agronegócio nos centros de pesquisa, fortalecendo a luta por justiça social no campo.
Por que continuamos a marchar?
A análise política da Jornada expõe dados alarmantes, uma vez que cerca de 145 mil famílias Sem Terra permanecem acampadas em todo o país, sendo que 100 mil delas estão organizadas nas fileiras do Movimento. A lentidão burocrática foi um alvo constante, como exemplificado na Paraíba, onde apenas oito vistorias de áreas realizadas em três anos, um ritmo insuficiente diante de 3 mil famílias que aguardam por terra. Para a direção nacional, a permanência da militância nas ruas comprova que as causas que levaram à tragédia de 1996 continuam sem uma resposta efetiva do poder público.
Fazemos do dia 17 de abril um dia que marca profundamente o que pode ser um movimento que hoje é referência para o mundo (…). Movimento que foi capaz de se reinventar e fazer dos processos longos de resistência e luta, construindo o que chamamos dessa longa marcha que foi interrompida por uns dias, mas que foi retomada com muita força”.
Ayala Ferreira.
Além da questão fundiária, o Movimento ampliou seu diálogo com a classe trabalhadora urbana ao participar de marchas em Brasília pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada de trabalho. Em Sergipe, a denúncia contra a privatização da água reafirmou que a luta pela Reforma Agrária está intrinsecamente ligada à defesa dos bens comuns. As frentes de negociação em Brasília, incluindo reuniões na Casa Civil e na Secretaria-Geral da República, buscaram destravar recursos para aquisição de terras para a criação de novos assentamentos, e investimentos em infraestrutura nos territórios da Reforma Agrária.
As perspectivas para o ano de 2026 apontam para a continuidade da agitação política até que medidas emergenciais de assentamento sejam concretizadas, principalmente em áreas de conflito. A proposta da Reforma Agrária Popular defendida pelo MST é um projeto essencial para o combate às desigualdades, a fome e para a preservação ambiental. O Movimento sinaliza que a “longa marcha” por justiça social, embora desafiada pelo agronegócio e pela mineração, foi retomada com força renovada.
Trinta anos depois da Curva do S, a memória dos mártires da luta pela terra de Abril permanece como o principal combustível das novas gerações de lutadores e lutadoras. A impunidade histórica, que ainda protege mandantes de assassinatos no campo, é enfrentada com a organização e a ocupação massiva das terras improdutivas, que não cumprem a função social de produzir alimentos para o povo. O balanço desta Jornada reafirma a convicção histórica de que a terra pertence a quem nela trabalha e vive, mantendo a Reforma Agrária como uma bandeira inegociável, na construção de um projeto popular para o Brasil.
Sobre as demandas junto ao Estado Brasileira e o projeto de país, Ayala finaliza lembrando que o Movimento demanda concretamente do governo federal a coragem necessária para retomar uma política de desenvolvimento em nosso país, “pautada na superação das desigualdades e no combate aos privilégios de uma elite usurpadora dos bens coletivos. No campo, esse modelo de desenvolvimento precisa garantir a democratização do acesso à terra (…) e a produção de alimentos, livre da especulação financeira e do agrotóxicos”.
Confira as atividades realizadas nas cinco regiões do país!
Amazônica
Pará
Este ano, o Pará representa o centro histórico da memória camponesa. Todas as atividades foram marcadas por memória, formação e mobilização de massa, com atividades concentradas entre os municípios de Curionópolis e Eldorado do Carajás, em torno dos 30 anos do Massacre de 17 de Abril. Entre as diversas atividades da programação, ganham destaque o 20º Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra, o ato religioso em Frei Henri, a retomada da marcha interrompida em 1996 e a atividade no Instituto Federal do Pará (IFPA), com João Pedro Stedile; além do lançamento da Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (JURA).
O VIII Ato Político Religioso no assentamento Frei Henri, realizado em 12 de abril, reuniu cerca de 1.500 militantes Sem Terra em Curionópolis, em homenagem a Frei Henri Burin des Roziers. A atividade reafirmou a dimensão de memória da Jornada, vinculando fé, denúncia do trabalho escravo e luta pela terra, em um território que desde 2018 recebe essa homenagem organizada pelo Movimento.
No IFPA de Parauapebas, em 15 de abril, João Pedro Stedile participou, de um debate sobre Reforma Agrária e Economia Mineral, abrindo um ciclo de debates que conectou terra, mineração e crise social. A agenda integrou as atividades da Jornada de Abril, mobilizando a sociedade e a militância Sem Terra da região.
O 20º Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra teve início, em 10 de abril e seguiu até o dia 17 na Curva do S, em Eldorado do Carajás, com participação de cerca de 500 jovens vindos do Pará, Maranhão, Tocantins e Roraima. A jornada da juventude combinou plenárias, assembleias, oficinas, música, arte, exposição fotográfica e mostra de cinema, reforçando a formação política e a organização da nova geração Sem Terra.
A marcha retomada em 13 de abril recuperou simbolicamente o percurso interrompido em 1996, sob o lema “A voz pela vida calará a ambição”, com saída de Curionópolis e chegada na Curva do S. Cerca de 3 mil militantes integraram essa mobilização, apresentada como continuação direta da marcha massacradas há 30 anos e como denúncia da demora da Reforma Agrária e violência contra os/as trabalhadores/as rurais na região.
Na manhã de 17 de abril, o ato político “Se calarmos, as pedras falarão” marcou o lançamento da JURA – Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária, associando o dia de memória do massacre ao debate de ideias nas universidades sobre a luta pela terra, com a presença de autoridades, conectando a luta camponesa à formação acadêmica e à defesa da Reforma Agrária Popular.
Maranhão

No município de Imperatriz, mais de 250 famílias ocuparam a sede regional do INCRA, no dia 15 de abril. A mobilização foca na pauta de negociações para a regularização de acampamentos históricos no estado e na exigência de investimentos para que as famílias assentadas possam escoar sua produção e ter acesso a serviços básicos. A ocupação em Imperatriz reforça a Jornada de Lutas no Maranhão, estado marcado por intensos conflitos agrários. O Movimento busca garantir que os compromissos assumidos pelo governo federal sejam cumpridos, assegurando a permanência das famílias na terra com segurança jurídica e apoio técnico.
Tocantins
Cerca de 70 famílias do acampamento Irmã Rita ocupam a Fazenda Prata, uma área de mais de 4 mil hectares de terras públicas da União explorada pela monocultura de eucalipto, no município de Darcinópolis. O Movimento exige a aplicação do Artigo 243 da Constituição Federal para a expropriação imediata da propriedade sem indenização, fundamentando-se no histórico de crimes trabalhistas no local, onde 102 pessoas foram resgatadas de condições análogas à escravidão em 2022. A ocupação denuncia o uso ilegal de solo público por empresas privadas e reivindica que o território seja destinado urgentemente para o assentamento das famílias, garantindo a função social da terra.
Já em São Sebastião do Tocantins, no extremo norte do estado, 38 famílias do acampamento Irmã Dorothy ocupam o Lote 15P do Loteamento Praia Chata, em 14 de abril. Embora a área já tenha sido declarada de interesse social pelo INCRA para a criação de um assentamento, o território permanecia sob cobiça do poder econômico local e servindo de estoque de terras para o agronegócio. A ação dos Sem Terra visa interromper o abandono das terras da União e forçar a execução efetiva da Reforma Agrária em uma região marcada pela pressão do latifúndio sobre o patrimônio público.

As famílias do acampamento Carlos Marighella ocuparam por 21 minutos a Rodovia TO-404, no município em Araguatins, na madrugada desta sexta-feira (17). Em um ato carregado de mística e simbolismo, cruzes e velas foram posicionadas na rodovia para honrar as vítimas e os 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás. Entre palavras de ordem e denúncias, a ação reafirmou a resistência do Bico do Papagaio na luta pela terra. Rememorar os mártires de Carajás é manter viva a esperança e a urgência da Reforma Agrária, transformando o luto histórico em mobilização popular permanente.
Já o acampamento Dina Guerrilheira, em Palmeirante, realizou uma vigília, nesta madrugada (17), em memória aos 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás. Cerca de 160 famílias marcharam com velas, cruzes, músicas e poesias para transformar o luto em um ato de mística e resistência. Como símbolo de vida e esperança, o acampamento realizou o plantio de 21 árvores, reafirmando que a luta pela terra permanece viva. O gesto concreto honra os que tombaram e fortalece a organização popular no Tocantins.

No assentamento Beatriz Bandeira, município de Marianópolis, o Movimento reúne cerca de 100 pessoas, incluindo os Sem Terrinha, para um ato com mística e plantio de mudas, neste 17 de abril, assim como no assentamento Padre Josimo, em Carrasco Bonito, onde foram plantadas 21 mudas; além do plantio de mais 90 mudas no acampamento Taboca, em Palmas. A atividade homenageia os mártires de Eldorado do Carajás, transformando a memória do massacre em ação prática de defesa da natureza e da Reforma Agrária. O gesto simboliza a continuidade da resistência camponesa no estado, integrando as novas gerações na construção de territórios livres de violência e ambientalmente sustentáveis.
Sul
Paraná
Cerca de 300 camponeses e camponesas ocuparam a sede do INCRA, em Curitiba, entre os dias 15 e 16 de abril. A mobilização se concentrou na organização de audiências de negociação para destravar pautas represadas no estado, buscando celeridade nos processos de obtenção de terras e melhorias na infraestrutura dos assentamentos paranaenses. A presença dos Sem Terra na capital paranaense integra um esforço coletivo para pressionar o órgão federal a cumprir cronogramas de vistorias e investimentos. O Movimento reforça que a negociação direta é fundamental para garantir o sustento das famílias que aguardam a regularização de áreas em conflito no estado.

Sudeste
São Paulo
No Pontal do Paranapanema, cerca de 200 militantes ocupam a Procuradoria do Estado, em Presidente Prudente, no dia 15 de abril. A ação denuncia a morosidade jurídica que trava a destinação de terras públicas para a Reforma Agrária, em uma região historicamente marcada pelo latifúndio e pela grilagem de áreas devolutas.

O ato na Procuradoria cobra do governo estadual celeridade na destinação de áreas para o assentamento de famílias acampadas. Os Sem Terra destacam que a justiça social no campo paulista depende da retomada de terras que já deveriam estar sob controle da Reforma Agrária, conforme decisões judiciais anteriores.
Rio de Janeiro

No Centro do Rio de Janeiro, mais de 150 pessoas marcharam até a sede do INCRA, no dia 15 de abril. A manifestação reivindica terra e dignidade para as 376 famílias do acampamento 15 de Abril, localizado em Campos dos Goytacazes. Os Sem Terra cobram a criação de novos assentamentos em áreas com potencial produtivo no norte fluminense.
A marcha evidencia a urgência da Reforma Agrária Popular no estado, onde a concentração de terras e o abandono de áreas rurais impedem o desenvolvimento de comunidades camponesas. O Movimento cobra a agilidade nos processos de desapropriação para que as famílias do acampamento 15 de Abril possam finalmente produzir alimentos para a população urbana e rural.
Minas Gerais
As ações mineiras combinam solidariedade e denúncia política em diversas regiões. Em Campo do Meio, o Movimento realizou doações de 100 cestas de produtos agroecológicos para famílias em situação de vulnerabilidade, enquanto em Governador Valadares, o plantio de mudas e místicas celebra a resistência dos trabalhadores no Centro de Formação Francisca Veras.
Em Felisburgo, o assentamento Terra Prometida recebe cerca de 400 pessoas para um ato político-cultural, neste sábado, 18 de abril. A atividade reafirma o compromisso com a Reforma Agrária e presta homenagem aos mártires da luta pela terra, consolidando a organização das famílias no Vale do Jequitinhonha e em outras regionais do estado.
Centro-Oeste
Mato Grosso
No município de Rondonópolis, a programação de luta inclui uma audiência pública na Câmara Municipal com o tema “30 Anos de Eldorado dos Carajás”, reunindo movimentos sociais e autoridades. A pauta central é a discussão da importância da Reforma Agrária frente ao avanço do agronegócio e a necessidade de políticas públicas para os assentamentos locais. No campo da solidariedade, os Sem Terra realizam doações de alimentos produzidos em áreas de assentamento na Companhia de Desenvolvimento de Rondonópolis (Coder) e na Cáritas Diocesana. As entregas visam fortalecer o diálogo com a classe trabalhadora urbana e demonstrar a viabilidade da produção camponesa no estado.
Distrito Federal
Na quinta-feira (16), o Plenário Ulysses Guimarães da Câmara dos Deputados, em Brasília, foi palco de uma Sessão Solene em memória dos mártires da luta pela terra. Durante a homenagem, parlamentares e representantes do governo federal discutiram o papel central da Reforma Agrária no combate às desigualdades históricas. A atividade buscou sensibilizar o Congresso sobre a necessidade de transformar a estrutura de poder que historicamente criminaliza os movimentos populares. O Movimento reafirmou seu compromisso em organizar os trabalhadores para fazer valer a função social da propriedade.
A agitação política na capital federal também contou com a Marcha da Classe Trabalhadora, que mobilizou 300 pessoas em articulação com pautas como o fim da escala 6×1. Além das ruas, uma comitiva de 20 dirigentes nacionais apresentou pautas de reivindicações na Casa Civil e na Secretaria-Geral da Presidência da República. O objetivo central da Jornada na capital brasileira é pressionar por investimentos públicos imediatos em órgãos como o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar do Brasil (MDA), o Ministério da Educação (MEC) e o INCRA, fundamentais para garantir educação e desenvolvimento social nos territórios de Reforma Agrária.
E na quarta-feira (15), a Comissão de Direitos Humanos da Câmara recebeu uma audiência pública para marcar os 30 anos do massacre de Eldorado do Carajás. O evento contou com a presença da coordenação do Movimento, autoridades federais e sobreviventes da tragédia ocorrida em 1996. Um momento de grande impacto político ocorreu quando o presidente do INCRA pediu desculpas oficiais aos Sem Terra e à sociedade pela violência estatal no campo. O debate enfatizou que a impunidade é um dos principais combustíveis para a continuidade dos conflitos agrários no Brasil.
Goiás
As mobilizações em solo goiano foram marcadas pelo simbolismo do plantio de árvores, no dia 17 de abril. No assentamento Dom Tomás Balduíno, localizado no município de Formosa, 21 mudas foram plantadas em homenagem aos mortos de Carajás, enquanto as regionais Che, Vale e Edson Pintor realizaram o repovoamento de bosques, reafirmando a defesa do Cerrado e da agroecologia.
Em Santa Helena de Goiás, a jornada é marcada pela repressão policial contra uma manifestação pacífica na manhã de 17 de abril. A Polícia Militar do Estado de Goiás efetuou a prisão de um militante do Movimento e do vereador Fabrício Rosa, que acompanhava o ato realizado na porta da Usina Santa Helena para prestar solidariedade aos trabalhadores. A ação truculenta ocorre no encerramento da atividade e é denunciada como abuso de autoridade pela Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAAP-GO), que acompanha os detidos na Delegacia de Polícia Civil do município.
A mobilização no sudoeste goiano exige a adjudicação das terras da usina, de propriedade do Grupo Naoum, considerado um dos dez maiores devedores de impostos federais do país, com débitos que superam R$ 1 bilhão. Desde 2016, os Sem Terra lutam para que essas áreas sejam destinadas à Reforma Agrária Popular, transformando o patrimônio de um grande devedor da União em assentamento para as famílias acampadas.

Nordeste
Bahia
O estado da Bahia protagoniza uma das maiores mobilizações da Jornada com a Marcha Estadual pela Reforma Agrária, que reúne mais de 2 mil pessoas. O grupo percorre um trajeto de 120 quilômetros entre Feira de Santana e Salvador ao longo de sete dias, pautando o governo estadual e federal por agilidade nos processos de assentamento e crédito agrícola.

No dia 16, um Encontro Interreligioso no acampamento da Marcha Estadual pela Reforma Agrária, reunindo lideranças de diferentes expressões de fé em um momento de partilha, reflexão e compromisso com a justiça social. A atividade contou com a presença do Pastor Afa Neto, Ogã Elias Conceição, Mãe Jacira de Iansã, Pastor Kleber Lucas, Padre Lázaro Muniz e Frei Lorrane, fortalecendo o diálogo interreligioso e a construção coletiva na luta do povo.
Além da marcha, o Movimento promove o plantio de árvores no Baixo Sul do estado, no assentamento Joarez Araújo, em Itagi. A atividade faz parte da Jornada Nacional de Abril e do Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis, integrando a recuperação ambiental com a produção necessária para abastecer as feiras populares da região.
E no dia 17 de abril, a Escola Popular de Agroecologia e Agrofloresta Egídio Brunetto, localizada no assentamento Jacy Rocha, município de Prado, reuniu todos os setores para um momento de formação, memória e debate sobre o Massacre de Eldorado do Carajás. A atividade, integra a Jornada Nacional de Lutas pela Reforma Agrária, foi marcada por reflexão coletiva, onde trabalhadores e trabalhadoras se reuniram para fortalecer a consciência e reafirmar o compromisso com a luta, a necessidade de manter viva essa história e seguir denunciando as violências no campo.
Rio Grande do Norte

Cerca de 600 militantes Sem Terra ocupam as ruas da capital, Natal em uma marcha realizada na madrugada do dia 16 de abril. A mobilização reúne famílias de todas as regiões do estado para exigir a retomada da política agrária e investimentos em infraestrutura básica para os assentamentos potiguares, que sofrem com a falta de fomento. A ação denuncia o descaso com as pautas camponesas e cobra o INCRA por respostas efetivas. O Movimento destaca que a marcha é um passo necessário para garantir que o governo federal cumpra as metas de assentamento e apoio à produção agroecológica no estado.
Paraíba
A ocupação da sede do INCRA em João Pessoa mobiliza mais de 500 famílias Sem Terra de todas as regionais do estado. O cenário denunciado pelo Movimento é crítico, pois são mais de 3 mil famílias seguem acampadas aguardando a terra no estado, enquanto o órgão realizou apenas oito vistorias em três anos e assentou somente 323 famílias, evidenciando a paralisia institucional. A mobilização exige uma resposta imediata para o represamento dos processos fundiários na Paraíba. Os Sem Terra reafirmam que a ocupação continuará até que haja um cronograma concreto para a vistoria de novas áreas e a liberação de recursos para o desenvolvimento dos assentamentos já existentes.
Alagoas
Cerca de 400 trabalhadores rurais ocupam a superintendência do INCRA, em Maceió, no dia 15 de abril. A ação é em denúncia contra a falta de avanço na execução de políticas para o campo e a ausência de diálogo do órgão federal com os acampamentos e assentamentos do estado, que enfrentam sérias dificuldades produtivas.
Os ocupantes cobram a desapropriação de terras improdutivas e o cumprimento das pautas de crédito e moradia rural. Para o Movimento em Alagoas, a paralisia do INCRA agrava os conflitos no campo e impede que milhares de famílias tenham acesso ao direito básico de produzir alimentos e gerar renda.

Sergipe
A Juventude do MST realizou um ato de denúncia contra a privatização da água e a negligência do Estado em garantir esse direito básico para a dignidade humana, na capital sergipana, Aracaju. O escracho promovido pelos jovens destaca o impacto do controle privado dos recursos hídricos sobre as comunidades camponesas e as periferias urbanas.
A ação reforça o caráter popular da Reforma Agrária, que, além da terra, luta pela preservação dos bens comuns. Os militantes sergipanos pontuam que a água não deve ser tratada como mercadoria, mas como um direito essencial para a soberania alimentar e a vida de todos os trabalhadores e trabalhadoras.
Piauí
Famílias acampadas ocupam a sede do INCRA, em Teresina, no dia 15 de abril, reivindicando a criação imediata de novos assentamentos. Cerca de 200 famílias participam da ocupação, pressionando por agilidade administrativa e pela destinação de recursos para infraestrutura e fomento produtivo em áreas já identificadas como passíveis de Reforma Agrária.
Complementando as ações de luta, o estado também realiza o plantio de árvores no dia 17 de abril na Escola Bernardo Sabino, localizada no assentamento Palmares, em Luzilândia. A atividade integra a Jornada Nacional em memória aos mártires de Carajás, unindo a denúncia da violência no campo com a proposta construtiva da agroecologia e da preservação ambiental nos territórios piauienses.

Pernambuco
No último dia 2 de abril, o MST em Pernambuco ocupou três áreas de engenhos improdutivos, em São Lourenço da Mata, para pressionar em relação à desapropriação dos territórios. A ação integra a Jornada Nacional de Lutas pela Reforma Agrária. As áreas ocupadas se tornaram um grande acampamento nomeado de Sônia Maria, com 850 famílias mobilizadas no território, que aguardam avanços do INCRA para que o assentamento seja criado na área.
No 3 de abril, militantes da regional nascente do Capibaribe, do MST em Pernambuco, ocuparam mais um latifúndio improdutivo em Taquaritinga do Norte. A área possui 500 hectares e já conta com um acampamento de 600 famílias na luta pela terra.
Na madrugada do dia 12 de abril, marcando a Jornada de Lutas da Reforma Agrária, a Regional Agreste Meridional realizou a ocupação da Fazenda Minador, no município de Saloá, com a participação de cerca de 100 famílias que reivindicam a área para fins de Reforma Agrária.
Também no último dia 12 de abril, 150 famílias Sem Terra ocuparam a Fazenda Raiz, no município de Amaraji, Pernambuco. A área possui dívidas com a União e está improdutiva. O Movimento reivindica a área para a criação de assentamento da Reforma Agrária.
Ceará
No Ceará, aproximadamente 500 trabalhadores e trabalhadoras ocupam a Fazenda Córrego, no município de Madalena, no dia 15 de abril. A ação pressiona pela desapropriação da área de 300 hectares para a construção de habitações populares, além de exigir pela destinação da Fazenda Teotônio, que possui mais de 11 mil hectares e potencial para assentar 500 famílias. O MST reivindica que o poder público estadual e federal acelere os processos parados no INCRA desde 2024, visando ampliar o modelo de desenvolvimento social e econômico já consolidado na região pelo histórico do assentamento 25 de Maio.

Dando continuidade à jornada, cerca de 300 militantes Sem Terra marcham pelo centro de Madalena e ocupam a sede da Prefeitura Municipal, no dia 16 de abril. A mobilização exige a abertura de canais de diálogo para tratar da precariedade na infraestrutura rural, com foco na recuperação de estradas para o escoamento da produção e no fortalecimento do atendimento de saúde e educação nos territórios camponeses. Para os Sem Terra, a ocupação institucional é uma ferramenta necessária para garantir que a Reforma Agrária seja acompanhada por políticas públicas básicas, que assegurem a permanência das famílias no campo com dignidade.
*Os números e dados deste balanço foram compilados a partir de diversos textos e informações fornecidos pelos estados até às 18h do dia 17/04/2026. Novos dados serão adicionados à reportagem de acordo com as atualizações das atividades da Jornada Nacional de Lutas em Defesa da Reforma Agrária 2026.
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