Agronegócio
Enquanto escolas do campo são fechadas, programas educacionais do agronegócio se espalham pelo país
Em 25 anos, o Brasil viu desaparecer cerca de 110 mil unidades educacionais rurais; ensino contextualizado nos territórios corre risco de sumir

Por Julia Dolce
Do O Joio e O Trigo
Depois de sete anos resistindo, a Escola Estadual do Campo Manoel Sebastião Gonçalves, na zona rural de Tomazina (PR), sucumbiu a um destino cada vez mais comum para unidades deste tipo: o fim das atividades. Em dezembro de 2025, a Secretaria da Educação do Paraná fechou definitivamente a escola, alegando falta de alunos.
Para o professor de história Marcos Aurélio de Assis, que geriu a instituição por 18 anos, o fechamento marca o fim de uma longa batalha para manter a educação viva no bairro Barro Preto. A fim de evitar esse desfecho, a unidade adotou como estratégia o ensino multisseriado, no qual alunos de diferentes anos estudam na mesma sala. Não foi o suficiente.
“O fato é que essas escolas são fechadas pensando única e exclusivamente na perspectiva numérica e nos valores financeiros, não se leva em consideração o trabalho pedagógico e os resultados de aprendizagem e frequência que as escolas do campo têm, que costumam ser superiores às demais”, lamenta o professor.
O caso está longe de ser uma exceção. A Manoel Sebastião Gonçalves é uma das seis escolas do campo paranaenses fechadas nos últimos meses. Em 2024, outras 45 escolas do campo já haviam sido fechadas no Paraná.
Esse dado, na verdade, compõe um fenômeno muito maior. O Fórum Nacional da Educação do Campo calcula que 110 mil escolas foram extintas no meio rural brasileiro entre 2000 e 2024.
O Joio investigou como o agronegócio está por trás desses fechamentos. Quando Assis começou a trabalhar na unidade, por exemplo, o bairro de Barro Preto era formado por agricultores familiares ou por trabalhadores assalariados na agricultura de médio porte local. Mas, com o tempo, grandes produtores de soja, milho e aveia passaram a dominar a região.
“À medida em que o agronegócio foi se expandindo, foi havendo uma espécie de fagocitose em relação às outras áreas, as pessoas foram parando a produção, arrendando a terra, a população ficou desguarnecida de emprego. Esse é um dos elementos que fez com que houvesse a debandada de alunos”, explica.
Expansão do agro, êxodo rural e nucleação escolar
Atualmente, restam cerca de 48 mil escolas no campo brasileiro. No Paraná, 529 ainda resistem.
Essas escolas representam menos de um terço das instituições de educação básica no país. Mas o número cai bastante quando se trata dos últimos anos do ensino formal: 94,5% das matrículas de ensino médio no Brasil estão localizadas em escolas urbanas.
A onda de fechamento de escolas do campo integra outro fenômeno: a nucleação escolar, processo pelo qual alunos de diferentes áreas rurais passam a estudar em uma mesma escola-núcleo, geralmente em áreas urbanas afastadas de casa.
A escassez de recursos e de infraestrutura, além da redução no número de alunos matriculados, estão entre os argumentos das redes municipais e estaduais de ensino para a nucleação.
Especialistas em educação do campo criticam a medida, que acaba criando mais barreiras para que estudantes frequentem as aulas. Entre elas, jornadas mais longas e exaustivas entre casa e escola.
Alguns alunos da Manoel Sebastião Gonçalves, por exemplo, foram realocados em uma escola do campo a 10 quilômetros de distância do Barro Preto. Outros foram estudar em uma escola urbana no município vizinho.
Segundo a geógrafa Tássia Cordeiro, professora do Instituto Federal Fluminense (IFF), que pesquisa ameaças à educação do campo, o agronegócio é um fator importante na equação do êxodo rural, e consequentemente, da nucleação escolar.
“A diminuição dos estudantes está articulada a um processo mais amplo de êxodo rural, e esse êxodo rural, em grande parte, está relacionado com a expansão do agronegócio. Se você não tiver acesso à terra, ao emprego, à perspectiva de vida no campo, o êxodo rural vai se manter ou aumentar”, afirma a geógrafa.
Esse movimento não é apenas causado pelo agro – ele também beneficia o avanço da fronteira do agronegócio sobre territórios antes habitados por camponeses ou povos e comunidades tradicionais.”
É o que explica Clerison Belém, coordenador institucional do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), organização que tem sede no semiárido baiano e também atua na educação no campo. “Quando o campo está esvaziando, as empresas chegam mais fácil”, resume.
Belém ressalta que outro impacto importante da nucleação escolar – do qual o agro tira proveito – é a perda de identidade dos estudantes com o campo, aspecto também citado pelo professor Assis.
“[Os alunos] chegam na cidade e vão morar na periferia. E a leitura do mundo é outra. Começam a afastar os estudantes da sua realidade do campo, eles se envergonham de ser da roça, querem se adaptar à cidade”, afirma.
A construção da educação do campo
A noção de escolas do campo foi cunhada entre os anos 1980 e 1990 justamente como parte de projeto educacional voltado à valorização e às especificidades da realidade das comunidades rurais, ou, como também é chamada, uma educação contextualizada.
Cordeiro explica que, antes disso, a chamada “educação rural” no Brasil se baseava em um projeto pedagógico urbanocêntrico. “Era uma visão estereotipada que não incentivava a perspectiva da identidade camponesa, não educava em relação às contradições, complexidades que essas crianças vivenciavam”, completa.
O conceito de educação do campo tem origem na pedagogia desenvolvida por movimentos sociais camponeses, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST): a pedagogia do movimento.
“Ela nasce junto com a luta pela terra, porque no contexto de acampamentos, e posteriormente de assentamentos, surge a questão do que fazer com essas crianças, já que o acesso à escolarização do campo sempre foi algo complicado”, explica a geógrafa.
O MST passou a se organizar e lutar para ter acesso às escolas. Em seguida, passaram a reivindicar outro projeto educacional. “Porque não adiantaria conquistar a terra se o modelo de educação fosse essa visão de campo estereotipada, que não educasse sobre as complexidades que essas crianças vivenciavam”, afirma Cordeiro.
Um marco para a proposta da educação do campo foi o 1º Encontro Nacional de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária, o Enera, que aconteceu em 1997. Lá foi lançado um manifesto em defesa da educação do campo.
Com o tempo, as ideias desse embrião passaram a ser incorporadas em diretrizes educacionais e legislações brasileiras a partir do início dos anos 2000. Mas a educação do campo seguiu sofrendo baques importantes nas últimas décadas, como desmontes orçamentários e a própria nucleação escolar.
Linha do Tempo da Educação do Campo no Brasil
- Realização da I Conferência Nacional Por uma Educação Básica do Campo. [1]
- Criação do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). [1]
Foi somente em julho de 2025 que o governo Lula lançou a Política Nacional de Educação do Campo, das Águas e das Florestas (Novo Pronacampo), que promete ampliar, qualificar e garantir a oferta e acesso à educação do campo. O primeiro programa do tipo foi lançado em 2012.
O professor Marcos Aurélio Assis é agente do Pronacampo no Paraná. Ele conta que o governo do estado demorou alguns meses para aderir ao programa. “Tem toda uma questão ideológica que reluta em aderir”.
Os movimentos do campo receberam a política com esperança. O pedagogo e doutor em educação Valter de Jesus Leite, membro do Fórum Nacional da Educação do Campo (Fonec) e do setor de educação do MST, acredita que a política trouxe avanços importantes, como o reconhecimento das escolas multisseriadas e a promoção do ensino da agroecologia.
“O Novo Pronacampo vem para tentar superar os limites de infraestrutura, de formação, de material pedagógico em termos tecnológicos e tratar os limites existentes na política pública brasileira, quando se pensa a educação do campo”, afirma.
Mas o lançamento tardio do programa trouxe inseguranças. “Nós temos um curto intervalo de tempo para materializar essa política antes do término do governo”, completa Leite.
No início do ano, o Fonec publicou uma nota denunciando o fechamento das escolas do campo no Paraná e em outros oito estados brasileiros.
Hoje, na teoria, todas as escolas em zonas rurais são consideradas escolas do campo, das águas ou das florestas. Mas os movimentos sociais ainda disputam o conceito, entendendo que “escolas do campo” são aquelas cujo projeto pedagógico promove um ensino contextualizado.
Era o caso da escola Manoel Sebastião Gonçalves. Por lá, atividades da comunidade do próprio bairro aconteciam dentro da escola.
“A escola representava a identidade da comunidade, os elementos de territorialidade deles, até mesmo questões relacionadas à organização social e política. Agora aqueles que tiveram que levar os filhos para a área urbana perdem a identidade com aquele espaço”, avalia o professor Assis.
O fechamento da Manoel Sebastião Gonçalves gerou manifestações no bairro Barro Preto. “Vimos uma comunidade lutando para a manutenção da escola. Eu acredito que isso só acontece quando se tem identidade com a escola”, completa o professor.
O fortalecimento dessa identidade, porém, é considerado uma ameaça para os setores que se beneficiam do êxodo rural. É o que explica a geógrafa Tássia Cordeiro.
“Existem elementos suficientes para indicar que a ascensão do movimento de educação do campo pode ter causado preocupação no agronegócio. E uma forma de frear essa educação é não ter escolas no campo”, avalia.
Entretanto, outra forma bastante estratégica de frear a educação do campo é incidir diretamente no projeto pedagógico dessas escolas. E o Paraná também é berço de um dos projetos mais bem sucedidos nesse sentido.
A ofensiva do agro no ensino básico
— Na cidade me falaram que as fazendas causam muito impacto ambiental.
— Impacto ambiental?
— Será que é o campo que causa impacto ambiental?
O diálogo faz parte de um gibi publicado pelo programa Agrinho, criado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) do Paraná em 1995. A pergunta final é feita pelo personagem homônimo, um menino chamado Agrinho, que no quadrinho seguinte imagina uma metrópole poluída.
O Senar é parte do Sistema S, e é coordenado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), topo da cadeia dos sindicatos e federações rurais do país, além de uma das principais entidades responsáveis pela gestão do Instituto Pensar Agropecuária (IPA), braço de lobby da bancada ruralista.
A gênese do Agrinho se confunde ainda mais com os poderes institucionais. A fundadora do programa, Patrícia Lupion Torres, é parente de Moysés Lupion, ex-governador do Paraná com trajetória historicamente ligada à grilagem de terras, e de seus descendentes: o neto Abelardo Lupion, ex-deputado federal e ex-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), e o bisneto Pedro Lupion, deputado federal e atual líder da bancada.
O programa oferece material paradidático para estudantes e professores da rede pública. Thiara Campanha, professora da rede estadual do Paraná, pesquisou o Agrinho no mestrado e no doutorado, e chegou a fazer cursos de formação para professores promovidos pelo programa.
Ela analisa que o conteúdo desses cursos vendia uma imagem de um agronegócio “sustentável” e supostamente inclusivo, mas que resume a população do campo àquela que segue a cartilha do “modelo mercadológico” do agronegócio.
Atualmente, o Agrinho está espalhado por diferentes estados brasileiros, por meio de convênios firmados entre os respectivos Senars e as pastas estaduais de educação.
Em novembro de 2024, além do Paraná, o programa já tinha feito convênios com outros cinco estados: Goiás, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Rondônia e Ceará. À época, a população de estudantes atendidos pelo programa foi estimada em 3,7 milhões.
O crescimento do programa tem se escorado em uma brecha: a necessidade de materiais didáticos que respondam às demandas da educação ambiental, obrigatória no currículo da educação básica brasileira desde 2024.
Para Tássia Cordeiro, existe um conflito de interesses evidente na escolha do Agrinho para suprir tal conteúdo. “Chama muito a atenção na questão ambiental como um setor que é responsável por grande parte dos problemas ambientais do nosso país está ‘educando’ estudantes sobre o meio ambiente”.
Esses convênios costumam ocorrer sem fiscalização adequada nem concorrência. No Paraná, o programa segue sendo renovado há anos. “Quem disputou? Só vai se renovando, é um conchavo”, denuncia Thiara Campanha.
O programa já foi aplicado em todos os municípios paranaenses. Em 2017 chegou a ser banido em um deles, Cascavel, onde foi denunciado na Comissão de Educação da Câmara de Vereadores por alusão ao uso de agrotóxicos.
Mas a apologia segue em alta. Campanha revela que o programa costuma levar drones agrícolas, utilizados principalmente na pulverização aérea de agrotóxicos, para dentro das salas de aula. Os drones também estão presentes nos gibis do Agrinho.

A pulverização de agrotóxicos por drones tem se tornado um problema crescente no Brasil, ajudando a elevar as notificações de contaminação por agrotóxicos. No primeiro trimestre deste ano, por exemplo, o estado do Maranhão contabilizou 222 comunidades rurais atingidas por veneno pulverizado por esses equipamentos.
Originalmente, o público-alvo do Agrinho eram justamente as escolas do campo. Segundo o professor Marcos Aurélio de Assis, representantes do programa já compareceram repetidas vezes à escola Manoel Sebastião Gonçalves.
“Se pegar o material e não fizer esse filtro, não contextualizar a realidade que você tem, realmente é uma proposta que não agrega para o pequeno produtor, para aquela comunidade em si”, avalia.
O carro-chefe do Agrinho, porém, são os concursos para estudantes e professores.
O programa premia com computadores e tablets as melhores redações, desenhos, frases e até mesmo propostas na área da robótica. Já os professores dos alunos premiados chegam a ganhar carros e motos.
Para participar dos concursos, as escolas têm que aderir à proposta pedagógica do Agrinho. Os temas são estabelecidos pelas entidades que gerem o programa, e geralmente endossam um suposto papel do agronegócio na preservação ambiental, ou em uma sustentabilidade voltada às mudanças comportamentais individuais.
Em 2018, por exemplo, o tema do concurso de redações do Agrinho Mato Grosso do Sul foi “Produzindo água no campo: o agro preservando o maior bem da terra”. Vale lembrar que o setor é responsável pelo consumo de 70% da água consumida no país.
As premiações juntam centenas de estudantes e professores, que viajam do interior às capitais para o evento. Eles costumam acontecer nas sedes das federações de agricultura e pecuária, e contam com a presença de empresários do agro. Em 2023, foram mais de 1 milhão de trabalhos inscritos.
Segundo o geógrafo Daniel Monteiro, que pesquisa o Agrinho do Mato Grosso do Sul e entrevistou professores que participaram do programa, embora a aplicação dos conteúdos não seja obrigatória, existe receio de perseguição caso se recusem a utilizá-los.
“Hoje, grande parte dos professores desses municípios não são concursados, então têm menos estabilidade e autonomia. Ficam à mercê daquilo, porque acreditam que se não participarem do projeto podem ser demitidos”, explica.
O geógrafo ouviu também professores que, sobrecarregados, afirmaram valorizar os planos de aula e material paradidático disponibilizados pelo programa. “Eles acreditam que o material ajuda, que é lúdico, consegue atrair os alunos para os assuntos e, embora a maior parte dos estudantes da rede pública não seja ligada ao agronegócio, eles acabam se sentindo pertencentes”, completa Monteiro.
O Agrinho é um dos mais antigos programas do agronegócio para a educação, mas passa longe de ser a única investida do setor nas escolas. Valter de Jesus Leite pesquisou esse fenômeno na sua tese de doutorado e listou onze exemplos de projetos do tipo, criados por entidades privadas vinculadas ao patronato rural. Metade deles é vinculada à indústria de agrotóxicos.
Alguns exemplos são o projeto Escola no Campo, da Syngenta, o projeto Agora, ligado à Bayer, o projeto Comunidade Educativa, ligado à Bunge, a Andefino na Escola – criada pela antiga Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) que, em 2019, se juntou a outras associações do setor e se tornou a Croplife Brasil, braço nacional da maior organização internacional do setor, bem como a DuPont na Escola e a Corteva Escola, cujos nomes já referenciam diretamente as corporações em questão.
“Essa indústria tem, ao longo das últimas três décadas, desenvolvido projetos de educação ambiental como formas de se relacionar com o entorno, como uma espécie de reparação. O problema é que essa reparação é falsa e danosa”, afirma Leite.
A maior parte desses projetos atuam de forma regionalizada. Alguns também utilizam a estratégia dos concursos, como o programa Agronegócio na Escola, da Associação Brasileira do Agronegócio Ribeirão Preto (Abag) e do IPA – o braço de lobby da bancada ruralista.
O programa teve início no nível municipal em 2001 e hoje já está presente em 25 estados, como informam dados do seu site. Ele premia estudantes com violões, skates, telescópios e até mesmo “kits para youtuber“.
As redações premiadas pelo Agronegócio na Escola, diferentemente do Agrinho, são mais focadas na defesa do setor. O programa valoriza frases de efeito que enaltecem e simplificam as contradições do agro.

De Olho no Material Escolar
A partir de 2021, o agronegócio passou a investir capital em uma organização voltada especificamente para melhorar a imagem do setor na educação pública: a De Olho no Material Escolar (Donme).
A organização surgiu como um projeto do movimento ‘Mães do Agro’, formado por empresárias do agronegócio, que se surpreenderam com críticas ao setor nos livros didáticos e trabalhos escolares de seus filhos. Como o nome revela, a Donme veio para patrulhar esses conteúdos.
Mas a organização também tem parentesco com a indústria de agrotóxicos. O ex-presidente da Croplife Brasil, Christian Lohbauer, saiu da associação internacional em 2023 direto para a vice-presidência da Donme, cargo que ocupou por dois anos.
A Donme logo conquistou espaço nas discussões do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) do Ministério da Educação (MEC) do governo Bolsonaro. Também se inseriu na bancada ruralista, com um lobby que rendeu emendas em projetos de lei e articulações parlamentares no MEC.
E foi bem sucedida.
Como revelou reportagem da organização jornalística Aos Fatos, dedicada ao combate à desinformação e à checagem de fatos, a pressão feita pela Donme conquistou alterações nos conteúdos de diversas editoras: desde mudanças de termos – como os agrotóxicos, que passaram a ser referidos como “defensivos agrícolas”, termo de preferência do agro – até uma redução na abordagem de temas relativos aos conflitos fundiários.
“É uma agenda hoje muito volumosa, agressiva, perigosa, pois vai eliminando o pensamento crítico sobre o campo brasileiro”, afirma Valter de Jesus Leite.
Para tanto, a Donme também ampliou seu escopo de atuação. Criou uma “Agroteca” em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), campus de ciências agrárias da Universidade de São Paulo (USP), e passou a adotar um discurso focado em uma suposta defesa da ciência e da neutralidade.
O argumento da organização é que os conteúdos que relacionam o agronegócio aos seus impactos socioambientais históricos, ou mesmo aos impactos climáticos que já são consensos científicos, seriam enviesados e atrasados.
A acusação é embasada em um estudo sem caráter acadêmico encomendado pela Donme à Fundação Instituto de Administração (FIA). O relatório final aponta que apenas 12 dos 345 textos que mencionam o agronegócio analisados pela consultoria seriam considerados “científicos”. A maioria foi classificada como “autoral”.
Mas os próprios conteúdos da Agroteca divulgam dados forjados pelo setor que, checados também em reportagem do Aos Fatos, foram considerados falsos ou distorcidos. Este vídeo, encomendado pela organização, distorce fatos para tentar limpar a barra da pecuária como principal setor responsável pela perda de florestas.
Outra frente de atuação da Donme são as excursões escolares a feiras do agronegócio, fazendas ou instalações industriais do setor, por meio de seu projeto “Vivenciando a Prática”. Os dados divulgados pelo programa informam que ele já atendeu 63 mil alunos em 14 estados.
Para Wheisenhower Resende Campelo, que pesquisou Vivenciando a Prática em seu mestrado em Geografia, as excursões são focadas em esbanjar a tecnologia de ponta do setor e, assim, descolá-lo de impactos considerados retrógrados.
“A Donme leva os alunos para eventos de grandes produtores e empresas do agro para construir um imaginário extremamente positivo na cabeça dos estudantes, de que não existiria mais aquele agro que escravizou pessoas, que desmatou, que polui rio”.
O Vivenciando a Prática também depende de convênios com redes estaduais e municipais de ensino. “Os vereadores ligados ao agro fazem essa ponte”, afirma Campelo. Recentemente, o programa também começou a utilizar a modalidade dos concursos, premiando redações e vídeos referentes às excursões realizadas.
Embora os representantes da Donme deixem claro que o objetivo central da organização é mudar a imagem que estudantes urbanos têm do campo, Campelo explica que, devido à proximidade com os locais visitados, um público importante do programa são os próprios estudantes de escolas públicas do campo.
Mas o público-alvo desses maquinários caríssimos das feiras não são exatamente as famílias desses estudantes, e sim grandes empresários do agronegócio.
Porém, para a presidente do programa, a pecuarista Letícia Jacintho, essa diferença não existe. Em uma entrevista dada à Revista Oeste, em 2023, ela afirmou acreditar que agricultura familiar e empresários do agro são “a mesma coisa”. “Tem coisas sendo divididas aí que não deveriam, é o agronegócio brasileiro como um todo”.
Essas diferenças são homogeneizadas de forma estratégica pelo setor por meio do balaio genérico da categoria “produtor rural”. Nos programas do agronegócio para a educação, essa homogeneização fica evidente.
O Agrinho, por exemplo, embora já tenha se inserido em pelo menos 24 escolas indígenas no Mato Grosso do Sul, um dos estados líderes em conflitos entre fazendeiros e povos indígenas, não aborda a existência indígena em seus conteúdos, como revela Campanha.
“Não aborda os povos das florestas, das águas, os territórios da reforma agrária, como esses povos produzem, quais são as práticas de vivência”, afirma a geógrafa.
Um ensino crítico sobre o protagonismo do agronegócio na violência contra povos indígenas, aliás, foi a gota d’água que fez Letícia Jacintho criar a Donme, como ela já revelou em outra entrevista. Nela, a pecuarista descreve um trabalho escolar feito pela sua filha, que na época tinha 10 anos, e que lhe causou um “impacto grande”.
“Nessa tarefa era demandado a ela que se colocasse no lugar dos indígenas e que os produtores rurais destruíram as suas terras. E ela tinha que usar palavras muito fortes”, afirmou.
A “ameaça” do ensino contextualizado
Um dos materiais presentes na Agroteca da Donme é o gibi A História da Soja, produzido pela organização Agroligadas, formado por mulheres do agronegócio. Na historinha, a personagem Sojinha ressalta supostas maravilhas do plantio de soja no Brasil.
“Sabia que os agricultores usam práticas sustentáveis para cultivar a soja?” afirma o grão, vestindo uma capa de super-herói.

A afirmação passa longe da experiência vivida pelos estudantes da escola do campo Vitalina Motta, no município paraense de Belterra, que margeia a BR-163, conhecida como a “estrada da soja”. O município é vizinho de Santarém, onde fica um dos maiores portos de escoamento do grão do país.
A escola já foi alvo de pulverização de agrotóxicos por um vizinho sojeiro algumas vezes. Em 12 de junho de 2024, crianças e funcionários passaram mal com sintomas de contaminação pelo veneno e tiveram que ser atendidos na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. Na ocasião, foram registradas 14 ocorrências de intoxicação por agrotóxicos.

Desde 2023, quando as primeiras pulverizações em horário letivo aconteceram, os professores já haviam denunciado a situação para o Ministério Público Estadual do Pará (MPE-PA), que entrou com uma ação contra o proprietário da fazenda.
No mesmo ano, o Ibama descobriu uma série de irregularidades no uso e no armazenamento de agrotóxicos pelo sojeiro, e aplicou uma multa de R$ 1 milhão. Mas a situação só teve fim em dezembro de 2025, quando uma decisão judicial suspendeu a aplicação de agrotóxicos na área, que tem outras 15 escolas próximas.
Porém, em janeiro deste ano, Heloise Rocha, professora da escola e uma das principais vozes por trás das denúncias contra a fazenda vizinha, foi informada que seria afastada da unidade. A justificativa da Prefeitura de Belterra é que a escola seria fechada também por falta de alunos.
“Por que não tem aluno? Será que foi só porque saíram mesmo? Ou porque foram expulsos por conta do agronegócio?”, questiona a professora. Heloise conta que muitos pais têm optado por tirar seus filhos das escolas do campo de Belterra, ou mesmo por se mudar para outras regiões, devido às contaminações constantes.

“A soja está expulsando as pessoas das comunidades rurais. Comunidades que existiam há 15, 20 anos, não existem mais, porque foram engolidas pelo agronegócio, são hoje comunidades fantasmas com escolas fantasmas. E a agricultura familiar também não tem mais espaço, está sufocada”, afirma.
Assim como a Vitalina Motta, diferentes escolas do campo pelo Brasil já foram atingidas pela pulverização por agrotóxicos em horário letivo. Outras, são alvo de ataques ainda mais diretos.
É o caso da Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Anacleto, localizada no assentamento Dorothy Stang, no município de Anapu, também no Pará. Ela já sofreu dois atentados por parte de pistoleiros, um em 2022 e outro em 2024. Em ambos os casos, a escola foi incendiada.

Anapu é um dos municípios com maior histórico de violência em conflitos fundiários no país.
Basta destacar que tanto o nome do assentamento quanto o da escola em questão homenageiam defensores de direitos humanos assassinados nas últimas décadas – a missionária que lutou pela reforma agrária, e um assistente social que lutou pela construção da escola em questão.
Para Aguinaldo Costa Lima, agricultor assentado no Dorothy Stang e pai de duas crianças que frequentavam a escola na época dos incêndios, a unidade não está na mira de pistoleiros à toa. O território, um oásis agroecológico cercado por pasto, é disputado por pecuaristas da região.
“Eles não queriam que essa escola existisse porque imaginam que uma escola em um assentamento muda muita coisa, tira mais a força deles porque passa a ter o apoio da Prefeitura, do Ministério Público”, avalia. Para ele, os incêndios foram uma forma de pressionar os agricultores para que desistissem da terra.
Hoje, aproximadamente 11% das escolas do campo ficam dentro de assentamentos. Segundo Valter de Jesus Leite, do Fonec e do MST, a localização em territórios disputados pelo agronegócio está por trás dos ataques às escolas do campo em diferentes partes do país.
“Quando as milícias armadas associadas em conluio com o agronegócio trabalham pelo despejo dessas áreas, um dos primeiros locais que atacam são as escolas”.
Ele destaca que o caráter contextualizado do projeto pedagógico das escolas do campo é central para essa escolha.
“Quando o MST ocupa uma terra que incorre sobre algum crime ou que é caracterizada como improdutiva, a comunidade já ocupa pensando nos seus espaços sociais e de vivência, e a escola é um dos primeiros espaços a serem construídos. Porque há um valor social, formativo e humano na escola, ela é vida na comunidade”, relata.
A escola Vitalina Motta, por exemplo, também aplicava um currículo contextualizado à realidade camponesa e amazônica das crianças. “A gente falava de questões como os agrotóxicos, o desmatamento, a partir da questão espacial amazônica, do local onde a gente vive”, lembra a professora Heloise Rocha.
Para ela, esses temas podem ser vistos como ameaças para o agronegócio. “O objetivo deles é fazer com que as crianças percam a identidade com o território, com o espaço”.
Um exemplo emblemático de ensino contextualizado é o das Escolas Famílias Agrícolas (EFAs), uma das experiências mais antigas da educação do campo no país. Elas têm origem na França e foram trazidas ao Brasil na década de 1960 pela Igreja Católica.
As EFAs são entidades privadas sem fins lucrativos com uma natureza comunitária, sendo geridas por associações de famílias do campo. Hoje, elas sobrevivem com subsídio público e privado e existem em 22 estados brasileiros.
Elas são mais presentes no Nordeste, onde a organização de Clerison Belém, o Irpaa, também atua na sua gestão. Um exemplo é a EFA Sobradinho, localizada no semiárido baiano, às margens do rio São Francisco.
Nádia Nauanda se formou na escola em 2025 e conta que sua rotina envolvia uma série de atividades e disciplinas voltadas à valorização dos modos de vida no campo.
“Sou filha de uma comunidade rural. Eu tenho ali meu contexto todo de mexer com animais, mexer com plantas, com vegetação distinta. E eu vou aprendendo de acordo com a minha realidade. A gente aprende sobre os nossos direitos, sobre os direitos dos jovens do campo”.
O sonho de Nádia é permanecer no território, atuando como pedagoga e psicóloga em escolas do campo. Mas ela conta que, antes de estudar na EFA, cursou o ensino fundamental em uma escola do campo sem conteúdo contextualizado, e que a maior parte dos colegas planejava deixar o campo.
Para Clerison Belém, o trabalho das EFAs e do ensino contextualizado de modo geral ajuda a manter a juventude no campo. “Buscam fazer com que os jovens acessem políticas públicas, crédito, terra, água, condições para continuar vivendo no campo com dignidade”.



