Eleições
Boi, bala e Bíblia: o discurso de Flávio Bolsonaro em uma Amazônia em disputa
Em pré-campanha, filho de Jair Bolsonaro emulou o pai em viagem a Altamira ao prometer a ruralistas que vai regularizar terras irregulares e afrouxar a fiscalização ambiental; em Belém, buscou apoio de pastores e lideranças evangélicas

No dia em que o mundo voltava os olhos para a abertura da Copa do Mundo de 2026, cerca de 500 pessoas, a maioria vestindo verde e amarelo, se aglomeravam no desembarque do Aeroporto de Altamira, no Pará. O calor já fazia o ar tremular sobre o asfalto, quando um repentista afiado tentava manter a multidão desperta com sua viola de dez cordas. Produtores rurais discutiam amenidades sobre a vida no campo e aspirantes a políticos opinavam sobre o sistema eleitoral: “Só deveria votar quem paga imposto”, disparou um deles. Com seu canhão de audiência, enquadrado na tela do celular, o influenciador Thiago Freitas, um dos responsáveis por convocar a aglomeração junto ao movimento Direita Xingu, do publicitário Marth Uchôa, gravava mais um vídeo em tom apocalíptico para seus seguidores. Em maio deste ano, Thiago passou a integrar o time da agência Portal Group, que ficou conhecida por, segundo influenciadores, encomendar conteúdos de difamação contra o Banco Central a pedido do Banco Master de Daniel Vorcaro, que também deu dinheiro à família Bolsonaro. A Portal Group nega.
Mas naquela manhã, o Banco Master não era assunto, muito menos a seleção brasileira.
Às 11h30 cravadas um Learjet 45 tocou a pista do aeroporto. Do avião desceu o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, vestindo uma camiseta azul com a frase “A Amazônia é nossa” estampada no peito. Em dois minutos atravessou o desembarque, cumprimentou apoiadores e entrou em um carro de vidros escuros estacionado na saída do terminal. Ao seu redor estavam os deputados federais Joaquim Passarinho, Lenildo Sertão (o Delegado Caveira) e Éder Mauro, todos do PL do Pará e também pré-candidatos nesta eleição.
Algumas horas depois, Flávio seguiria para Belém, onde encontraria um grupo de pastores evangélicos. Assim, em um único dia, o pré-candidato que pretende carregar o legado de destruição bolsonarista percorreu dois dos principais campos de disputa política na Amazônia e no Brasil. Em Altamira, falou para quem vê a fiscalização ambiental como ameaça em um momento em que as ações do governo Lula mostram resultados na redução do desmatamento. Em Belém, buscou quem enxerga a política como uma guerra espiritual e vê no discurso radical punitivista uma salvação.
O Pará, estado mais populoso da Amazônia entre os que deram vitória a Lula em 2022, precisa ser conquistado. “A Amazônia é nossa” que estampava a camiseta de Flávio era um recado, quase uma ameaça: a Amazônia é dos que veem a Floresta como promessa de riqueza e não como um território vivo e, por isso, precisa continuar a ser espoliada.
SUMAÚMA seguiu nas duas cidades paraenses os atos do presidenciável junto a ruralistas, pastores e influenciadores para entender como o discurso da extrema direita será propagado pela Amazônia.

Altamira: tudo para o agro
O grupo que recepcionou Flávio Bolsonaro no aeroporto do maior município em extensão do país seguiu em carreata por 4,6 quilômetros, passando por outdoors que anunciavam a visita do presidenciável, até chegar às margens do Rio Xingu. No final do percurso, o pré-candidato extremista abandonou o ar-condicionado e subiu na caçamba de uma caminhonete, chegando em carro aberto ao Haras do Wanderlan, um local de eventos da cidade, onde cerca de 3 mil pessoas o aguardavam. A visita incluiu churrasco, adesivos, bandeiras do Brasil e, principalmente, discursos inflamados contra os órgãos ambientais, o presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores, o PT.
O local escolhido para o evento de pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência é um símbolo do poder político que o bolsonarismo aglutina na Amazônia. Parte da área onde está o Haras do Wanderlan foi embargada pelo Ibama há quase 16 anos – o Haras afirma que o espaço foi alugado. Foi ali, sob calorosos aplausos, que Flávio prometeu retirar o que chamou de “o Estado do cangote” de quem produz – uma crítica às ações dos órgãos ambientais que têm atuado para coibir crimes ambientais e conter a destruição da floresta na região do Polo Xingu, formada por dez municípios.

O maior embate da fiscalização ambiental na região está na chamada desintrusão, ou seja, a retirada de invasores de áreas protegidas, como as Terras Indígenas Cachoeira Seca, Ituna/Itatá e Apyterewa , onde não é permitida a derrubada da floresta para criação de gado, soja ou mineração. Também é o caso do assentamento Terra Nossa, criado para agricultores familiares e pressionado há anos pelo avanço de madeireiros e grileiros sobre terras públicas. Em junho, a Justiça Federal reconheceu a persistência de pendências na regularização fundiária e obrigou o Incra a informar periodicamente o andamento dos processos voltados à retomada de ocupações consideradas incompatíveis com os objetivos da reforma agrária. Mas o Zero Um insistiu: “A partir de janeiro do ano que vem, vocês vão trabalhar onde vocês quiserem para levar a dignidade para dentro da casa de vocês”. Um discurso parecido ao de seu pai, que prometeu – e cumpriu – que não demarcaria nenhuma nova Terra Indígena no país. Bolsonaro pai também enfraqueceu os órgãos ambientais e, em quatro anos de mandato, foi responsável pela morte de mais de 2 bilhões de árvores na Amazônia, com o aumento do desmatamento. Altamira foi um dos epicentros da destruição.
Com o Haras do Wanderlan como cenário, Flávio Bolsonaro testaria os limites que separam a pré-campanha do período oficial da corrida eleitoral, que começa apenas em 16 de agosto. Naquele mesmo dia, a Justiça Eleitoral no Amapá suspendeu um evento da pré-campanha do senador Randolfe Rodrigues, do PT, por considerar que a estrutura montada ultrapassava os limites permitidos e poderia caracterizar propaganda eleitoral antecipada.
Em Altamira, o senador percorreu a zona cinzenta desse período em ano eleitoral e orientou o público sobre a composição política ao escolher seus representantes nas urnas.
“Na hora de escolher um presidente, olha bem quem são os senadores, os deputados, o governador que estão aliados com ele. E vamos, de ponta a ponta, escolher uma seleção para mudar de verdade a vida do povo paraense”, afirmou diante da plateia.
Na pré-campanha é proibido pedir voto antecipado, realizar comícios, carreatas, caminhadas e distribuição de santinhos, mas o próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indica que a legislação permite a menção a futuras candidaturas e a exaltação das qualidades pessoais de pré-candidatos, desde que não haja pedido explícito de voto.

Pastores, terrorismo e mineração
A passagem de Flávio Bolsonaro pela Amazônia colocou a Floresta no centro da disputa presidencial de 2026, mas não se limitou ao Xingu. Horas depois de deixar Altamira, o senador desembarcou em Belém para uma segunda frente de articulação política: o eleitorado evangélico e a busca por espaço dentro da direita paraense.
Em um templo da Assembleia de Deus no bairro do Guamá, região historicamente associada ao voto popular e ao lulismo na capital paraense, Flávio foi recebido por lideranças religiosas e políticos aliados, que ocuparam cadeiras atrás do púlpito, de frente para o público de pastores evangélicos presente no templo. Sentaram lado a lado o senador Zequinha Marinho, do Podemos, e os deputados federais do PL Éder Mauro e o Delegado Caveira. Zequinha, que é da Assembleia de Deus, foi apresentado como “pastor e senador”.
O pastor Joel Ozório conduziu o encontro com referências a uma “luta do bem contra o mal” e a uma “guerra espiritual”. Com a Bíblia na mão, afirmou que “os comunistas odeiam este livro”. Ao final, convidou outro líder religioso a orar por Flávio Bolsonaro e declarou que Deus poderia usá-lo para “libertar o Brasil do comunismo”.

Para Saulo Baptista, professor de ciências da religião na Universidade do Estado do Pará (Uepa), há de fato uma guerra em curso, mas não espiritual. É uma disputa política pelos votos dos evangélicos, um grupo muito diverso e fragmentado que representa cerca de 27% da população brasileira e que possui sua maior presença proporcional justamente na Região Norte. “A Assembleia de Deus tem capilaridade. Está presente em toda a Amazônia. [Em alguns lugares], é capaz de ter Assembleia de Deus e não ter Correios. Então, se você convence a liderança, você entra numa rede de disseminação muito eficiente”, afirma.
A passagem por Belém também expôs outra disputa menos visível. Nos últimos anos, o grupo político liderado pelo agora ex-governador Helder Barbalho, do MDB, consolidou influência sobre parcelas importantes do eleitorado evangélico paraense. Barbalho é pré-candidato ao Senado e apoia a reeleição de sua vice, agora governadora, Hana Ghassan.
Ao sair da igreja, Flávio Bolsonaro seguiu de carro até a quadra do Rancho Não Posso me Amofiná, no bairro do Jurunas. O Rancho é a escola de samba mais antiga da Amazônia. Seu fundador, o operário naval Raimundo Manito, era militante do Partido Comunista do Brasil, o PCB. Na sede do Rancho, em dia de votação, funcionam oito seções eleitorais. Lá, Jair Bolsonaro perdeu em 2018 para Fernando Haddad e em 2022 para Lula.
Na escola de samba, Flávio falou em “libertar” o Brasil e o Pará. Em “modernizar” o governo e a legislação para a concessão de licenças ambientais – é assim que eles chamam o “libera geral” que abre espaço para a destruição da Floresta e de seus seres. Fez ode ao empreendedorismo. Repetiu clichês punitivistas sobre segurança pública – como a redução da maioridade penal e a castração química para estupradores. Prometeu que, depois do governo dele, ninguém nunca mais vai ouvir falar em PT. Repetiu o bordão nacional-fundamentalista do pai: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
O boi, a bala, a Bíblia. Estava tudo ali.

Flávio também citou no discurso a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos, indicando como o bolsonarismo pretende se aproveitar da decisão do presidente Donald Trump, forjando uma suposta influência sobre o extremista estadunidense. Uma atitude que tem sido apontada como perigosa para a própria Amazônia, pois poderia justificar uma invasão do país ao solo brasileiro, como ocorreu na Venezuela.
Aiala Colares, professor de geografia da Uepa e diretor-presidente do Instituto Mãe Crioula, explicou a SUMAÚMA que, ao serem tratadas como grupos terroristas, as facções criminosas acabam saindo da alçada brasileira da segurança pública e passam a ser tema de segurança internacional. Quase 45% dos municípios da Amazônia Legal têm alguma evidência da atuação de facções, segundo o relatório “Cartografias da Violência na Amazônia”, do qual Aiala é um dos coordenadores, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A Amazônia virou região de disputa entre o CV e o PCC pela estratégia logística de controle das rotas do tráfico de drogas. Já o Brasil se tornou área de interesse dos Estados Unidos por ter a segunda maior reserva do planeta de terras raras e minerais críticos, atrás apenas da China.
Em maio, durante a visita a Trump, Flávio declarou à imprensa que, se eleito, fará parcerias estratégicas de longo prazo com os Estados Unidos sobre minerais críticos e terras raras. Em Belém, também falou de seus planos para a mineração: “Nós vamos mudar a legislação para acelerar, tirar essa riqueza que tá embaixo da terra e distribuir pra vocês”, prometeu Flávio. Um projeto que pretende ampliar e financiar – até com dinheiro público – a exploração dos chamados “minerais críticos e estratégicos” tramita no Congresso sem prever salvaguardas ambientais suficientes.

Ode à propriedade privada
Naquele mesmo dia em que Flávio Bolsonaro fez eventos pelo Pará, o presidente Lula comemorava, em Brasília, a maior redução dos alertas de desmatamento na Amazônia da última década e atribuía o resultado ao fortalecimento da fiscalização ambiental. Diante de representantes do governo e de membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, a OTCA, Lula afirmava que “enquanto o desmatamento pode enriquecer uma ou duas pessoas, não desmatar ajuda o Brasil, a Amazônia e o mundo”.
A mais de 2 mil quilômetros da capital federal, à beira do Rio Xingu, Flávio Bolsonaro seguia na direção oposta, prometendo entregar títulos de terras àqueles que ocupam áreas que não estão regularizadas. O Zero Um recorreu a uma desinformação frequente e tentou associar a política fundiária do governo Lula a uma suposta restrição ao direito de propriedade.
“Por que que o PT não quer a propriedade privada? Porque eles exploram essas pessoas mais humildes que produzem alguma coisa e são obrigadas a dar uma parte de volta para o movimento social deles ou para o próprio governo”, afirmou.
O senador não explicou a que mecanismo ou política pública se referia. Atualmente não existe nenhuma norma federal que obrigue produtores rurais a destinar parte de sua produção a movimentos sociais ou ao governo.
A ausência de explicação não pareceu importar à plateia. “O governo Lula é tão ladrão que até a bandeira do Brasil eles querem roubar”, emendou o pré-candidato. A plateia entoou um desgastado “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão”.
Antes de Flávio, discursaram o presidente do Sindicato Rural de Altamira, o Siralta, Jorge Gonçalves, o pecuarista e pré-candidato à Assembleia Legislativa, Mázio Bandeira, e Éder Mauro, que disputará o Senado. Todos criticaram as ações dos órgãos ambientais na região e depositaram em Flávio Bolsonaro a esperança para reverter esse quadro.
“Infelizmente, todos os sonhos construídos nessas famílias estão sendo atropelados e destruídos por um governo que não respeita e que não enxerga a nossa região. Hoje, a sua presença aqui nos traz a esperança de renovação e de dar continuidade”, afirmou Jorge Gonçalves.
Presença física que ameaça o Médio Xingu
A paisagem que emoldurou a visita amazônica de Flávio na corrida presidencial está longe de ser apenas um cenário. O Médio Xingu é um território em disputa. De um lado, alguns dos maiores blocos contínuos de floresta preservada da Amazônia. Do outro, uma fronteira econômica que avança sobre a mata empurrada pelo boi, pela soja, pela mineração e pela grilagem de terras públicas. Entre os dois mundos vivem povos indígenas de nove etnias, Ribeirinhos, pequenos agricultores e moradores das vilas e cidades erguidas ao longo do Rio Xingu e da Transamazônica.
Nos dez municípios da região oficialmente denominada de Polo Xingu, existem 15 Terras Indígenas, incluindo territórios com povos em isolamento voluntário, 17 unidades de conservação e milhões de hectares de floresta que ainda resistem.

Foi nessa região que a ditadura empresarial-militar prometeu “integrar” a Amazônia ao restante do país com a abertura da BR-230, mais conhecida como Transamazônica, cujas obras foram inauguradas com a morte de uma castanheira. Altamira, transformada em marco zero da estrada, tornou-se símbolo desse projeto de ocupação que continua cobrando sua conta ambiental.
Voltado para Éder Mauro, Flávio evocou o fantasma da rodovia:
“Eu não vou admitir, Éder, que um povo que veio para cá em todos esses municípios aqui do Eixo da Transamazônica, que vieram incentivados pelo governo para garantir que a Amazônia fosse do Brasil… são vocês que garantem que a Amazônia é nossa, a terra é de vocês”, repetindo o ideário do autoritarismo militar que trazia em sua camiseta.

Entre 1985 e 2024, mais de 3,2 milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em pastagens nos municípios do Médio Xingu, segundo dados do MapBiomas compilados por SUMAÚMA. Uma área maior que a Bélgica. Hoje há mais bois do que gente ocupando essa paisagem.
Durante o governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, o Médio Xingu perdeu cerca de 684 mil hectares de floresta, maior concentração de destruição da floresta desde 2008 em um único governo, segundo mostram os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe.
Depois da posse de Lula, em 2023, Ibama, ICMBio, Funai e Força Nacional retomaram ações de fiscalização na região. A Operação Curupira, mais presente nessa região, já realizou mais de 1,7 mil fiscalizações. No mesmo período, mais de mil áreas foram embargadas, onde está proibido qualquer tipo de atividade agrícola ou de mineração.
Nas decisões recentes da Justiça Federal e do Supremo Tribunal Federal foi determinado que o governo apresente cronogramas para retirar os ocupantes ilegais da Terra Indígena Cachoeira Seca e do assentamento Terra Nossa para assegurar os direitos dos Indígenas Arara e dos agricultores assentados legalmente. Segundo a organização internacional Human Rights Watch, a demora do Estado em executar essas medidas permitiu o avanço da grilagem, da pecuária e do desmatamento na região. Em relatório publicado em 2025, a organização apontou que fazendas instaladas ilegalmente em Cachoeira Seca e Terra Nossa abasteceram esquemas de “lavagem de gado”, nos quais animais criados em áreas protegidas ou destinadas a pequenos agricultores eram transferidos para propriedades regulares antes de serem vendidos a frigoríficos, ocultando sua origem ilegal.
Desmatamento no Médio Xingu
Entre 2019 e 2022 os dez municípios da região registraram as maiores taxas de desmatamento na gestão de um único governo

Médio Xingu compreende os municípios do Polo Xingu: Altamira, Anapu, Brasil Novo, Medicilândia, Pacajá, Placas, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Uruará e Vitória do Xingu.
Uma zona de conflito
Dias antes da visita do senador, caminhões contratados pelo ICMBio para transportar gado apreendido dentro da Estação Ecológica da Terra do Meio foram cercados por moradores da região. As carrocerias foram abertas, e os animais, libertados. As imagens se espalharam pelas redes sociais e rapidamente passaram a circular entre lideranças ruralistas e influenciadores ligados ao bolsonarismo como símbolo da resistência às operações federais.
O episódio não foi isolado. Em 15 de maio, parte das mesmas lideranças havia se reunido diante da sede da Funai para protestar contra a operação de demarcação física da área ampliada da Terra Indígena Paquiçamba, território do povo Yudjá-Juruna na Volta Grande do Xingu. A ampliação da Terra Indígena foi reconhecida como medida compensatória pelos impactos provocados por Belo Monte, mas tornou-se um novo foco de conflito fundiário na região com a expulsão de pessoas que permaneciam na área demarcada.
Pouco mais de duas semanas depois, em 6 de junho, lá estavam eles novamente no Fórum da Transamazônica, que reuniu lideranças ruralistas, políticos conservadores e representantes da direita nacional em Altamira contra as ações de proteção e fiscalização ambiental. Entre os convidados estavam o ex-ministro nos governos do PT Aldo Rebelo, agora convertido ao bolsonarismo e à pauta ruralista; o cientista político Christian Lohbauer, um dos fundadores do Partido Novo; e Silvia Waiãpi, ex-deputada federal e ex-secretária de Saúde Indígena do governo de Jair Bolsonaro – uma Indígena que não é reconhecida como representante pelas lideranças dos povos tradicionais.
O fórum também serviu como ponto de partida para mobilizar a visita de Flávio Bolsonaro a Altamira. Alguns dos nomes convidados permaneceram na cidade nos dias seguintes. Silvia Waiãpi participou de atos ao lado do influenciador Thiago Freitas e de Marth Uchôa distribuindo adesivos com as imagens de Flávio e Jair Bolsonaro acompanhadas da frase “Fechado com Flávio Bolsonaro em 2026”.

O ICMBio, que tem atuado na retirada de gado ilegal de áreas de preservação, informou que “existe um grande desafio em relação à desinformação que é propagada por lideranças, grupos políticos e até mesmo pessoas vinculadas ao setor agroprodutivo”. O órgão ambiental diz que essas situações têm gerado “um clima de tensão”. Sobre a interceptação e liberação do gado apreendido na Terra do Meio, o órgão informou que a Polícia Federal está apurando os fatos.
O órgão ambiental relatou que os ocupantes dessas localidades “não estão obedecendo medidas administrativas aplicadas pelo Instituto, como termos de embargo [proibição do uso da área desmatada ou ocupada irregularmente], além de estarem cometendo mais desmatamento a fim de abrir novos pastos”.
O que Flávio Bolsonaro encontrou na sua passagem pela Amazônia não foi somente uma plateia, mas um verdadeiro exército que impede o trabalho da fiscalização, protesta contra o reconhecimento das Terras Indígenas e que aposta todas as fichas em mais afrouxamento das leis ambientais. Apesar de a campanha presidencial não ter começado oficialmente, naquele dia, entre o Xingu e o Guamá, o Zero Um pôs na mesa um velho projeto de nação produtor de ruínas em uma Amazônia em que o “nossa” é de muitas outras pessoas.
Nota da edição: esta reportagem foi atualizada às 10h20 do dia 24 de junho de 2026 para remover a fotografia que mostrava um homem ao microfone no palco do evento do qual Flávio Bolsonaro participou em Altamira no dia 11 de junho de 2026. A legenda o identificava erroneamente como Jorge Gonçalves, presidente do Sindicato Rural de Altamira, o Siralta.

Reportagem e texto: Fábio Bispo e Guilherme Guerreiro Neto
Edição: Fernanda da Escóssia
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: Sarah J. Johnson
Edição em inglês: Jonathan Watts
Infográficos: Rodolfo Almeida
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum



