Agroecologia é o caminho
I Escola de Agrofloresta do Semiárido fortalece a agroecologia nos territórios de Reforma Agrária
Iniciativa reuniu militantes do Nordeste e Minas Gerais na ampliação de práticas agroecológicas, em convivência com o Semiárido e o Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis

Por Morgana Souza | Coletivo de Comunicação do MST
Da Página do MST
Baraúna, jurema e aroeira
Ingazeira, jucá e marmeleiro,
Feijão bravo, pedreiro e catingueira,
Barriguda, algaroba e umbuzeiro.
Esse é só o começo do inventário
Que avistei ao passar pelo cenário
Que pisou o meu povo antigamente.
Ao sentir a floresta pelo chão,
Constatei sob a minha inspiração
Que a floresta, hoje, é a gente.”
(Caio Meneses)
De 1 a 5 de julho, militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de todos os estados do Nordeste, além de Minas Gerais, participaram da Iª Escola de Agrofloresta do Semiárido, no Centro de Formação Elizabeth e João Pedro Teixeira, em Lagoa Seca, na Paraíba. O local é um espaço de formação voltado ao fortalecimento da agroecologia e da Reforma Agrária Popular em territórios do Semiárido.
A atividade reuniu cerca de 50 participantes, entre coordenação político pedagógica, educandos, educadoras e técnicos para aprofundar conhecimentos sobre sistemas agroflorestais, a realidade socioambiental da região e estratégias de ampliação do Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis nos territórios.
A programação articulou momentos de estudo, seminários, práticas de campo, intercâmbio de experiências e atividades culturais. Entre os temas debatidos estiveram a conjuntura agrária e ambiental, a formação histórica do Semiárido, os princípios da agrofloresta, os desafios da crise climática e as estratégias para fortalecer a produção de alimentos saudáveis nos assentamentos e acampamentos.


Nos primeiros dias da formação, os educandos refletiram sobre a questão ambiental a partir da conjuntura política nacional e internacional, relacionando os impactos do avanço do agronegócio, da concentração fundiária e das mudanças climáticas sobre os territórios camponeses. Também foram apresentados os objetivos do Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis como ferramenta de enfrentamento à crise ambiental e no fortalecimento da soberania alimentar.
Outro momento de destaque foi o debate sobre o Semiárido, a Caatinga e a formação social do campesinato nordestino, reafirmando a necessidade de romper com a visão historicamente construída de que a região é marcada apenas pela escassez. A discussão destacou a riqueza ecológica da Caatinga, os saberes acumulados pelas comunidades e as potencialidades da convivência com o Semiárido.
A formação também contou com atividades práticas voltadas à implantação e ao manejo de sistemas agroflorestais, permitindo que os conhecimentos debatidos em sala fossem vivenciados coletivamente. As visitas de campo e os intercâmbios fortaleceram a troca de experiências entre os diferentes estados, contribuindo para a construção de estratégias comuns de organização da produção agroecológica.


Atividades práticas e de campo
As práticas foram realizadas em um lote de um hectare no assentamento Quebra Quilo, em Campina Grande (PB), onde a turma implantou um sistema agroflorestal voltado à produção de forragem para alimentação animal. Entre as espécies cultivadas estiveram mulungu, catingueira, angico, aroeira e gliricídia, entre outras adaptadas às condições do Semiárido. Organizados em quatro estações de trabalho, os participantes realizaram atividades de manejo, plantio, poda e implantação de cerca viva, colocando em prática os conhecimentos construídos ao longo da formação.
Essa troca de saberes também evidenciou a diversidade dos territórios que compõem o Semiárido brasileiro e a importância de compreender suas especificidades. Para a educanda Paula, do MST de Minas Gerais, a Escola representou uma oportunidade de aprofundar um debate que vem sendo construído no estado, reconhecendo que parte significativa do território mineiro também integra o Semiárido.
“Para nós, de Minas Gerais, foi muito importante participar da I Escola de Agrofloresta do Semiárido, porque temos buscado aprofundar esse debate dentro do MST, entendendo que boa parte do nosso território também faz parte do Semiárido e precisa de um olhar diferenciado sobre como pensar o desenvolvimento e a organização da produção nesse território. Conhecer as políticas específicas, os arranjos produtivos e os manejos próprios dessa realidade fortalece nossa atuação.”
Segundo Paula, a formação ampliou a compreensão sobre a diversidade do Semiárido e fortaleceu a construção coletiva entre os estados.
“Ter a oportunidade de estar aqui junto com os estados do Nordeste, fazendo essa reflexão em conjunto, entendendo que Minas Gerais também compõe o Semiárido, é muito importante. Voltamos para nosso estado com o desafio de ampliar esse debate, compreendendo que temos um Semiárido diverso, com Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, e que essa realidade exige formas próprias de produzir, conservar a natureza e organizar nossos territórios.”

Para Matheus Mendes, da Executiva Nacional do Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis, a realização da Escola representou um marco para o Movimento na região.
“A I Escola de Agrofloresta do Semiárido representa um passo histórico na construção da Reforma Agrária Popular e na consolidação do Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis nos estados da região. Mais do que um espaço de formação, a Escola reafirma que a agrofloresta ocupa um lugar estratégico na disputa por um novo modelo de desenvolvimento para o Semiárido brasileiro, baseado na soberania alimentar, na restauração dos territórios e na organização popular.”
Segundo ele, a atividade consolidou uma compreensão construída coletivamente entre os participantes: diante da crise climática, da desertificação, da concentração fundiária e do avanço do agronegócio sobre os bens comuns da natureza, plantar árvores e produzir alimentos saudáveis constitui uma ação profundamente política.
Matheus destacou ainda que a atividade reafirmou uma perspectiva histórica defendida pelos povos do Semiárido, de que esse território não é condenado pela seca, como historicamente se tentou fazer acreditar. “É um bioma rico em biodiversidade, conhecimento popular e capacidade produtiva. O verdadeiro problema sempre foi o modelo de desenvolvimento imposto à região, que concentra terra, água e riqueza, enquanto aprofunda as desigualdades sociais e ambientais. A agrofloresta surge, nesse contexto, como expressão concreta da convivência com o Semiárido, articulando produção, restauração ambiental, geração de renda e fortalecimento das comunidades.”

Ao longo da programação, a Iª Escola de Agrofloresta do Semiárido consolidou-se como um importante espaço de formação política e técnica para fortalecer a produção agroecológica, ampliar o Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis e fortalecer a organização popular nos territórios da Reforma Agrária.
Ao reunir militantes de diferentes estados e promover o intercâmbio de conhecimentos, a iniciativa reafirmou a agrofloresta como estratégia de convivência com o Semiárido e de construção da Reforma Agrária Popular, baseada na soberania alimentar, na recuperação ambiental e na organização coletiva dos povos do campo.
*Editado por Solange Engelmann



