Programa de Agroecologia
4º Seminário fortalece integração do Programa Popular de Agroecologia na Bacia do Vale do Rio Doce
O objetivo é fortalecer a integração entre as ações desenvolvidas pelo Programa, acolher quem está chegando e aprofundar o debate sobre a retomada econômica agroecológica dos assentamentos

Por Iris Pacheco
Da Página do MST
Nesta terça-feira (14), o MST em Minas Gerais realizou o 4º Seminário de Integração do Programa Popular de Agroecologia na Bacia do Vale do Rio Doce. A atividade aconteceu no Centro de Formação Francisca Veras (CFFV) no assentamento Oziel, município de Governador Valadares e reuniu representantes de todos os projetos que compõem os eixos de educação, ambiental e produtivo do Programa, além da direção regional do MST.
Ao falar da construção do Programa Popular de Agroecologia na Bacia do Vale do Rio Doce, Silvio Neto, da coordenação do MST, afirmou que “a maior pena do capital é fortalecer um projeto antagônico ao dele”. Segundo ele, são ações coletivas como essa que garantem a construção de um projeto emancipador diante dos crimes cometidos pelo modo de produção capitalista.
O seminário teve como objetivo fortalecer a integração entre as ações desenvolvidas pelo Programa, acolher quem está chegando ao processo e aprofundar o debate sobre a retomada econômica agroecológica dos assentamentos do Vale do Rio Doce.

Maíra Santiago, do setor de Produção do MST no estado mineiro e coordenadora do Programa, reafirmou o caráter antagônico da iniciativa diante da ofensiva do capital na região e explicou como ela atua.
“O Programa Popular de Agroecologia agrega três eixos de atuação: o ambiental, com ações da cadeia da restauração florestal; o educacional, com o fortalecimento da formação em agroecologia; e o produtivo, com o fortalecimento do cooperativismo, da cadeia produtiva da hortifruticultura e da transição agroecológica, fortalecendo a Reforma Agrária Popular.”

Para avançar nessa estruturação, é fundamental que as equipes técnicas conheçam melhor o território em que irão atuar. Diante disso, entrou em pauta o estudo sobre os aspectos históricos da luta pela terra na região e os desafios da construção da Reforma Agrária Popular nesse contexto.
A luta pela terra no Vale do Rio Doce (MG)
Historicamente, a região é marcada por violentos conflitos entre camponeses, grandes latifundiários e empresas do capital. Desde a década de 1950, posseiros e povos indígenas foram expulsos de seus territórios para dar lugar à expansão da pecuária e da mineração. Com o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da organização do MST, o Vale do Rio Doce tornou-se símbolo de resistência, com a criação de diversos assentamentos da Reforma Agrária.
A cidade de Governador Valadares é considerada um polo regional e, desde o período do Brasil Império, consolidou-se sob a lógica do coronelismo e da grilagem de terras. “Existiu uma estrutura pensada e militarizada pelo Império para a manutenção do poder político e econômico na região”, lembrou o historiador Igor Santos.

Nas décadas de 1950 e 1960, leis estaduais legitimaram a apropriação de terras devolutas por latifundiários, resultando na expulsão em massa de milhares de famílias posseiras, muitas das quais passaram a compor as periferias urbanas. Em 1964, milícias de fazendeiros destruíram o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Governador Valadares e o jornal O Combate (1958–1964), em um episódio que antecedeu o Golpe Militar e inaugurou um longo período de perseguição aos trabalhadores e trabalhadoras rurais na região. “Com o golpe e a ditadura militar, intensificou-se a ofensiva do coronelismo na região”, salientou Brasilino Moreira, da coordenação regional do MST.
A partir da década de 1980, o MST, com o apoio da CPT, organizou ocupações históricas na luta pela terra, como a da Fazenda Califórnia e a Fazenda do Ministério, entre Tumiritinga e Governador Valadares, que deu origem a assentamentos como o 1º de Junho e o Oziel. “Essa é uma região marcada pela violência da ditadura, mas também recebeu muito apoio de diversas organizações”, ressaltou Marília Medeiros, uma das primeiras educadoras em assentamentos da Reforma Agrária em Minas Gerais.
Mais recentemente, sobretudo após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015, o histórico de expropriação fundiária passou a se somar à luta contra grandes corporações e seus megaprojetos na região. Comunidades tradicionais, camponesas, povos indígenas e quilombolas enfrentam os impactos ambientais e territoriais provocados pelos crimes de empresas como a Vale.
É o caso desse crime socioambiental cometido pela Samarco, Vale e BHP Billiton, que comprometeu profundamente a subsistência econômica, social e cultural das comunidades rurais e ribeirinhas ao longo de mais de 600 quilômetros da bacia do Rio Doce. A destruição impôs uma ruptura drástica no modo de vida dessas populações.
É nesse contexto que o MST amplia a construção da Reforma Agrária Popular e fortalece a luta pela terra, reivindicando que os crimes cometidos contra os povos e seus territórios sejam responsabilizados como tal. Defende, ainda, que esses territórios são espaços coletivos e, por isso, demandam projetos de fortalecimento igualmente coletivos.
*Editado por Solange Engelmann



