Crônica

Carta de um amigo Sem Terra para a camarada Dona Maria

Dona Maria era a expressão do sentido da palavra Afeto. Uma pessoa amada por muitos e que amava muito: as pessoas, a terra, a natureza e a luta pela qual ela viveu

Nossa companheira Dona Maria faleceu aos 72 anos, nesta quarta-feira, dia 22 de julho, no assentamento Contestado. Foto: Joka Madruga 

Por Cristiano Czycza*
Da Página do MST

Que triste receber essa notícia da partida da Dona Maria, estando longe, em Fortaleza (CE). Dona Maria, a sempre encantada, encantadora, agora desencantou, ou melhor, foi encantar em outro plano.

Dona Maria esteve acampada no primeiro acampamento que eu vivi, quando eu ainda tinha um ano de idade, lá em Inácio Martins (hoje assentamento José Dias). Depois passei por outros acampamentos até chegar na Copavi. Assim como ela, até chegar no assentamento Contestado, na Lapa.

Encontrava ela nos encontros do movimento no Paraná. Sempre fiquei admirado com sua postura em defesa da agroecologia e da saúde. 

Bem mais tarde, quando estava em tarefas do MST em Curitiba, pude conviver um pouco mais de perto com ela. E minha admiração só aumentou pela sua perseverança na luta, pelo cuidado, por defender a saúde popular, por defender a agroecologia como projeto e prática, pois como ela dizia: a saúde começa na boca, pelo que comemos e bebemos.

Como não lembrar de Dona Maria dizendo nos espaços: “tomem água”,  e nos corredores: “tá bebendo água?”. Como não lembrar de Dona Maria com seus chás, da sua preocupação nos encontros e jornadas se estávamos com o corpo bem, para passar no espaço da saúde e ser atendidos por uma massagem, reiki, auriculoterapia, ou mesmo ter um tempo de descanso e partilhar uma boa conversa (que também cura). 

Como não lembrar da sua presença garantida nas jornadas de lutas, reuniões, jornadas de solidariedade, do seu mel e açafrão “milagroso”.

Dona Maria era a expressão do sentido da palavra Afeto. Era a pessoa que distribuía e recebia afeto por onde passava. Uma pessoa amada por muitos e que amava muito: as pessoas, a terra, a natureza e a luta pela qual ela viveu. Sim, ela fazia e dedicava amor em tudo. Talvez Che Guevara tenha conhecido pessoas como Dona Maria, quando disse que “um verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor”.

Acredito que seu encantamento para outra dimensão deixa em cada um de nós Sem Terra, e todas as demais pessoas que te conheceram, a sensação que estou tendo agora: “Porque já? Queria poder aproveitar mais um pouco da grandeza que é compartilhar a vida e a luta com Dona Maria. Mais uma vez te ver em uma jornada ou encontro com seu sorriso, por estar satisfeita cuidando do seu povo.”

Haaaa Dona Maria, as despedidas nunca são fáceis. Principalmente aquelas, de pessoas como você, que nos fazem ter o prazer e o privilégio de ter conhecido, conviver e lutar lado a lado. Mas a despedida agora é apenas presencial, pois você permanecerá em nós, nesse grande Movimento que você ajudou a criar e trazer até aqui. 

Ficaremos com as lembranças, com seu exemplo e prática, de quem sempre acreditou que sim é possível construir um mundo novo. Vá em paz Dona Maria. Aqui ficaremos também, pois você estará presente em cada terra ocupada, em cada assentamento conquistado, em cada cooperativa, escola, centro de formação, em cada alimento agroecológico e planta medicinal  cultivados, em cada mística, toda vez que  a bandeira do MST for hasteada e nosso hino entoado.

Me permito usar e adaptar Bertold Brecht:

 “Há aqueles e aquelas que lutam um dia; e por isso são bons e boas;

Há aqueles e aquelas que lutam muitos dias; e por isso são muito bons e boas;

Há aqueles e aquelas que lutam anos; e são melhores ainda;

Porém há aqueles e aquelas que lutam toda a vida; esses  e essas são os e as imprescindíveis.”

Assim foi você: Uma mulher Sem Terra imprescindível.

*22/07/2026, Fortaleza (CE) Cris, militante Sem Terra.

**Editado por Fernanda Alcântara