Educação

Alfabetizar é organizar, é lutar, é transformar

Neste Dia Internacional da Alfabetização, saudamos todas e todos que fazem parte da Campanha de Alfabetização Fred M’Membe, construída na Zâmbia com a solidariedade internacionalista do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

Foto: Brigada Samora Machel

Por Brigada do MST na Zâmbia*
Da Página do MST

Há cinco anos, uma decisão política foi tomada: não esperar.

Não esperar que o Estado resolvesse aquilo que historicamente foi negado ao povo. Não esperar condições ideais, salas equipadas ou grandes recursos. Decidimos começar com o que tínhamos, com o povo e a partir das necessidades concretas do povo.

Mas, para alfabetizar na Zâmbia, não bastava simplesmente reproduzir uma experiência construída em outro país. Era necessário conhecer a realidade, ouvir as comunidades, compreender suas formas de falar, suas histórias e seus modos de aprender. Foi nesse processo que começamos também a construir um método próprio de alfabetização.

De “Yo, sí puedo” a “Falar, Ler, Escrever as Palavras e o Mundo”

No início do diálogo entre o MST e o Partido Socialista de Zâmbia, uma das principais referências foi o método cubano “Yo, sí puedo”, uma experiência de alfabetização de jovens e adultos que demonstrou ser possível enfrentar o analfabetismo de forma massiva, organizada e com poucos recursos.

A experiência cubana nos ajudou a compreender a importância de partir de uma metodologia sistematizada, de organizar as turmas, formar educadores e utilizar recursos que facilitassem o processo de aprendizagem.

Mas, ao chegar à realidade concreta da Zâmbia, percebemos que era preciso ir além.

A Zâmbia possui uma enorme diversidade linguística e cultural. As pessoas que chegavam às nossas turmas traziam diferentes histórias, idades, experiências de trabalho e diferentes relações com a língua inglesa, que é utilizada oficialmente no sistema educacional. Não poderíamos simplesmente transportar um método de Cuba ou do Brasil e esperar que ele funcionasse da mesma maneira.

Foi então que a campanha passou a ser também um laboratório de construção coletiva.

Dialogamos com a experiência cubana, com a educação popular de Paulo Freire, com a experiência histórica de alfabetização do próprio MST e, principalmente, com os conhecimentos produzidos pelas próprias comunidades.

De Paulo Freire, reafirmamos uma ideia fundamental: ninguém educa ninguém sozinho. O processo educativo precisa partir da realidade dos sujeitos, de suas palavras, de suas experiências e da leitura que fazem do mundo.

Do MST, carregamos a compreensão de que educação e organização caminham juntas. Não basta ensinar a ler e escrever se o processo não ajuda as pessoas a compreenderem a realidade em que vivem e a se reconhecerem como sujeitos capazes de transformá-la.

E da experiência cubana aprendemos que a alfabetização pode ser uma grande tarefa nacional e popular, capaz de mobilizar milhares de pessoas quando existe decisão política, método e organização.

Foi desse encontro — entre diferentes experiências, mas também entre diferentes povos — que fomos construindo nosso próprio caminho.

Assim nasceu o método que hoje chamamos de:

“Falar, Ler, Escrever as Palavras e o Mundo”

O nome não é apenas uma frase bonita. Ele expressa a própria concepção de educação que fomos construindo.

Primeiro, falar. Porque antes de aprender a escrever, o sujeito já possui uma história, uma cultura, conhecimentos e uma leitura da realidade.

Depois, ler e escrever as palavras. Porque dominar a leitura e a escrita significa conquistar uma ferramenta fundamental de autonomia.

E, ao mesmo tempo, ler e escrever o mundo. Porque não queremos formar apenas pessoas capazes de decifrar palavras. Queremos contribuir para que o povo compreenda as relações que produzem sua realidade, identifique suas contradições e possa se organizar para transformá-la.

Por isso, o método não nasceu dentro de um escritório. Foi sendo construído nas comunidades, nas salas de aula, nas conversas, nas dificuldades e nas descobertas de cada turma.

E talvez essa seja uma das maiores conquistas desses cinco anos.

Como tenho refletido sobre essa experiência:

“Contar a história e o processo da Campanha de Alfabetização é, sem dúvidas, uma grande conquista. A primeira, por poder ser uma das maiores ousadias do MST: cruzar o oceano e alfabetizar além do oceano. E a segunda, porque se trata também de uma alfabetização pessoal, sobre o meu próprio letramento na Zâmbia.”

Porque também nós fomos alfabetizados por esse processo.

Alfabetizados por uma nova realidade, por outra língua, por outra cultura, por outras formas de organizar a vida e de compreender o mundo.

Ao longo desses cinco anos, mais de 5.000 pessoas foram alfabetizadas em quatro províncias da Zâmbia, com cerca de 350 educadores e educadoras voluntários. As aulas aconteceram em escolas comunitárias, igrejas, centros sociais e até debaixo de árvores.

Mas o mais importante não está apenas nos números.

Está na possibilidade de uma pessoa escrever seu próprio nome. De uma mulher conseguir ler uma mensagem. De um jovem compreender um texto. De uma comunidade criar seu próprio espaço de aprendizagem.

Cada palavra aprendida é também uma possibilidade de conquistar autonomia.

E é aí que a alfabetização encontra sua dimensão política: não se trata somente de combater o analfabetismo das letras, mas também o analfabetismo político que impede o povo de compreender, questionar e transformar a realidade.

Neste Dia Internacional da Alfabetização, portanto, celebramos cinco anos de campanha, mas também cinco anos de construção de conhecimento, de internacionalismo e de ousadia política.

Celebramos a capacidade de um povo ensinar e aprender com outro povo. Celebramos Cuba, Brasil e Zâmbia dialogando através da educação popular.

E celebramos, sobretudo, a certeza de que quando o povo se organiza, é possível construir caminhos mesmo onde disseram que não era possível.

Falar.

Ler.

Escrever as palavras e o mundo.

Alfabetizar é também organizar.

Ensinar é também aprender.

E aprender com o povo é construir caminhos para transformar a realidade. A campanha segue.

Primavera de setembro de 2026.

*Bet pela Brigada do MST na Zâmbia

**Editado por Fernanda Alcântara