MST debate El Niño e aponta agroecologia como resposta à crise climática
Formação do MST sobre os impactos do El Niño reuniu ciência, agroecologia e organização popular para discutir um cenário de extremos climáticos, os limites das políticas de adaptação e os caminhos para proteger a produção de alimentos

Por Vítor Peruch
Da Página do MST
Se o futuro parece distante, o clima tratou de trazê-lo para o presente. Na Amazônia, lagos chegaram a temperaturas capazes de matar dezenas de botos em poucas horas. No campo, secas, enchentes, incêndios e ondas de calor já alteram calendários de plantio, destroem lavouras e pressionam a produção de alimentos.
Foi nesse cenário que o MST realizou, na manhã deste sábado (19), a Formação Online sobre os Impactos do El Niño no Campo Brasileiro, atividade do Mutirão em Defesa da Natureza e da Democracia. O encontro reuniu a pesquisadora Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e Renata Menezes, do Coletivo de Juventude do MST, para discutir os efeitos do aquecimento global sobre o campo e as respostas necessárias nos territórios.
A urgência também aparece fora dos assentamentos. Pesquisa Ipsos encomendada pelo Observatório do Clima mostra que 91% dos brasileiros consideram importante que candidatos às eleições de 2026 apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas. Para 62%, o tema é muito importante.
O El Niño é só uma parte da história
Coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Inpe, Luciana Gatti chamou atenção para um ponto central de sua exposição: o El Niño não explica sozinho o cenário climático atual. Além do aquecimento do Pacífico, ela destacou as temperaturas elevadas do Atlântico Norte e os efeitos dessa combinação sobre a circulação atmosférica.
Na formação, Gatti apresentou dados do Climate Reanalyzer e uma previsão de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte entre setembro e novembro, com possibilidade de tempestades, ventos intensos, chuvas extremas e períodos de seca: “Não é só El Niño. Está tudo esquentando mais”, afirmou.

Para a pesquisadora, a consequência para quem vive e produz no campo é também a perda de previsibilidade dos ciclos naturais: “A gente tem que, a partir de agora, planejar a nossa vida para sobreviver, porque a mudança climática vai ficar cada vez mais intensa”, disse Gatti.
Ela defendeu que a adaptação comece pelos territórios, com planejamento para áreas sujeitas a alagamentos e deslizamentos, arborização e soluções capazes de reduzir o aquecimento das moradias.
Agrofloresta como resposta
A relação entre vegetação, produção de alimentos e regulação climática foi um dos principais pontos da exposição. Gatti explicou que as árvores retiram água do solo e a lançam na atmosfera por meio da evapotranspiração, processo que consome energia e contribui para reduzir o aquecimento da superfície.
Foi nesse contexto que a pesquisadora relacionou a experiência do MST à necessidade de uma transformação mais ampla na agricultura: “Vocês, com a agrofloresta, estão trazendo a solução para hoje e para o futuro, para a gente continuar produzindo alimento”, afirmou.
Gatti também diferenciou agrofloresta e modelos de reflorestamento voltados exclusivamente ao armazenamento de carbono. Para ela, biodiversidade, água, solo e características de cada ecossistema precisam fazer parte da recuperação ambiental: “Vocês mostram o caminho da humanidade. É a agrofloresta a solução, e a gente precisa convencer o resto do país disso”, disse.
A pesquisadora defendeu ainda uma articulação nacional para planejar a transição agrícola brasileira. Segundo ela, o agravamento das secas, do calor e dos eventos extremos poderá pressionar todo o sistema de produção e elevar o preço dos alimentos: “Eu acredito que a humanidade vai ter que caminhar para todo mundo viver em área rural”, afirmou, ao defender formas de ocupação mais integradas à natureza.

Quando o clima deixa de ser previsível
Na sequência, Renata Menezes levou a discussão para a realidade dos territórios. Sua exposição foi organizada em três frentes: os impactos já observados na agricultura e as respostas do poder público; as diferenças entre os modelos de produção; e as tarefas do MST diante da crise.
Entre os exemplos apresentados, Renata citou perdas de 70% a 80% da safra de milho sequeiro no Rio Grande do Norte, os impactos das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul e incêndios que atingiram territórios do MST em diferentes estados.
Mas, para ela, há uma perda menos visível: a dificuldade crescente de interpretar os ciclos do clima: “Essa nossa forma de ler as estações, de ler os períodos do plantio, os períodos da colheita, tudo isso vai ficando mais difícil”, afirmou.
A integrante do MST também relacionou a crise climática à biodiversidade dos solos: “Um solo que não é rico em biodiversidade tem cada vez mais dificuldade de produzir”, disse, ao criticar o uso intensivo de agrotóxicos e defender sistemas agrícolas mais resilientes.
Um projeto para enfrentar a crise
Na leitura apresentada por Renata, a discussão não pode se limitar ao fenômeno climático. A crise ambiental está relacionada ao modelo de produção e exige, segundo ela, uma disputa que combine políticas públicas, organização dos territórios e transformação da agricultura: “É preciso que a gente aponte um projeto, um projeto de superação que vai desde uma disputa mais institucional, uma disputa de projeto de país, até soluções concretas que consigam enfrentar essa crise”, afirmou.
Nesse projeto, a reforma agrária popular é apresentada pelo MST como parte da resposta climática, ao lado da produção de alimentos saudáveis, da preservação ambiental e da redução das vulnerabilidades no campo e na cidade.
Renata também questionou a capacidade das políticas públicas de chegar aos territórios. Segundo os dados apresentados na formação, apenas 23% da área agrícola brasileira acessou políticas como Proagro e seguro rural após as perdas relacionadas às enchentes de 2024, com forte concentração na região Sul. Ela citou ainda os R$ 594,4 bilhões do Plano Safra 2025/2026, dos quais R$ 78 bilhões foram destinados à agricultura familiar.
Para ela, políticas como o Planapo e o Pronara precisam ganhar escala e chegar aos assentamentos.
Seis tarefas para os territórios
Na parte final da formação, Renata apresentou seis tarefas para o MST: fortalecer políticas públicas de agroecologia e redução dos agrotóxicos; massificar a agroecologia de acordo com cada bioma; fortalecer brigadas, núcleos, escolas e mutirões; ampliar a denúncia do modelo produtivo; conectar meio ambiente, reforma agrária e alimentação saudável; e produzir diagnósticos e planos de adaptação específicos para cada território.
Sobre a segunda tarefa, fez uma ressalva direta: “Não basta somente reflorestar”, afirmou, defendendo que a recuperação ambiental combine conhecimento dos povos do campo, ciência e características de cada ecossistema.
A sexta tarefa, segundo ela, é justamente transformar conhecimento em preparação: “Mais do que ler essa realidade é como a gente vai enfrentar, como a gente vai se preparar”, resumiu.
A proposta inclui brigadas ambientais, articulação com universidades e pesquisadores e planos de adaptação construídos antes que a tragédia aconteça.
A formação terminou com a emergência climática tratada não apenas como um problema ambiental, mas como uma questão de produção de alimentos, território e organização.
A disputa, nas palavras apresentadas durante a formação, começa antes da próxima enchente, seca ou incêndio: começa na forma como se produz, se ocupa a terra e se prepara o território para um clima que já mudou.
*Editado por: Yuri Gringo



