Dia da Árvore

A vida humana na terra depende da superação do Sistema Capitalista

Confira trecho do livro "Emergência Climática" que liga a crise ambiental ao capitalismo e apresenta a Reforma Agrária Popular e o plantio de árvores como resposta

Caminhada e Ato Político em Defesa da Natureza no assentamento Egídio Brunetto, MT (Foto: MST no MT)

Gilmar Mauro e Jade Percassi
Da Página do MST

Na semana em que se celebra o Dia da Árvore, e no contexto em que o MST realiza o Mutirão Nacional em Defesa da Natureza e do Brasil, republicamos partes do texto “A Vida Humana na Terra depende da superação do sistema capitalista”, escrito por Gilmar Mauro, da Coordenação Nacional do MST, e Jade Percassi, do Coletivo Nacional de Cultura do MST. A íntegra pode ser lida no link (https://fpabramo.org.br/livro/emergencia-climatica-reflexoes-a-partir-da-classe-trabalhadora/). Diante do avanço da crise ambiental e dos extremos climáticos, é, a cada minuto, mais urgente construir outro projeto para o campo e para a sociedade, baseado na produção de alimentos saudáveis, na proteção dos bens comuns e no cuidado com a vida.

Na cosmovisão dos trabalhadores e trabalhadoras da terra, povos do campo, das águas e das florestas, a natureza e todos os elementos que compõem o ambiente não são considerados bens econômicos, mas bens comuns, e o acesso a estes um direito fundamental. Compreender que nós humanos somos parte da natureza, e não seres alheios a ela, é o ponto de partida que nos permite refletir sobre a encruzilhada histórica em que nos encontramos, e buscar soluções para possibilitar a continuidade da vida de nossa espécie.


Durante milhões de anos, na história da vida na Terra, muitos fenômenos climáticos aconteceram, afetando drasticamente a biodiversidade. Erupções vulcânicas, períodos glaciares, aquecimento global drástico, e mesmo aos asteroides que extinguiram os dinossauros, muitas espécies sobreviveram. No entanto, a ciência tem cada vez mais apontado que, diferentemente de outras
eras, as catástrofes deste novo milênio surgem como consequências inevitáveis de um sistema econômico que prioriza o crescimento e o lucro sobre a sustentabilidade e o bem-estar ambiental.
As atividades econômicas impulsionadas pelo capitalismo, como a industrialização, o desmatamento e a exploração desenfreada de recursos naturais, vêm causando impactos profundos e variados no meio ambiente, contribuindo para o aumento das temperaturas globais e alterações nos padrões climáticos, exacerbando desigualdades e injustiças ambientais. Os
impactos da destruição da natureza afetam desproporcionalmente as populações mais vulneráveis e pobres, que têm menos recursos para se adaptar ou mitigar os danos. As dezenas de mortes ocasionadas pelas chuvas no Litoral de São Paulo, as milhares de famílias desabrigadas pelo ciclone extratropical no Rio Grande do Sul, a seca no Pantanal e incêndios na Amazônia são resultado da falta de políticas efetivas de prevenção e adaptação que evidenciam a emergência de agirmos frente às mudanças climáticas em curso.


As Conferências das Partes (COP) das Nações Unidas sobre Mudança Climática foram instituídas para a definição de estratégias e parâmetros para a mitigação das crises ambientais, especialmente em relação às mudanças climáticas. Apontaram medidas a serem tomadas, como o aumento do financiamento climático para países em desenvolvimento e transição justa para
economias de baixo carbono, e metas visando a diminuição da emissão de gases de efeito estufa – em 50% até 2030 e 100% até 2050.


Apesar dos esforços mobilizados, temos razões para acreditar que nada disso vai acontecer, em razão da predominância dos interesses econômicos do capitalismo. Para mitigar o processo de devastação em curso, seria necessário rever todas as tecnologias da Segunda Revolução Industrial, repensar a produção de mercadorias e o consumo. Mas o capital, para acumular e se
expandir permanentemente, precisa avançar sobre a natureza de forma predatória, e assim tem sido: com a exploração devastadora de territórios e recursos naturais em todo o mundo.
(…)


Em 2020, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra criou o Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis. Trata-se de uma iniciativa para contribuir com a recuperação ambiental, conjuntamente com a potencialização da produção de alimentos saudáveis nos territórios da Reforma Agrária, com a meta de 100 milhões de árvores em dez anos. Desde
então, famílias assentadas e acampadas têm plantado árvores nativas, frutíferas, ornamentais, hortaliças, medicinais, nas escolas do campo, cooperativas, centros de formação, praças; construindo a rede de viveiros da Reforma Agrária e recuperando áreas degradadas e nascentes.
Sabemos que uma empreitada como esta, embora de extrema importância, não será suficiente para resolver os problemas ambientais do país. No entanto, além da dimensão simbólica, de dar visibilidade à questão ambiental e sua relação com o modo de produção no campo, este processo de envolvimento das pessoas tem uma incidência sobre a mudança cultural necessária. Estamos plantando cuidado, como aprendemos com Paulo Freire; é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos.


Além do cuidado com a natureza, a atualidade da Reforma Agrária Popular está precisamente no papel que tem a cumprir para garantir a viabilidade da sobrevivência humana. O programa elaborado e defendido pelo MST é fundamentado no enfrentamento à fome e às desigualdades sociais através da agroecologia, cooperação e coletivização dos bens comuns. Trata-
se de uma mudança de paradigma de desenvolvimento, para fortalecer a cultura e a soberania alimentar com sustentabilidade ambiental. Além da reconversão de fábricas de tudo aquilo que não é essencial, é preciso direcionar esforços para agroindústrias, reciclagem e redução de utensílios de uso único, transformação de lixo orgânico em bioinsumos; otimização logística
e desconcentração das cidades. Tudo isso requer decisão política.

O texto é um capítulo do livro “Emergência Climática: Reflexões a partir da classe trabalhadora”, publicado pela Fundação Perseu Abramo e pela Editora Hucitec em 2025. Leia completo aqui.