“A Monsanto manipulou dados científicos para vender seus pesticidas”

Confira entrevista com Aurore Gorius

Foto: Agência Brasil

Do IHU

Estudos falsos, cientistas ameaçados e silenciados… A Monsanto usou intenso lobby para manter as vendas de seu pesticida nocivo. Um escândalo relatado pela jornalista Aurore Gorius (texto) e por David Lopez (ilustração) no romance gráfico La Bataille du glyphosate. Au cœur de la machine à influencer (Éditions Steinkis, 2026, 152 p.)

A entrevista é de Emmanuel Clévenot, publicada por Reporterre, 17-09-2026. A tradução é do Cepat.

É o pesticida mais usado no mundo. Na França, Emmanuel Macron prometeu em 2017 proibir o uso do glifosato “em no máximo três anos”. Quase uma década depois, o país continua sendo o maior consumidor europeu desse herbicida carro-chefe da Monsanto, comercializado sob o nome de Roundup.

Este agrotóxico foi classificado como “provavelmente cancerígeno para humanos” já em 2015 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Por que ainda estamos em um impasse após anos de mobilização cidadã e estudos científicos que pedem a proibição deste pesticida tóxico?

Disponível nas livrarias a partir de 17 de setembro, o romance gráfico A batalha do glifosato narra esse colossal escândalo político e de saúde pública. Ilustrada por David Lopez, esta pesquisa mergulha os leitores no funcionamento interno de um cruel lobby industrial, onde apenas os interesses econômicos importam, explica a autora, a jornalista Aurore Gorius.

Eis a entrevista.

Os primeiros dados científicos alertando para a provável natureza cancerígena do glifosato remontam a 1983. E, apesar disso, na mente de muitos políticos e agricultores, a dúvida persiste quase 50 anos depois. Como chegamos a este ponto?

Este é precisamente o foco desta investigação. Já na década de 1980, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos questionou a natureza cancerígena do glifosato e concluiu que ele era perigoso. Mas este estudo foi abafado e nunca foi divulgado. O fabricante deste pesticida, a Monsanto, conseguiu que ele fosse mantido sob sigilo. Eles encomendaram um estudo paralelo usando os mesmos sujeitos de teste e identificaram vieses – um dos ratos estava doente. O resultado: o alerta foi varrido para debaixo do tapete.

Isso nos dá um primeiro vislumbre da estratégia da empresa para comercializar seu produto a qualquer custo. Chama-se fabricação da dúvida. Uma arma formidável e testada, que em questionar constantemente os resultados de estudos que possam prejudicá-los. Mas não para por aí! Essas empresas agroquímicas também constroem uma pseudociência.

Como elas conseguem isso?

Cientistas renomados são generosamente pagos para assinar estudos fraudulentos nos quais nunca trabalharam. Essa prática, conhecida como ghostwriting (“escrita fantasma”), é amplamente utilizada pela indústria, especialmente nos setores do tabaco e dos hidrocarbonetos. O escândalo dos Monsanto Papers, envolvendo o glifosato, veio à tona.

Em 2017, milhões de documentos internos da empresa foram desclassificados a pedido do Departamento de Justiça dos EUA, após ações judiciais movidas por vítimas e jornalistas que exigiam o acesso eles. Entre eles, havia evidências de que, em troca de grandes somas de dinheiro, pesquisadores adicionavam seus nomes ao final de estudos completamente truncados, escritos pela Monsanto. Para que fique claro: embora possa parecer ciência, não é. Na verdade, é justamente o oposto, já que seu objetivo é destruir a ciência por meio da dúvida.

Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) – vinculada à OMS – classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno para humanos”. Na sequência disso, seus especialistas foram intimidados pela empresa.

Essa classificação foi um ponto de inflexão crucial no caso. Uma bomba para a Monsanto. Nunca antes a carcinogenicidade do glifosato havia sido tão claramente estabelecida. Poucos dias depois, a empresa enviou uma carta ameaçadora ao Diretor-Geral da OMS, chamando o trabalho da agência de “ciência podre”.

E os cientistas por trás dessa decisão também não foram poupados. Eram cerca de quinze, de diferentes países, e todos foram pressionados com ameaças veladas de ações judiciais. Cartas extremamente ameaçadoras de advogados, exigindo que entregassem todos os seus dados à Monsanto, foram enviadas a eles.

Essa é outra dimensão da estratégia usada por essa gigante para silenciar os pesquisadores. Alguns deles até se recusaram a aparecer no romance gráfico, por medo de represálias. Outros relataram que a Monsanto tentou prejudicar sua reputação e credibilidade científica por meio de campanhas online extremamente agressivas e do uso de contas falsas.

Esse lobby também ocorre em Bruxelas, para influenciar as decisões da União Europeia. Você menciona especificamente um contrato de mais de 14 milhões de euros assinado em 2016 pela Monsanto com a agência de comunicação FleishmanHillard.

Sim, em troca de uma vasta campanha de influência. Uma das técnicas usadas por essa agência estadunidense consistiu em criar peças de falsos protestos espontâneos. A agência tinha como alvo agricultores, como os presentes no Salão Internacional da Agricultura de Paris, e os recrutava sem o seu conhecimento, apresentando-se ostentando o lema “Agricultura e Liberdade”. Sua ligação com a Monsanto nunca foi mencionada. Em seguida, eles eram contatados novamente para assinarem petições e artigos de opinião. A agência os ajudava a criar contas no Twitter e enviava mensagens prontas para publicação.

Isso ocorreu em um contexto particularmente tenso, à medida que se aproximava a votação da Comissão Europeia sobre a renovação da autorização de comercialização do glifosato.

A Monsanto utilizou todos os meios possíveis para exaltar as virtudes de seu pesticida. Deve-se dizer que funcionou. Em 2017, o glifosato foi renovado por cinco anos. Em 2023, por dez anos, mesmo com o acúmulo contínuo de dados científicos que demonstravam sua nocividade. Isso prova claramente que todas essas estratégias são eficazes.

Os lobbies da indústria agroquímica são numerosos e estão firmemente entrincheirados nas instituições europeias. Eles estão presentes desde o início da construção da União Europeia. A Comissão tem se apoiado fortemente neles para consolidar seu poder. Isso é frequentemente esquecido, pois a história da integração europeia nos é apresentada de forma diferente: prevalece a ideia de um projeto de paz, mas o fato é que a indústria ocupa um lugar central dentro dele. Ela é amplamente consultada e participa da construção das decisões, apesar dos conflitos de interesse que apresenta em cada caso. Enquanto isso, a ciência acadêmica e as ONGs lutam para fazer com que suas vozes sejam ouvidas.

Essa fabricação de dúvidas também se exerce sobre as vítimas. O romance gráfico narra especificamente a história de Jean-Claude Terlet, um viticultor da região de Aisne, que sofria de câncer de próstata.

Em 2015, ele foi submetido a uma cirurgia para tratar o câncer de próstata. Ele havia usado herbicidas à base de glifosato por cerca de trinta anos para tratar suas plantações. Dois anos depois, em 2017, ele entrou com um processo contra a Monsanto por “envenenamento” para obter indenização. O processo judicial se transformou em um verdadeiro calvário.

Após fornecer provas incriminatórias, documentando sua doença e sua exposição ao glifosato, iniciou-se uma batalha de opiniões de especialistas. Ele foi convocado para inúmeras sessões de contra-perícia em todo o país pelos advogados da Monsanto. Ele suportou experiências extremamente desagradáveis, foi submetido a intimidação e teve que se submeter a testes degradantes. Ele é suspeito de não ter fornecido sua própria urina, então é forçado a urinar na frente de especialistas.

Isso já dura quase dez anos! Hoje, diz estar exausto, sentindo-se como se estivesse lutando contra Golias. Ele está sozinho e, estando doente, é difícil lidar com um gigante como esse. Infelizmente, este não é um caso isolado. É muito difícil para as vítimas obterem indenização, como demonstra a luta da família Grataloup [cujo filho, Théo, sofre de malformações congênitas que eles atribuem ao glifosato].

Nos Estados Unidos, o grupo Bayer – que adquiriu a Monsanto em 2018 – chegou a assinar um acordo de US$ 7,25 bilhões (aproximadamente € 6 bilhões) em fevereiro para encerrar esses processos.

Logo após essa aquisição, dezenas de milhares de processos contra a Monsanto continuaram a ser movidos nos Estados Unidos. Lá, diferentemente da França, os tribunais podem conceder indenizações enormes. Um jardineiro com câncer, Dewayne Johnson, recebeu US$ 20 milhões [aproximadamente € 17 milhões] em indenização. Essas decisões preocuparam a Bayer, que começou a questionar se havia feito um bom negócio ao adquirir a Monsanto.

Por fim, para se livrar da situação, a empresa decidiu emitir esse cheque em parcela única para negociar o fim de todos esses processos. Isso demonstra que a Monsanto ainda deve estar gerando lucros significativos para a Bayer. O objetivo continua sendo melhorar sua imagem e evitar décadas de processos judiciais, nos quais as fotos das vítimas seriam exibidas em tribunais por todos os Estados Unidos.