Reforma Agrária Popular

Seminário Terra e Moradia fortalece a unidade entre campo e cidade para a 37ª Romaria em AL

Encontro na Ocupação Tereza de Benguela reuniu movimentos populares, pastorais e organismos sociais; aos 80 anos, Irmã Áurea animou os participantes com uma mensagem de fé, resistência e esperança

Seminário Terra e Moradia. Foto: Lara Tapety

Por Lara Tapety | Ascom CPT/AL
Da Página do MST

Fortalecer a unidade entre quem luta pela terra para plantar e pela casa para morar foi o propósito do Seminário Terra e Moradia, realizado neste sábado, 31 de outubro, na Ocupação Tereza de Benguela, do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), em Maceió. Parte da preparação para a 37ª Romaria da Terra e das Águas, a atividade reuniu movimentos populares, pastorais e organismos sociais para compartilhar suas realidades e construir caminhos de atuação conjunta.

Anfitriã do encontro, Eliane Silva, coordenadora nacional do MTST, acolheu os participantes e destacou a necessidade de vencer os discursos de ódio contra os movimentos sociais com o amor.

A mesa foi conduzida por Irmã Vanda, da Congregação das Irmãs de São José de Chambéry. Ao seu lado, Carlos Lima, da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), ressaltou que a proposta era escutar uns aos outros e construir uma união que ultrapassasse as organizações presentes, ampliando o diálogo e a solidariedade entre as lutas populares.

Participaram da mesa Margarida da Silva, a Magal, da direção nacional do MST; Cláudio, da Frente Nacional de Luta (FNL); Sil Pinheiro, do MTST; Abdísia, representando a Cáritas; Irmã Teresa, da Congregação das Irmãs de São José de Chambéry e da Pastoral da Moradia; Dom Luciano, bispo primaz da Igreja Vétero-Católica; e Irmã Áurea, da Congregação do Bom Pastor.

As lideranças apresentaram as demandas das comunidades acompanhadas e os desafios para os próximos anos, considerando a conjuntura local e nacional. A concentração fundiária, a especulação imobiliária e as dificuldades de acesso às políticas públicas apareceram como obstáculos comuns à garantia dos direitos no campo e na cidade.

Magal defendeu a continuidade da luta pela Reforma Agrária em Alagoas. Ao abordar os conflitos envolvendo terras de usinas, afirmou que as dificuldades não podem levar os movimentos a recuar. Também destacou a necessidade de ampliar a produção agroecológica de alimentos e enfrentar os danos provocados por atividades econômicas nos territórios.

“Nós não podemos e nem devemos abandonar essa bandeira de continuar fazendo as ocupações de terras”, declarou. A dirigente relacionou essa resistência à defesa da educação, da moradia e dos demais direitos dos trabalhadores e trabalhadoras.

Seminário Terra e Moradia. Foto: Lara Tapety

Cláudio, da FNL, recuperou a memória das lutas conjuntas e ressaltou a importância da aproximação entre as organizações rurais e urbanas. Abdísia chamou a atenção para a educação, questionando o fechamento de turmas e escolas voltadas a jovens e adultos em um estado que ainda enfrenta o analfabetismo.

Sil Pinheiro abordou as desigualdades no acesso à habitação, a precariedade das moradias e as consequências do crime socioambiental da Braskem. Defendeu a função social da propriedade, o fortalecimento das políticas habitacionais e a participação popular na construção do Plano Diretor de Maceió.

“Nós não queremos apenas quatro paredes e um telhado, queremos moradia com saneamento, transporte, saúde, educação, segurança, cultura e oportunidade”, afirmou.

Para a representante do MTST, assegurar esses direitos exige organização nas bases e mobilização permanente, aproximando os movimentos em torno das necessidades da população.

Essa responsabilidade coletiva também esteve presente na fala de Irmã Teresa. Ao apresentar o trabalho da Pastoral da Moradia, a religiosa destacou o esforço de chegar às paróquias e comunidades, sensibilizando quem já possui uma casa para a realidade das famílias que ainda lutam por esse direito. Em sua reflexão, afirmou que a compaixão precisa se traduzir em ação e compromisso com as pessoas que sofrem.

Com seus 80 anos, Irmã Áurea marcou o seminário com uma presença profética, trazendo ânimo e esperança aos participantes. Entre palavras de ordem, memória dos que tombaram na luta e reflexão bíblica, expressou a alegria de estar junto do povo e convocou todos a seguir em movimento.

Estamos juntos para fortalecer a luta e aprofundar a razão da nossa esperança”, afirmou.

Ao evocar nomes como Chico Mendes, Irmã Dorothy Stang, Padre Ezequiel Ramin e Margarida Alves, a religiosa aproximou os desafios atuais da trajetória de quem dedicou a vida à defesa dos povos e de seus territórios. Sua reflexão recordou a violência da colonização contra os povos indígenas e a escravização dos povos africanos, relacionando essa história às desigualdades que persistem no acesso à terra.

“A luta pela terra visa criar condições objetivas para que, de fato, terra de Deus seja terra do povo que vive a verdadeira fraternidade entre si e com a natureza! Terra é dom, mas é conquista”, destacou.

Seminário Terra e Moradia. Foto: Lara Tapety

A partir da caminhada bíblica do povo em busca de libertação, Irmã Áurea defendeu a partilha da terra, o cuidado com a natureza e a construção de novas relações. Ressaltou que a conquista da casa deve caminhar com o respeito e a igualdade na convivência, unindo fé e compromisso com a transformação social.

Após as explanações, os participantes se organizaram em grupos para identificar onde suas lutas se encontram e propor formas de fortalecer a articulação. As contribuições apontaram a formação política conjunta, a comunicação popular, a solidariedade entre organizações e a participação nos espaços de disputa das políticas públicas.

Alimentação, educação, agroecologia, saneamento, transporte e justiça ambiental foram reconhecidos como dimensões inseparáveis do direito à terra e à moradia. Os grupos defenderam o diálogo permanente entre lideranças e bases, a superação do individualismo nas lutas e a construção de mobilizações comuns.

Em avaliação após o encontro, Débora Nunes, da coordenação nacional do MST, destacou que o seminário permitiu refletir sobre os entraves ao acesso a esses direitos e pensar os próximos passos. Para ela, a preparação da Romaria reafirma a tarefa de marchar e compreender “que a luta é o caminho para que a gente possa garantir direitos”.

Lu Medeiros, do MTST, também ressaltou a força dessa convergência: “A união dos movimentos populares não é apenas a soma de vozes, mas a multiplicação da esperança”.

A 37ª Romaria da Terra e das Águas acontecerá nos dias 28 e 29 de novembro de 2026, em União dos Palmares, com o tema “Terra para plantar, casa para morar” e o lema “Ai dos que ajuntam casa a casa e campo a campo” (Isaías 5,8). A caminhada ligará os acampamentos Che Guevara e Irmã Dorothy Stang, ambos vinculados às negociações das terras da massa falida da Usina Laginha, reafirmando a luta pela Reforma Agrária e pelo direito de viver e produzir na terra.

O Seminário Terra e Moradia foi organizado conjuntamente pela CPT, MST, Frente Nacional de Luta (FNL), MTST, União Nacional por Moradia Popular (UNMP), Pastoral da Moradia de Alagoas, Cáritas Arquidiocesana de Maceió, Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) e Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

*Editado por Fernanda Alcântara