Mulheres em Luta

Quebradeiras de Coco Babaçu inauguram Centro de Formação no Maranhão

Na abertura, o MST, parceiro de luta do MIQCB, trouxe a importância histórica da educação contextualizada e a resistência para o Bem Viver
Maria Gorete, representante do MST, enfatizou a importância de manter viva a educação popular por meio dos movimentos sociais. Foto: Elitiel Guedes

Por Elitiel Guedes
Da Página do MST

Nesta terça-feira (02), o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) realizou a inauguração do Centro de Formação das Quebradeiras de Coco Babaçu – CFQCB, em uma solenidade no Auditório do Convento das Mercês, bairro Desterro, no Centro Histórico de São Luís, no Maranhão.

Na cerimônia de abertura, o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), parceiro de luta do MIQCB, apresentou a importância histórica da Educação Contextualizada e Resistência para o Bem Viver.

O objetivo do centro de formação é formar e qualificar lideranças mulheres quebradeiras de coco babaçu e juventudes rurais.

O MIQCB é uma organização que luta pelos direitos das quebradeiras de coco babaçu, que são mulheres que vivem da extração e do beneficiamento do coco babaçu na região amazônica. Com a inauguração do Centro de Formação, as quebradeiras de coco babaçu terão acesso a treinamentos e capacitações em diversas áreas, como gestão de negócios, boas práticas de produção, legislação ambiental, entre outras.

Maria Alaídes Sousa, coordenadora Geral do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu e quebradeira de coco babaçu do Médio Mearim no Maranhão, explicou que o Centro de Formação tem como meta capacitar pelo menos 60 pessoas, entre jovens e adultos, em três áreas específicas ao longo deste ano. Essas áreas incluem elaboração, implementação e gestão de projetos socioambientais, auto-organização das mulheres, da juventude, movimentos sociais e do MIQCB, e o direito à alimentação saudável e direitos dos povos tradicionais e camponeses.

Para Maria Alaíde, Coordenadora do MIQCB a educação contextualizada é essencial para as quebradeiras de coco. Foto: Elitiel Guedes

Para Alaídes Sousa, a inauguração do Centro de Formação é um momento de grande satisfação e a realização de sonhos que foram construídos desde os anos 1990 até hoje. Ela destaca que a educação contextualizada é essencial para as quebradeiras de coco, pois está intimamente ligada à vivência em seus territórios. Essas vivências, segundo ela, estão relacionadas a vários aspectos diários, desde a forma como as quebradeiras se organizam na produção até suas lutas para mostrar seu espaço e combater as injustiças sociais que enfrentam.

A educação contextualizada parte da premissa de que a aprendizagem não pode ser dissociada da realidade social, cultural e econômica dos sujeitos envolvidos no processo educativo. Ou seja, o conhecimento precisa estar inserido em um contexto que seja significativo para a vida dos estudantes, permitindo que possam compreender, criticar e transformar a realidade em que estão inseridos.

Maria Gorete, representante do MST, enfatizou a importância de manter viva a educação popular por meio dos movimentos sociais, destacando a necessidade de um enfoque anticolonial, antirracista e antipatriarcal para fortalecer a construção de um projeto de país mais democrático e popular. Ela também ressaltou a importância de continuarmos a valorizar o ser humano e sua relação com a natureza e a produção de alimentos saudáveis.

Ela destaca ainda a experiência do MST com a Escola Nacional Florestan Fernandes, “como movimento, temos o exemplo, da Escola Nacional Florestan Fernandes, um instrumento de formação, afirmando os princípios da educação popular, o estudo, a produção de conhecimento, a solidariedade e o trabalho coletivo, visando desenvolver a consciência de classe e estratégias de transformação social, a partir da compreensão do atual momento.”

Maria Gorete destacou que o Centro de Formação representa um importante espaço político-pedagógico para a construção de consciências críticas ao colonialismo e ao capitalismo. “É um lugar onde é possível construir sujeitos anticapitalistas, antirracistas e antipatriarcais, promovendo práticas pedagógicas que visam à transformação social. É um espaço de práticas pedagógicas de uma política de transformação. Podemos aqui formar uma geração de mulheres quebradeiras de coco que vislumbrem um futuro do Bem Viver.”

Alunas participa de lançamento do Centro de Formação Quebradeiras de Coco babaçu. Fotos: Elitiel Guedes

Além disso, o Centro de Formação é um componente do Projeto Floresta de Babaçu em Pé, financiado pelo Fundo Amazônia e gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). De acordo com dados do BNDES, o projeto tem como objetivo apoiar a produção sustentável de babaçu por meio da capacitação de quebradeiras e agricultores familiares, promovendo a conservação da floresta amazônica e o fortalecimento de cadeias produtivas locais.

Maria Raimunda está matriculada na primeira turma do Centro de Formação. Do município de Pedro de Rosário, voltou para a sala de aula aos seus 44 anos. Ela afirma que “o centro de formação para nós quebradeiras de Coco é voltar para a sala de aula, para nos fortalecer, aprimorar nossos conhecimentos, nos ajudar a se organizar melhor, proteger os nossos territórios e conhecer mais e mais o que nós temos a enfrentar nas nossas comunidades.”

Na primeira turma, o Centro de Formação tem como intuito formar cerca de 30 mulheres, com faixa etária entre 29 e 70 anos de idade, dos estados do Maranhão, Pará, Tocantins e Piauí, territórios estes com maior atuação do Movimento das Quebradeiras no país. Segundo dados do MIQCB, cerca de 300 mil famílias de quebradeiras de coco babaçu vivem na região amazônica, gerando renda por meio da produção de óleo, artesanato e alimentos.

Com o fortalecimento das lideranças femininas, espera-se que seja possível impulsionar o desenvolvimento sustentável das comunidades rurais e promover a conservação da floresta amazônica. O Centro de Formação das Quebradeiras de Coco Babaçu representa um importante passo para a valorização e capacitação das quebradeiras de coco babaçu e para a promoção do desenvolvimento sustentável na região amazônica.

No momento do Lançamento estiveram presentes representantes da universidade estadual, federal e instituto federal do Maranhão, além da vice-governadoria do estado.

*Editado por Solange Engelmann