MST e o Carnaval
Plantar para colher e alimentar: é a Reforma Agrária Popular no Anhembi
Nesta madrugada, Escola de Samba Acadêmicos do Tatuapé leva à avenida em São Paulo, a produção agroecológica e a defesa da Reforma Agrária Popular

Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST
Nesta madrugada de sábado de Carnaval (14), o Anhembi se transforma em campo de batalha simbólico com o Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Tatuapé, desfilando o enredo Plantar para Colher e Alimentar – Tem Muita Terra Sem Gente e Muita Gente Sem Terra. O enredo leva para milhões de olhares o debate sobre quem planta, quem colhe e quem realmente alimenta o Brasil.
Eduardo dos Santos, presidente da Acadêmicos do Tatuapé e um dos idealizadores do enredo, pensado com a perspectiva do que o MST vem construindo, ressalta o quanto o tema é importante para nós e à sociedade. “Vamos falar de agroecologia, do pequeno agricultor e de segurança alimentar. São temas que afetam todo o povo brasileiro, e é uma missão do [Acadêmicos do] Tatuapé, este ano, contar e mostrar essa história para as 33 mil pessoas que vão estar lá para assistir ao nosso espetáculo e também para o mundo, já que nossa festa é transmitida ao vivo para todo o Brasil e para mais de 80 países.”


Ao lado da jurista Carol Proner, do jogador Raí, do jornalista Chico Pinheiro e da ministra das Mulheres, Márcia Lopes; dirigentes históricos do MST, como Divina Lopes e João Paulo Rodrigues, ocupam carros alegóricos, enquanto mais de duzentos Sem Terra desfilam nas alas Cacau e Arroz, dois produtos centrais na produção camponesa do Movimento. A mensagem é direta: o prato de comida do brasileiro nasce nas roças e assentamentos da agricultura familiar, e não nos latifúndios voltados à exportação.
Nosso grande objetivo é fazer o melhor desfile da nossa vida, como todos os anos”,
Eduardo dos Santos, presidente da Acadêmicos do Tatuapé

O enredo da Tatuapé não é uma homenagem decorativa, mas sim uma festa com manifestação política e social, construído a partir da ideia que a escola tem dos trabalhadores/as Sem Terra. O tema resgata a sabedoria dos povos indígenas, a luta das camponesas e camponeses que trabalham no campo e a necessidade de uma Reforma Agrária que garanta não só terra, mas também soberania alimentar e a preservação do meio ambiente. A frase “Tem muita terra sem gente e muita gente sem terra” atravessa o samba‑enredo como um lema de resistência, ecoando décadas de ocupações, acampamentos e assentamentos conquistados à base da resistência e mobilização popular.
É o caso de Silvana Bezerra, Sem Terra da Comuna da Terra Irmã Alberta, acampamento ocupado há mais de 20 anos que ainda aguarda a oficialização do governo federal, para fins de reforma agrária. Silvana estará hoje na avenida na Tatuapé e ressalta a importância da luta pela terra. Para ela, tanto a luta pela terra quanto a cultura do MST estão interligadas e são essenciais para promover a diversidade, incluindo a produção de alimentos saudáveis.
Nós moramos na Comuna da Terra de mãos abertas produzindo cultura, produzindo educação, ocupando essa terra, ocupando essas áreas tão importantes que estão concentradas nas mãos do capitalismo. E a gente vem para a avenida mostrar essa nossa alegria, nossas cores, nossa diversidade e pautar a importância da Reforma Agrária Popular como instrumento para a produção de alimentos saudáveis”
A presença de militantes Sem Terra nas alas Cacau e Arroz também não é acidental ou por acaso. O MST é hoje reconhecido como o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, organizado com cerca de 450 mil famílias assentadas e 90 mil acampadas, distribuídas em 24 estados do país. Essa base produtiva se traduz em uma vasta rede de cooperativas, escolas, parcerias com universidades e experiências de agroecologia, que agora ganham espaço na maior vitrine cultural do país: o Carnaval.

Dados da realidade: quem realmente alimenta o Brasil
A festa no Sambódromo do Anhembi dialoga com uma realidade estatística pouco celebrada no país: a agricultura familiar é responsável por uma parcela decisiva da alimentação interna, mesmo que a narrativa “oficial” queira creditar ao agronegócio exportador. Estudos baseados no Censo Agropecuário apontam que a agricultura familiar emprega cerca de 67% da população ocupada em atividades agropecuárias e responde por uma fatia expressiva do valor bruto da produção, com forte presença em produtos como mandioca, carne bovina e diversos alimentos de consumo cotidiano.
Por outro lado, os dados sobre a concentração fundiária mostram um retrato oposto de que menos de 1% dos estabelecimentos rurais concentram quase metade da área agrícola do país, enquanto os minifúndios, que representam cerca de 70% das propriedades, ocupam apenas 11% da área total. O Censo Agropecuário de 2017, mostra que 1% dos proprietários controlam quase 50% da área rural, consolidando o Brasil entre os países com maior concentração de terras do mundo.
Enquanto isso, a insegurança alimentar continua a marcar o cotidiano de milhões de brasileiros. O relatório da FAO “Estado de Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025” indica que, apesar da queda recente, ainda há milhões de pessoas em situação de fome e insegurança alimentar severa, sobretudo em domicílios pobres, entre crianças, jovens e mulheres. Esses números reforçam a contradição de um país que produz alimentos em larga escala, mas onde uma parcela significativa da população não consegue garantir refeições dignas.

O enredo da Tatuapé expõe o modelo agrícola que realmente alimenta a população brasileira: a agricultura familiar voltada ao mercado interno, e neste sentido se alia ao MST nos seus 42 anos de existência, denunciando que a luta deixou de ser apenas contra o latifúndio improdutivo para enfrentar o agronegócio, que controla sementes, agrotóxicos, terras e preços, submetendo a produção de alimentos à lógica de lucro global.
No quarto carro alegórico, o assentamento dos sonhos: representa a conquista dos assentamentos, puxado por carros de boi e repleto de cestas fartas, é uma metáfora da terra como vida. Já na alegoria “Festa na roça”, última a entrar na avenida, vem a produção: milho, repolho, jiló, pimentão, melancia, tomate, beterraba e hortaliças, tudo real e produzido em assentamentos da Reforma Agrária, como o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Luiz Davi de Macedo, em Apiaí (SP), onde 76 famílias Sem Terra cultivam alimentos saudáveis sem o uso de agrotóxicos, em meio à Mata Atlântica.
Esses produtos serão doados aos integrantes da escola Tatuapé no final do desfile, e reforçam como a Reforma Agrária não é apenas redistribuição de terras, mas também tem papel central na reconstrução de uma cadeia alimentar justa e saudável, segundo Delweck Matheus, do setor de produção do MST.
Os produtos trazidos para a avenida foram produzidos pelas famílias de agricultores familiares, incluindo homens, mulheres, jovens e crianças assentadas em assentamentos da Reforma Agrária Popular, e mostram a importância de estarmos aqui, no sambódromo, desfilando na escola de samba, nossa cultura e nossa produção.
Delweck Matheus, da Coordenação do MST em São Paulo.
O papel da Reforma Agrária Popular como solução política
A homenagem da Tatuapé ao MST tem também o propósito de ecoar como um megafone para um conceito que o Movimento tem trabalhado há anos: a Reforma Agrária Popular. Diferente da Reforma Agrária clássica, centrada apenas na redistribuição de terras para trabalhadores rurais, a Reforma Agrária Popular incorpora a dimensão da produção de alimentos saudáveis para toda a população, a preservação ambiental e a construção de relações sociais igualitárias no campo e na cidade.

Em termos políticos, a Reforma Agrária Popular é apresentada como projeto de poder popular, que rompe com a concentração fundiária e financeira, e articula trabalhadores/as do campo e da cidade em torno da soberania alimentar. A própria Constituição de 1988, ao estabelecer a função social da propriedade e a possibilidade de desapropriação de imóveis que não cumprem a função social da terra, abre caminho jurídico para essa transformação.
Ao levar a luta do MST para a avenida, a Acadêmicos do Tatuapé faz mais do que celebrar um Movimento de luta: traduz em samba uma agenda política urgente. “Nós da escola queríamos compartilhar esta mensagem a respeito do MST, das famílias acampadas e assentadas, porque é uma homenagem a cada um e a cada um”, afirmou o presidente Eduardo dos Santos.

O enredo “Plantar para Colher e Alimentar” conecta a luta histórica pela Reforma Agrária à crise alimentar contemporânea, mostrando que a fome não é falta de comida, mas fruto de uma estrutura fundiária concentrada e de um modelo agrícola submetido ao capital internacional.
Esta é apenas uma amostra dos produtos dos assentamentos da Reforma Agrária e uma forma de dialogar com a sociedade sobre a qualidade desses produtos, sem qualquer produto químico ou agrotóxico. São produtos saudáveis, frutos da luta pela terra, e carregam a nossa gratidão à Escola de Samba por nos homenagear com esse dia tão importante no Sambódromo”, explica Delweck.
Com mais de 150 mil famílias acampadas à espera de terra – das quais cerca de 90 mil são ligadas ao MST –, a demanda por Reforma Agrária é maior do que nunca e segue presente no campo. Ao mesmo tempo, a agricultura familiar, que já produz boa parte dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro, demonstra que é possível alimentar o país com justiça, agroecologia e dignidade.
O enredo da Tatuapé não apenas homenageia a luta pela Reforma Agrária do MST, mas entrega ao mundo uma ideia que ecoa nas ruas, nas escolas e nas redações – a verdadeira colheita só é farta quando a terra é dividida com justiça.
Confira o samba-enredo da Acadêmicos do Tatuapé:
Samba Enredo 2026
Tupã! Num sopro de ternura
concedeu a agricultura
para os filhos desse chão
trovejou, lá no alto da palhoça
quando o orvalho molha a roça
é perfeita a comunhão
mas veio o invasor
e a terra então sangrou
negro plantou resistência
Canudos semeou a rebeldia
cada enxada levantada
liberdade florescia
Mas a ganância por terra sem gente
faz muita gente sem terra chorar!
Quem planta o mal, espalha ambição
me dá! me dá, um ‘pedacim’ de chão
Lavoura ê! Lavoura!
mãos calejadas no cultivo da semente
lavoura ê! lavoura!
floresce da terra
a fé dessa gente
alimentar e plantar o amor
proteger é cuidar desse chão
abraçar o nosso irmão
contra a desigualdade
pra colher dignidade
em cada gota de suor eu vi
brotar, crescer e acreditar
que a esperança está no amanhã
e assim será…
viver é partilhar
e nada em troca esperar!
Tem festa na roça, até o amanhecer
divide esse chão, pro nosso povo colher!
Tatuapé, me chama que eu vou!
Puxe o fole sanfoneiro, no toque do agogô!
*Editado por Solange Engelmann



