Massificação da Agroecologia
MST em MG inicia construção unidades de produção de bioinsumos em áreas de assentamento
A ação, fomentada a partir do projeto Camponês a Camponês, visa a construção de uma rede integrada de unidades de produção no estado

Por Agatha Azevedo
Da Página do MST
O ano de 2026 iniciou com uma capacitação, realizada no dia 04 de fevereiro, reunindo 15 camponesas e camponeses de diferentes regionais de Minas Gerais para formação no uso do Biorreator Popular, uma tecnologia desenvolvida pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), que marca o início de uma nova etapa na construção da rede mineira de unidades de produção de bioinsumos.
A atividade foi realizada em Campo Belo e integrou a inovação tecnológica aos sonhos e desafios das famílias Sem Terra nessa caminhada para massificar a agroecologia e fornecer alimentos de qualidade a nossa população.
A partir desta ação e do desafio do MST de massificação da Agroecologia em todos os territórios de Reforma Agrária e do Plano Nacional Plantar Árvores Produzir Alimentos Saudáveis, os assentamentos da Reforma Agrária Popular, localizados no Vale do Rio Doce e na região Sul de Minas Gerais iniciaram a construção de duas unidades de produção, que irão funcionar como Unidades Próprias de Produção de Bioinsumos.
As unidades são instalações que utilizam da biotecnologia para produzir, em larga escala, insumos biológicos (fungos, bactérias, leveduras) ou organismos vivos (plantas, mudas) de alta qualidade. Essa tecnologia é uma das formas de garantir que a agroecologia consiga fazer o enfrentamento ao modelo do agronegócio, pois possibilita a larga escala e a eficácia da produção nos territórios de Reforma Agrária, e minimizam perdas de produção através do controle biológico de pragas, da fixação de nitrogênio e da melhoria do solo.


Essas Unidades Próprias de Produção de Bioinsumos estão sendo implementadas nos municípios de Campo Belo e Governador Valadares, onde serão recebidas cepas (variantes genéticas ou subtipos de microrganismos) para multiplicação de bioinsumos utilizados em diversas etapas da produção agrícola, como fixação biológica de nitrogênio, crescimento e desenvolvimento de plantas e controle de pragas e doenças.
As cepas de bioinsumos que serão utilizadas nas biofábricas são de tecnologia brasileira, elaboradas pela professora Marcela Bagagli, fruto da parceria com Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Campus Avaré. A iniciativa contribui diretamente para a produção de alimentos saudáveis para a população, sem uso de agrotóxicos.
Unidades de produção, pesquisa e qualidade


Além da produção, os espaços funcionarão como centros de monitoramento e controle de qualidade dos bioinsumos. Seguro Iberê Martí, do setor de produção do MST, as unidades de referência são apenas o primeiro passo para o enraizamento da tecnologia.
A perspectiva é que, no futuro, (as Unidades Próprias de Produção de Bioinsumos) se consolidem como laboratórios populares de pesquisa e guardiões de cepas para cooperativas e associações de assentados da Reforma Agrária, pequenos agricultores e agricultoras familiares”, afirma.
Iberê também explica que as duas unidades de referência irão dialogar com outras seis pequenas unidades de multiplicação e distribuição instaladas em assentamentos. “A estratégia possibilita a disseminação da tecnologia com garantia de qualidade, de forma acessível e prática para camponeses e camponesas”, pontua.
As tecnologias sociais presentes na construção das unidades de produção se alinham às práticas agroecológicas já desenvolvidas nos territórios, potencializando-as e resgatando os saberes dos povos do campo. Desta forma, o uso de bioinsumos fortalece práticas e tecnologias sociais de base agroecológica já utilizadas há décadas pelos movimentos sociais, tanto em plantios individuais quanto comunitários. Entre elas estão: biofertilizantes, adubação verde, compostagem, plantio direto, uso de palhada de cobertura, rotação de culturas, plantios consorciados, pó de rocha, manejo ecológico de pragas e doenças, sementes crioulas, plantio estratégico de espécies atrativas e repelentes, sistemas agroflorestais, e uso de caldas naturais.
Projeto Camponês a Camponês e parcerias
As ações integram o Projeto Camponês a Camponês já em fase de implantação no estado, desenvolvido via Universidade Federal de Ouro Preto, que identifica e potencializa práticas agroecológicas por meio de intercâmbios, formação e diálogos de saberes. O projeto viabilizou recursos para aquisição de equipamentos e insumos necessários à instalação das unidades. O Instituto Federal de São Paulo, por meio do campus Avaré, também contribuiu com apoio técnico no planejamento das unidades de produção de bioinsumos e na realização de oficinas, criando espaços de formação e capacitação para jovens assentados.
A iniciativa também se soma às ações do BiosBrasil em parceria com a Universidade Federal de Lavras, responsável pelo desenvolvimento do Biorreator Popular. O trabalho inclui capacitações e ações de extensão rural inovadora e popular, com experimentos de campo voltados ao uso de bioinsumos junto a famílias assentadas da Reforma Agrária do Sul de Minas Gerais, Orgânicos Sul de Minas e outras organizações.
Nesta articulação, há atenção especial com foco nos camponeses e camponesas que fornecem alimentos saudáveis para políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), fortalecendo escolas, cozinhas solidárias e redes locais de abastecimento.
*Editado por Solange Engelmann



