Mulheres em Luta
Mulheres Sem Terra ocupam área da Fepagro em São Gabriel no Rio Grande do Sul
Com o lema Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar, a ação faz parte da Jornada Nacional de Luta do 8 de Março

Por Katia Marko
Da Página do MST
Na madrugada desta segunda-feira (9), cerca de 500 mulheres Sem Terra ocuparam uma área de 400 hectares da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro) em São Gabriel (RS). A ação integra a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra que acontece entre os dias 8 e 12 de março, com atividades que mobilizam as mulheres Sem Terra dos acampamentos e assentamentos de todo o país.
Com o lema “Reforma Agrária Popular: enfrentar as violências, ocupar e organizar!”, os atos em nível nacional têm como foco denunciar a paralisação da Reforma Agrária pelo Estado brasileiro. No Rio Grande do Sul, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) também quer chamar a atenção para a necessidade de o governo de Eduardo Leite retomar a negociação de áreas para assentamentos e reassentamentos, conforme prometeu em reunião em maio do ano passado.
Segundo a integrante da Direção Nacional do MST, Lara Rodrigues, após diversas reuniões e tentativas de resolver a questão das famílias acampadas e também o reassentamento das famílias atingidas pela enchente em maio de 2024, o movimento aguarda que o Incra e o governo do estado resolvam a demanda.
“Com essa ocupação, queremos dizer ao governador que aceitamos a proposta do assentamento nas áreas da Fepagro. Já podemos ir pra lá com as famílias acampadas do RS”, destacou.
São Gabriel, uma região simbólica da luta pela terra
Rodrigues afirma que a área de São Gabriel é simbólica para o movimento, além de ser a maior da Fepagro. “São Gabriel ficou marcada pela marcha de 2003 e também pelo assassinato do nosso companheiro Elton Brum da Silva, em 21 de agosto de 2009, pela Brigada Militar com um tiro de calibre 12 pelas costas, em uma das mais violentas ações de reintegração de posse de um latifúndio improdutivo, a Fazenda Southall.”
O município conta atualmente com 10 assentamentos, reunindo mais de 740 famílias assentadas. Cerca de 100 produtores fornecem alimentos para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Outras 250 famílias se dedicam à produção de leite, grãos — como feijão, milho e arroz, também mel e carne. Além da produção voltada à comercialização, todas as famílias assentadas cultivam alimentos para a subsistência em seus lotes. Os assentamentos também participam de diversas feiras na cidade, em sua maioria organizadas pelas mulheres, que igualmente produzem uma diversidade de artesanatos.
Espaço de acolhimento e geração de renda
Segundo Sílvia Marques, integrante da coordenação nacional do MST , além de beneficiar centenas de famílias e produzir alimento saudável na área, o movimento pretende destinar em torno de 10 hectares para construir um espaço de acolhimento e geração de renda para as mulheres.
“Queremos acolher as companheiras que são violadas, violentadas e que às vezes não tem para onde ir. E não só, mas também aquelas que precisarem de um espaço para poder morar, produzir, gerar renda, ter uma vida digna. Cuidando da vida e cuidando uma das outras”, ressaltou Marques.
Segundo ela, as mulheres Sem Terra querem demarcar com essa ocupação a luta de todo o movimento feminista contra os feminicídios. “Já são mais de 20 feminicídios só neste ano no RS. A gente precisa ter espaços também para receber essas mulheres e que elas possam ter uma geração de renda, que elas possam ter agroindústrias, ter produção para produzir vida e produzir dignidade.”
Além do tema central da luta pela terra, as atividades do Dia Internacional das Mulheres também vão exigir o combate ao feminicídio, o fim da escala 6X1, a igualdade salarial e valorização da Política Nacional do Cuidado.
A Jornada também pauta a luta internacional contra as violências às mulheres e ataques de países imperialistas à soberania dos povos, com atos de solidariedade internacional aos países atacados pelos Estados Unidos, reafirmando que a luta por justiça social no campo brasileiro se conecta com as lutas de todos os povos da América Latina e do mundo.



