Produção Sem Terra
Queijo produzido em assentamento gaúcho do MST está entre os melhores do mundo
Produzido em Jóia (RS), o queijo 'Sete Povos' é um alimento que materializa memória, identidade e território

Do Brasil de Fato
Um queijo produzido no Assentamento Simón Bolívar, em Jóia, noroeste do Rio Grande do Sul, acaba de entrar para a elite mundial. O “Sete Povos”, criação autoral da Agroindústria Camponês, conquistou a cobiçada medalha Super Ouro no 4º Mundial do Queijo do Brasil, realizado de 16 a 19 de abril de 2026 em São Paulo. A distinção colocou o produto entre os mais reconhecidos do evento e muito perto de figurar entre os 10 melhores queijos do planeta.
O feito é ainda mais simbólico porque o queijo é fruto da agricultura familiar e da força da juventude camponesa. O autor da receita é Igor Valsoler, jovem queijeiro da família assentada, que vem desenvolvendo técnicas, maturações e combinações inéditas inspiradas no terroir missioneiro. Segundo relatos da família, Igor pode ser o primeiro jovem sem terra a alcançar esse nível de reconhecimento no circuito mundial dos queijos, dando continuidade a uma tradição familiar que iniciou pela avó Maria, teve continuidade com os pais Marleise e Edemir, e agora já chega a terceira geração.
“É o nosso filho que coloca a mão na massa, cria as receitas e conta a história das Missões no queijo “Sete Povos”. Ter o trabalho dele reconhecido com uma medalha Super Ouro é emocionante. Isso mostra que a Reforma Agrária dá certo e que a juventude está fazendo a sucessão familiar e conquistando espaços”, afirma Marleise.
O queijo que carrega território, memória e identidade
O “Sete Povos” é um queijo de massa semidura, maturado por quatro meses em pranchas de madeira de araucária, o que confere aromas frutados, textura rústica e um sabor amendoado delicado, equilibrando cremosidade e intensidade. A casca natural reforça seu caráter artesanal e a ligação direta com o ambiente de maturação.
Feito com leite produzido no próprio lote da família, o queijo transforma a paisagem missioneira – suas madeiras, bactérias lácticas, clima e história – em expressão sensorial. Cada lote carrega a marca do terroir e do campesinato, valorizando práticas que unem tradição, técnica e cuidado.
Da incerteza à excelência: uma história de resistência camponesa
A Agroindústria Camponês nasceu em um momento limite. A família tinha apenas uma vaca – e ela precisou ser sacrificada. O queijo, que era alimento, renda e sentido de continuidade, parecia ter chegado ao fim. “Parecia que tudo tinha acabado. Mas tem gente que não faz queijo só para vender, faz porque aquilo faz parte da vida”, relata Marleise.
A partir desse ponto de ruptura surgiu uma nova caminhada. Vieram cursos, testes, noites de maturação acompanhadas de perto, investimento em qualidade e a decisão insistente de seguir adiante. O queijo cresceu, amadureceu e, como o território que o inspira, resistiu.
Hoje, o “Sete Povos” é um símbolo dessa persistência. Como registrou Igor nas redes sociais: “Essa conquista será sempre comemorada. O queijo ‘Sete Povos’ é autoral, artesanal, gaúcho e da agricultura familiar. É um pedaço da história do nosso terroir.”
Um evento que reúne o mundo – e que olha para o Brasil
O 4º Mundial do Queijo do Brasil reuniu 2,6 mil queijos de vários países. A avaliação foi às cegas e considerou critérios técnicos como textura, aroma, sabor, retrogosto e aparência. A medalha Super Ouro é atribuída apenas aos produtos de maior pontuação entre todas as categorias. O Rio Grande do Sul teve desempenho expressivo: conquistou cinco medalhas Super Ouro, ficando em terceiro lugar nacional, atrás apenas de Minas Gerais e São Paulo.
Nesta edição os queijos foram avaliados às cegas por critérios como textura, aroma, sabor, retrogosto e aparência. Além do Queijo “Sete Povos”, da Agroindústria Camponês, também foram bem classificados o Queijo Parmesão, da Queijaria Somacal, de Farroupilha; o Queijo Tilsit, também da Queijaria Somacal, de Farroupilha; o Queijo Parmesão, da Queijaria Schneider, de Marcelino Ramos; e a Ricota Fresca com Chimichurri, de Laticínios Pipo, de Nova Roma do Sul.
O que significa o nome “Sete Povos”?
O nome Sete Povos faz referência direta aos Sete Povos das Missões Jesuíticas Guaranis, conjunto histórico que marcou profundamente o território onde o queijo é produzido. São eles: São Miguel, São Luís, São Nicolau, São João, São Lourenço, São Borja e Santo Ângelo. Essas reduções formavam um complexo político, cultural e espiritual organizado pelos povos guaranis em diálogo com os jesuítas, e se tornaram um dos experimentos socioculturais mais singulares da história latino-americana.
Em 2026 o mundo inteiro está atento aos 400 anos das Missões Jesuíticas. A região recebe destaque internacional em reportagens, estudos, turismo cultural e eventos comemorativos. O queijo “Sete Povos”, ao levar o terroir missioneiro para um concurso mundial e alcançar a medalha Super Ouro, torna-se parte viva dessa celebração histórica – um alimento que materializa memória, identidade e território.
Editado por: Katia Marko



