19 de março: Plantar é um ato de fé e resistência no campo
Celebrado no Nordeste como marco do início do plantio, o Dia de São José une fé, tradição e resistência camponesa, e ganha expressão concreta no Assentamento Normandia, onde a produção agroecológica e coletiva reafirma a luta pela terra e pela soberania alimentar.
Por Emerson Falco
da Pagina do MST

No Nordeste brasileiro, o Dia de São José, celebrado em 19 de março, é um marco profundamente enraizado na vida dos camponeses e camponesas. Mais do que uma data religiosa, o dia representa o início de um novo ciclo de plantio e renova a esperança por boas chuvas e uma colheita farta.
Tradicionalmente, é nesse período que as famílias camponesas iniciam o plantio do milho, cultura central na alimentação e na cultura popular nordestina. A prática, que atravessa gerações desde o período colonial, expressa a relação histórica do povo do campo com a terra, marcada pela fé, pelo trabalho e pela resistência.
Ao longo dos séculos, essa tradição também passou a representar enfrentamento, por uma vida digna no campo. Em um contexto atualmente de concentração fundiária e avanço do agronegócio, plantar no dia de São José é reafirmar a permanência na terra e a defesa de um projeto de campo voltado para a vida, e não para o lucro.
São José, reconhecido como protetor dos trabalhadores e trabalhadoras do campo simboliza essa fé que impulsiona uma boa parte dos nordestinos pra luta cotidiana. A ele se pede chuva, mas também força para seguir organizando a produção e resistindo às desigualdades históricas que atingem o campo brasileiro.

No município de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, essa tradição segue viva no Assentamento Normandia, área conquistada a partir da luta e organização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O assentamento é resultado de um processo de ocupação e resistência das famílias Sem Terra, que enfrentaram o latifúndio para garantir o direito à terra e construir um território de vida e produção.
Desde sua consolidação, o Assentamento Normandia se tornou referência na região pela organização coletiva, pela produção de alimentos e pelas experiências de formação política, (em especial os cursos e atividades realizadas no Centro de Formação Paulo Freire) educação do campo e cultura popular. No território, as famílias desenvolvem práticas agrícolas e agropecuárias organizadas através de uma cooperativa e de uma associação, direcionado para uma nova matriz tecnológica baseada na agroecologia e na preservação dos bens da natureza.
O plantio do milho crioulo é uma das expressões dessa construção coletiva, ou seja, já é uma realidade vivenciada pelas famílias, o cultivo e o armazenamento das sementes crioula são mobilizados e organizado pela cooperativa CoopaNor do assentamento Normandia. Além de ter essa parceria com a cooperativa também temos uma grande parceria com as comunidades de agricultores e agricultoras. As sementes representam autonomia produtiva e resistência frente ao controle das grandes empresas sobre a agricultura, os assentados fica com tarefa de guardiões de um DNA originário.
Neste Dia de São José, os sócios e sócias da Cooperativa CoopaNor em Normandia iniciam o plantio do milho crioulo, destinado à produção do flocão. Parte dessa produção será, comercializado, armazenada e, partilhada entre os assentados, assentadas e comunidades vizinhas durante a Festa da Colheita, no tradicional Arraial Normandia, durante os festejos juninos fortalecendo os laços de solidariedade e a cultura camponesa.
A Cooperativa CoopaNor integra esse processo ao organizar a produção em uma área coletiva de terra, fortalecendo a economia e renda do assentamento e contribuindo para a garantia de impulsionamento econômico e social. Parte da produção é destinada à fabricação de flocão de milho, ampliando as iniciativas de agroindustrialização no campo.
É desse processo que nasce também o Cuscuz Normandia, alimento símbolo da produção camponesa do assentamento. Produzido a partir do milho cultivado pelas próprias famílias, o flocão expressa a qualidade do alimento sem veneno e o valor agregado da produção coletiva. Mais do que um produto, o ‘Cuscuz Normandia’ representa o resultado concreto da Reforma Agrária Popular: alimento saudável na mesa do povo, geração de renda no campo e fortalecimento da autonomia das famílias Sem Terra.
A colheita também é momento de celebração e reafirmação da cultura camponesa. No tradicional Arraial de Normandia: Festa da Colheita, realizado anualmente no assentamento, as famílias se reúnem para partilhar os frutos da terra, fortalecer os laços comunitários e celebrar a cultura popular nordestina. O evento reúne apresentações culturais, comidas típicas, músicas e expressões da identidade do povo do campo, especialmente durante o ciclo junino, com as festas de Santo Antônio, São João e São Pedro.

Mais do que uma festividade, o Arraial de Normandia é expressão concreta de um projeto de Reforma Agrária que produz não apenas alimentos, mas também cultura, solidariedade e organização popular.
Para as famílias Sem Terra, plantar no dia de São José vai além da tradição. É um gesto que reafirma a luta pela Reforma Agrária e a defesa de que a terra deve cumprir sua função social.
Em meio aos desafios enfrentados no campo, a prática segue como expressão concreta de resistência e de construção de um projeto popular de agricultura, baseado na produção de alimentos saudáveis, na justiça social e na dignidade para quem vive e trabalha na terra.
Para Edilson Barbosa, vereador e assentado:

“O dia de São José representa um momento muito especial de celebração, fé e esperança. Não é importante apenas para o assentamento Normandia, mas para toda a região do Agreste pernambucano. É uma data que fortalece nossa cultura, renova a confiança do nosso povo e marca o início de um novo ciclo de plantio, carregado de expectativas e sonhos para uma boa colheita.”



