Festa da Colheita
Mística marca abertura da colheita e homenageia Frei Sérgio em festa do arroz agroecológico no RS
Celebração no assentamento Capela une memória, produção e tributo a referências da agroecologia

Por Fabiana Reinholz E Marcela Brandes
Do Brasil de Fato
Sob o lema “Agroecologia é o Caminho”, a 23ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico recebe nesta sexta-feira (20) famílias assentadas, autoridades e apoiadores no Assentamento Capela, em Nova Santa Rita, na Região Metropolitana de Porto Alegre.
Mais do que marcar o início da retirada do arroz das lavouras, o evento foi atravessado por um momento simbólico central: a mística organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que resgatou a história da luta pela terra e prestou homenagem ao Frei Sérgio Gorgen, referência na defesa das sementes crioulas e da soberania alimentar.

Memória encenada na terra conquistada
A abertura do ato político foi conduzida por uma mística cuidadosamente construída, reunindo militantes com camisetas vermelhas e chapéus de palha em uma encenação que percorreu diferentes momentos da trajetória dos assentamentos. Logo nas primeiras cenas, homens e mulheres carregando ferramentas e lonas pretas rememoraram o início das ocupações, simbolizando a precariedade e a organização coletiva que marcam a formação dos acampamentos.
Durante a apresentação, o coro destacou que “a terra conquistada não é apenas chão. É memória, coragem e futuro nas mãos do povo”, sintetizando o sentido político atribuído à produção agroecológica. A narrativa apresentada conectou passado e presente ao indicar que o modelo produtivo adotado pelas famílias assentadas nasce diretamente da experiência de luta social.

A encenação seguiu com referências a nomes importantes da agroecologia e da defesa ambiental. Quando foi lembrado Frei Sérgio Görgen os presentes prestaram sua homenagem com uma salva de palmas. Representado como guardião das sementes crioulas, ele foi lembrado como figura central na construção de um projeto agrícola baseado na preservação da biodiversidade e na autonomia dos agricultores.
Em um dos trechos entoados pelo coro, a homenagem afirmou que ele é o “guardião das sementes, defensor da terra e da vida, semeando organização e esperança repartida”.

Homenagem e espiritualidade da luta
A presença simbólica de Frei Sérgio na mística reforçou a dimensão política e também espiritual atribuída à agroecologia no contexto da reforma agrária. A valorização das sementes crioulas foi apresentada não apenas como técnica agrícola, mas como prática de resistência frente ao avanço dos transgênicos e do uso intensivo de agrotóxicos.

Ao longo da encenação, a relação entre natureza, produção e coletividade apareceu como eixo estruturante. A mística reforçou que o cultivo da terra é entendido como continuidade da luta, e não como etapa separada dela. Nesse sentido, a homenagem ao Frei Sérgio operou como ponto de ligação entre gerações, reafirmando a importância de figuras históricas na formação política e produtiva dos assentamentos.

Produção e sentido político da agroecologia
A celebração da colheita também evidenciou os resultados concretos do modelo agroecológico adotado pelas famílias. Segundo Nilvo Bosa, da direção da Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan), a transição para o cultivo orgânico foi uma decisão construída ainda antes dos anos 2000, com foco na produção de alimentos saudáveis.
Bosa afirmou que “a reforma agrária sim dá certo, é bom que boa parte da imprensa estivesse aqui para ver, porque o que se divulga muitas vezes não é isso, mas agora quem está aqui está vendo com os próprios olhos o que é a reforma agrária”.

A produção atual envolve 2.800 hectares cultivados por cerca de 290 famílias em sete municípios do Rio Grande do Sul, com expectativa de alcançar 14 mil toneladas de arroz nesta safra.
Para a deputada federal Reginete Bispo, o resultado expressa um processo histórico mais amplo. Ela afirmou que “se o campo não planta, a cidade não janta”, ao destacar a importância da produção agrícola para o abastecimento alimentar e para a saúde da população.

Políticas públicas e reconstrução
Representantes do governo federal também participaram da atividade e relacionaram a experiência dos assentamentos com políticas públicas em curso. Edel Moraes, da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável (SNPCT), do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, destacou iniciativas voltadas à formação de agentes ambientais na região. “A comunidade aqui mostra para toda a sociedade brasileira como pode produzir alimento saudável, fazer a agroecologia aqui e fortalecer os povos assentados”.
Moraes destacou que o acordo e termo de cooperação assinados durante o evento visa a formação de agentes ambientais em dez municípios da região Metropolitana, articulando capacitação técnica e diagnóstico territorial. Segundo ela, a iniciativa integra os planos nacionais de adaptação às mudanças climáticas e busca preparar as comunidades para enfrentar emergências cada vez mais frequentes, como as enchentes recentes no Rio Grande do Sul.
A secretária explicou que o foco do convênio está no fortalecimento dos povos assentados, com atenção especial às mulheres e meninas, “que são as mais impactadas nos momentos de crise ambiental”, e ressaltou que a proposta não se limita à resposta aos desastres, mas envolve também ações de prevenção, com a criação de pontos de alerta e estratégias para que as comunidades estejam tecnicamente preparadas. Para a representante do ministério, a ação demonstra que “é possível produzir alimento saudável, fazer agroecologia e, ao mesmo tempo, cuidar do meio ambiente e proteger as pessoas frente às mudanças do clima.”
A vice-ministra do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, também apontou ações de apoio à reconstrução após eventos climáticos extremos no estado. Ela afirmou que o papel do governo é “valorizar e dar todo o apoio que o movimento precisar para seguir produzindo esse alimento saudável para as famílias gaúchas e do Brasil”, ao mencionar investimentos e metas de ampliação da reforma agrária.

Do campo à mesa
A destinação da produção também foi abordada durante a festa, com destaque para programas de abastecimento alimentar. Naiara Bitencourt, da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, explicou que parte do arroz será adquirida por políticas públicas. “É uma experiência que merece ser reconhecida e multiplicada, especialmente porque é uma comida livre de veneno, livre de transgênico, que chega de forma sustentável e saudável na mesa do povo brasileiro.”
Entre os participantes, consumidores também ressaltaram o impacto direto do produto em suas rotinas. Vera Lúcia Reis, moradora de Porto Alegre, afirmou que “a importância é para a saúde, né? Melhorar a saúde, não tem veneno”, ao explicar o motivo de optar pelo arroz agroecológico.

Encerramento entre partilha e continuidade
A atividade foi encerrada com uma partilha coletiva de alimentos preparados com o arroz colhido no próprio assentamento. A cena final reuniu crianças, famílias e militantes em torno da comida, reforçando a ideia de que a produção agrícola está diretamente ligada à reprodução da vida comunitária.
Ao som do hino do movimento, a mística final retomou os elementos apresentados no início da celebração e reafirmou o sentido coletivo da colheita. Em um dos versos declamados, o arroz foi definido como “grão dourado” que carrega história, solidariedade e continuidade, sintetizando o papel simbólico e material da produção agroecológica nos territórios da reforma agrária.

Editado por: Katia Marko



