Cultura e Educação
Especialização em Estudos Culturais fortalece leitura crítica e organização popular no continente
Formação ocorreu na Escola Nacional Florestan Fernandes e incluiu debates sobre agroecologia, arte, território e enfrentamento ao agronegócio

Por Equipe de Comunicação do Curso de Especialização em Estudos Culturais
Da Página do MST
O Curso de Especialização em Estudos Culturais e Políticos na América Latina, realizado pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) por meio do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) é fruto da parceria entre a Universidade e o MST, e teve sua segunda etapa entre fevereiro e março, na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). Com a premissa de que estudar cultura e política é um ato de resistência, os mais de 50 educandos e educandas de todas as regiões do Brasil, beneficiários da Reforma Agrária, quilombolas e participantes de movimentos sociais abraçaram a tarefa dos estudos e demarcam a necessidade de cursos que atendam à dimensão cultural.
Guilherme Terreri iniciou a aula de abertura. O humor foi uma das ferramentas pedagógicas que o educador, professor universitário e escritor (famoso pela personagem Rita Von Hunty, do canal do YouTube Tempero Drag) utilizou para tornar acessível um dos temas centrais da etapa: o campo dos estudos culturais.

A partir desta aula que serviu para nos introduzir às discussões que teríamos pela frente, nos munimos para uma profunda jornada de estudos. Com professores como Maria Cristina Pompa, Sílvio Rosa Filho e Yanet Franklin de Matos, fomos compreender, por exemplo, o que são os estudos culturais, do que é feita a tradição crítica brasileira e sua relação com a literatura no Brasil; que imagem fazemos de nós mesmos enquanto latino-americanos e como essa imagem se faz ver nas pinturas e no cinema.
Inspirados por pensadores como Raymond Williams, Paulo Arantes, Karl Marx, Machado de Assis, Pablo González, entre outros, compreendemos que a cultura não é apenas reflexo das estruturas econômicas, mas um campo de produção ativa de significados e práticas sociais. A cultura popular, portanto, não deve ser vista como algo estático ou meramente tradicional, mas como um processo dinâmico, que se reinventa nas lutas cotidianas dos povos.
Além das aulas, pudemos partilhar momentos de oficina de escrita, socialização de trabalhos do tempo de comunidade com o mapeamento da disputa cultural que existe em nossos territórios, rodas literárias, apropriação de técnicas de cartografia e mapeamento cultural, entre outros.
Atividade de campo
A turma pôde visitar o Memorial da Resistência, para conhecer a exposição “Ouvidor 63: habitar a arte”, produzida coletivamente pelos artistas da Ocupação da Rua do Ouvidor, número 63. Essa é a maior ocupação cultural da América Latina, com participação de migrantes, que sofrem cotidianamente risco de despejo. A exposição ocupa uma grande sala do Memorial, demonstrando na prática o processo das guerras culturais e como os artistas da Ouvidor a enfrentam.
Seguimos para a exposição em comemoração aos 150 anos de Joaquín Torres García no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), para conhecer o trabalho deste artista, cuja obra “América Invertida” estampa todo o material pedagógico da turma, e, no mesmo espaço, ainda apreciamos o show de Indiana Nomma, em homenagem a Mercedes Sosa.
Por fim, fomos ao Espaço Cultural Elza Soares e assistimos ao espetáculo Agropeça, da cia Teatro de Vertigem, uma ácida ironia de denúncia da guerra cultural impingida pelo agronegócio.
Cultura Popular e América Latina

Na América Latina, a cultura popular sempre foi um espaço de resistência. Das comunidades camponesas aos povos indígenas, das periferias urbanas aos territórios quilombolas, a cultura é uma forma de organizar a vida, preservar saberes ancestrais e afirmar modos de existência que confrontam a lógica dominante do capital. Assim, assumimos o compromisso de aprofundar a reflexão sobre o papel da cultura na luta política e na construção de alternativas ao modelo de sociedade que produz desigualdades, concentração de terra e destruição da vida.
O curso demonstrou os desafios que atravessam o continente latino-americano: o avanço do agronegócio sobre territórios camponeses e indígenas, a criminalização dos movimentos sociais, a mercantilização da vida e a disputa de narrativas sobre o futuro da sociedade. Diante desse cenário, estudar cultura e política na América Latina é assumir uma posição: a de quem acredita na força dos povos organizados para transformar a realidade.
A experiência formativa que vivemos na Escola Nacional Florestan Fernandes durante esses dias reafirma a importância de uma educação comprometida com a emancipação. Aqui, o conhecimento não se constrói de forma isolada, mas a partir do diálogo entre teoria e prática, entre universidade e movimentos populares, entre diferentes experiências de luta espalhadas pelo continente.
Révero Ribeiro: Presente, presente, presente!
Além do estudo, das práticas artísticas e do trabalho necessário, tivemos o momento de construção da identidade e simbologia da turma. Com profundo carinho e em momentos de muita ternura, a turma homenageia Révero Ribeiro, militante do MST, palhaço, ator, trabalhador da cultura, internacionalista, rememorado em sua alegria, que, na guerra cultural, também é uma trincheira que ocupamos para o combate.
Révero Ribeiro,
Contigo caminhamos
Sustentando a alegria
Como um valor humano

Seguimos estudando, debatendo e produzindo pensamento porque sabemos que as transformações sociais também passam pelo terreno das ideias, da cultura e da formação política. Em um continente marcado por profundas desigualdades, fortalecer a cultura popular e os espaços de educação crítica é parte fundamental da luta por justiça social.
Cursos como esse reafirmam a determinação da classe trabalhadora ao direito à educação e à cultura, principalmente, em um continente marcado pela concentração de terra, pela violência contra os povos do campo e pela tentativa permanente de dominação ideológica e cultural. É nesse caminho que seguimos: aprendendo com os povos, fortalecendo nossas identidades coletivas e reafirmando que a cultura segue sendo um dos campos de batalha e um dos pilares da resistência e da esperança de trabalhadores/as em luta.
*Editado por Fernanda Alcântara



