Palavras que educam

Pedagogia e poesia de dedos entrelaçados: Isabela Camini e Denilson da Silva lançam novos livros em Porto Alegre

Cartas Pedagógicas: o que aprendemos com Paulo Freire e A Terceira Margem do Rio: Sonetos puxam o fio da memória

Lançamento dos livros ocorreu no espaço do Armazém do Campo, em Porto Alegre. Fotos: Divulgação/autores

Por Marcos Antonio Corbari
Do Brasil de Fato | Porto Alegre (RS)

O Armazém do Campo de Porto Alegre virou território de encontro, memória e insurgência. Entre abraços demorados, cadeiras apertadas e olhos atentos, foram lançados conjuntamente, na noite de quarta-feira (15), os livros Cartas Pedagógicas: o que aprendemos com Paulo Freire, de Isabela Camini, e A Terceira Margem do Rio: Sonetos, de Denilson da Silva.

A casa estava cheia – não apenas de gente, mas de história. Militantes da educação popular, companheiros e companheiras das lutas do campo e da cidade, estudantes, professores, alunos. Um público que não foi ali apenas para assistir a um lançamento, mas para reafirmar um compromisso: o de manter viva a palavra que educa, denuncia, anuncia e encanta.

Cartas que atravessam o tempo e enfrentam o presente

Logo no início de sua fala, Isabela Camini puxou o fio da memória para lembrar o Massacre de Eldorado dos Carajás, cujo tempo demarcava naquele dia a passagem dos 30 anos. Não como passado distante, mas como ferida aberta. Lembrou o jovem Oziel Alves, torturado e assassinado pela polícia enquanto gritava pela luta do povo sem terra. E ali, naquele instante, ficou evidente: seu livro não nasce do silêncio – nasce do chão da história.

Inspirada no legado de Paulo Freire, Camini constrói em Cartas Pedagógicas um chamado coletivo. Não se trata apenas de revisitar o educador, mas de colocá-lo novamente em movimento, no coração das práticas populares. Freire, que também há 30 anos, fez sua passagem, deixando uma carta inacabada sobre a mesa.

Camini convoca através de suas cartas a que nos apropriemos e ressignifiquemos Paulo Freire. Arte: Corbari-BdF

Como escreve Sérgio Haddad no prefácio, trata-se de uma obra que não separa teoria e prática, que não aceita o conforto da neutralidade. Ao contrário: mergulha na contradição do tempo presente, denuncia as desigualdades e insiste na esperança como projeto político.

As cartas, nesse contexto, são mais do que um gênero literário. São ferramenta de luta. São ponte entre sujeitos. São espaço onde a vida se escreve com as próprias mãos.

Camini amplia esse horizonte ao dialogar com experiências históricas de escrita insurgente – de Olga Benário a Che Guevara, de Francisco Julião a Antonio Gramsci. É a tradição das cartas como território de resistência, onde o íntimo se transforma em político.

E o convite está feito: que escolas, comunidades e movimentos se apropriem dessa prática. Que escrevam. Que leiam o mundo. Que respondam ao tempo histórico com palavras carregadas de sentido.

Sonetos que sangram e florescem

Se Camini escreve cartas para movimentar consciências, Denilson da Silva escreve sonetos para tocar o coração – e, a partir dele, inquietar o mundo.

Em A Terceira Margem do Rio, a poesia não se fecha em si mesma. Ela caminha. Ela viaja. Ela escuta. Ela observa. E depois devolve em forma de verso aquilo que viu: a dureza da vida, a beleza dos encontros, a esperança que insiste.

A tradição do soneto aparece, mas não como prisão. Denilson a atravessa com liberdade, deixando que a forma sirva àquilo que mais importa: os afetos e a luta.

A poesia de Denilson leva o leitor além dos versos e da palavra, chama ao movimento. Arte: Corbari-BdF

Seus poemas nascem das estradas entre Osório, Porto Alegre e Erechim. Das salas de aula. Das comunidades do campo. Dos encontros com povos indígenas. Da dor da perda. Da persistência de quem acredita num Brasil mais justo.

Como aponta o crítico Pablo Berned, trata-se de uma poesia que articula sensibilidade estética e compromisso político. Uma escrita que não foge do mundo – ao contrário, mergulha nele.

E talvez seja isso que mais marque sua obra: a recusa da indiferença. Como ecoa nas entrelinhas de seus versos, lembrar que – como já alertava Antonio Gramsci – os indiferentes são o peso morto da história.

Entre cartas e versos, a construção do comum

Representando a editora da Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (Estef), Frei José Bernardi destacou algo essencial: a força da memória e a potência da palavra simples.

Manter viva a memória de Paulo Freire, disse ele, é tarefa urgente num tempo em que tantos tentam apagá-lo. E as cartas – essas formas aparentemente singelas – carregam uma força imensa: qualquer pessoa pode escrever. Qualquer pessoa pode narrar sua vida, sua dor, sua esperança.

E é aí que mora a potência revolucionária: quando a palavra deixa de ser privilégio e se torna direito.

Olívio Dutra, ex-governador do RS, renovou o chamado: precisamos manter Paulo Freire conosco, precisamos reler seus escritos e carregá-lo conosco a tiracolo, na sacola, na mente, no coração e na luta.

E a poesia, ah esse entrelaçar de palavras que deixa a vida mais colorida e o caminho para a utopia mais iluminado encontra sempre abrigo ideal na voz grave e nunca cansada do velho e generoso mestre que preferiu trocar o espaço do discurso por versos de Carlos Drummond.

Olivio Dutra marcou presença no lançamento dos livros e trocou o tradicional discurso pela declamação de uma poesia de Drummond. Foto: Corbari-BdF

A palavra como semente

O que se viu naquela noite no Armazém do Campo foi mais do que um lançamento de livros. Foi um reencontro com a palavra como prática política.

Num tempo de aceleração, de ruído e de dispersão, Isabela e Denilson apostam no contrário: no tempo da escuta, da escrita, da partilha. No tempo que permite pensar, sentir e agir.

Entre cartas e sonetos, suas obras nos lembram que educar é também poetizar o mundo. E que escrever – quando se escreve com o povo – é um ato de coragem.

Porque, no fim das contas, como já ensinava Paulo Freire, não há educação neutra. E como mostram essas páginas, também não há poesia neutra. Há palavra em disputa. E há quem a coloque a serviço da vida.

Quem é Isabela Camini

Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Isabela Camini é militante do Setor de Educação do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) e uma das principais referências no trabalho com cartas pedagógicas no Brasil.

Autora de obras como Escola Itinerante (2009), Cartas Pedagógicas (2012, 2022) e Entre Cartas que atravessam o tempo (2024), constrói uma trajetória que articula pesquisa, prática educativa e militância.

Sua escrita nasce do chão da luta e reafirma o compromisso com uma educação popular crítica, humanizadora e profundamente vinculada aos sujeitos historicamente oprimidos.

Quem é Denilson da Silva

Nascido em Osório (RS), em 1972, filho de uma costureira e de um alfaiate, Denilson da Silva é professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), no campus Erechim.

Licenciado em Física, atua na formação de educadores do campo, dialogando com comunidades camponesas e povos indígenas.

Iniciou sua trajetória literária durante a pandemia e encontrou na poesia – especialmente nos sonetos – uma forma de elaborar a dor, celebrar os encontros e afirmar seu compromisso com a justiça social.

Autor de Bordados (2024), consolida com A Terceira Margem do Rio uma escrita que une sensibilidade, memória e militância.

Editado por: Katia Marko