Ter 19 anos em maio de 1968: Um relato de experiência

"Na época, apenas 16% de uma faixa etária ingressava na universidade para
cursar o ensino superior, e, entre esses, somente 25% eram mulheres."

Isso tinha começado em março, como rumores de insubordinação no ar da
primavera.

As residências estudantis e as faculdades, na cidade onde eu iniciava meus estudos, ferviam de descontentamentos quanto às condições de vida e de estudo. O primeiro sinal pareceu insignificante: decidiu-se que não se aceitaria mais a ausência de convivência mista nas residências, até então proibidas aos rapazes nas residências femininas e vice-versa. A entrada dos estudantes, em grande número, nas residências femininas causou grande alvoroço. Isso levou a sanções disciplinares e, na sequência, a manifestações diante dos escritórios da administração universitária, a sit-in¹ , depois as intervenções policiais, confrontos nas ruas e prisões.

Ao mesmo tempo, estávamos engajados contra a intervenção americana no Vietnã, o que se traduzia em manifestações constantes.

Vivíamos um duplo movimento de protesto contra o peso de uma sociedade patriarcal, autoritária e rígida da época, sobretudo para as mulheres, e contra as guerras coloniais e imperialistas.

Acabamos nos reunindo na faculdade em assembleia geral e decidimos pela greve das aulas e pela ocupação da faculdade. Havia cada vez mais gente, e nos organizamos para a ocupação, que durou um mês e meio.

Ao chegar de manhã, na universidade ocupada, começávamos limpando, recolhíamos os papéis, varríamos os espaços comuns. Depois nos reuníamos para tomar um café, comentando as discussões da noite anterior.

Passávamos a maior parte do dia em assembleia geral, onde os jovens já politizados se sucediam na tribuna, em debates acalorados. Os oradores eram, em 90%, rapazes! Havia movimentos de todas as correntes, trotskistas, maoístas, comunistas, cristãos, socialistas. E os estudantes estrangeiros se organizavam em associações por país e participavam amplamente dos debates.

Ho Chi Minh, Che Guevara, Fidel Castro, Kwame Nkrumah, Ben Barka construíram minha cultura política. Entrei na universidade em setembro de 1967, aos 18 anos, na faculdade de História e Geografia, sem outro engajamento além do humanismo do cristianismo social, que traziam, cravada no corpo, essa indignação fundamental (que nunca me deixou) diante das injustiças do mundo e, a pior delas, o fato de que crianças morram de fome na África.

Na época, apenas 16% de uma faixa etária ingressava na universidade para cursar o ensino superior, e, entre esses, somente 25% eram mulheres.

Éramos filhos e filhas do pós-guerra; no nosso grupo, vindos das pequenas classes médias, muitas vezes de famílias numerosas, com poucas necessidades de consumo (o consumo de massa ainda não existia), mas com uma sede infinita de aprender. Tínhamos plena consciência da sorte que era, para nós, estar na
universidade.

Com o baby-boom do pós-guerra, a juventude era numerosa e se definia como um grupo social em si, com sua própria cultura, suas aspirações e suas revoltas.

Os protestos estudantis começaram em várias universidades do interior, mas ganharam mais visibilidade com o movimento de Movimento de 22 de Março na Universidade de Nanterre, na periferia de Paris. Após mobilizações contra a guerra do Vietnã, as manifestações escalaram: houve prisões, a universidade foi ocupada, depois evacuada e fechada.

Em seguida, os protestos chegaram à Sorbonne, que também foi ocupada. No dia 3 de maio, a polícia realizou a evacuação da Sorbonne de forma brutal.

Houve feridos e prisões. Em seguida, os estudantes ergueram barricadas no Quartier Latin² , incendiando carros e entrando em confronto com a polícia. Na noite de 10 para 11 de maio, a polícia reprime com violência, deixando muitos feridos, e a repressão provoca indignação na opinião pública. Todas as manhãs, a televisão mostrava os carros queimados e os estragos nas ruas de Paris. A má
condução da crise estudantil pelo governo, somada ao descontentamento social dos trabalhadores diante das políticas do governo Georges Pompidou, sob a presidência do general Charles de Gaulle, levou os sindicatos a se mobilizarem.

No dia 13 de maio, é lançado um chamado à greve geral, e a manifestação em Paris reúne um milhão de pessoas. O movimento se expande, a greve se instala por toda a França, operários, empregados, trabalhadores rurais e, no fim de maio, 10 milhões de trabalhadores estão em greve. Trata-se da maior greve do século XX na França. As fábricas são ocupadas, o país fica paralisado por três semanas.
Aí se abre uma grave crise política que, no entanto, não encontrará saída pela esquerda.

Em 29 de maio, o primeiro-ministro anuncia a dissolução da Assembleia Nacional e convoca eleições antecipadas.

Em junho, os acordos de Acordos de Grenelle³ , fruto das negociações entre os sindicatos e o governo, garantem um aumento de 35% no salário mínimo, uma elevação de 10% em todos os salários e uma ampliação dos direitos sindicais.

Mas, nas eleições de junho, como reação a um movimento que chegou a assustar o país, a direita saiu amplamente vitoriosa. Para mim e meus camaradas, em nossa pequena universidade do interior, longe dos confrontos violentos com a polícia e das barricadas erguidas com os paralelepípedos de Paris, aqueles meses foram, antes de tudo, um despertar político e internacional decisivo, alimentado por essa formação política na prática, por trocas intensas e de batalha de ideias, em meio a uma atualidade internacional em ebulição, a guerra do Vietnã, o assassinato de Martin Luther King em abril de 1968.

Claro, aquele período também foi o de uma certa liberação dos costumes, de contestação da autoridade patriarcal tradicional, da chegada de novos métodos de educação menos autoritários e, evidentemente, da ascensão do feminismo.

No nosso grupo de amigas, o avanço principal, mas tão importante, foi o acesso à pílula contraceptiva, que nos permitia uma vida sexual mais livre. E a nossa principal luta feminista era estudar, ter uma profissão e, assim, conquistar nossa autonomia, especialmente financeira, algo que nossas mães não tiveram.

A grande sorte da nossa geração, mais do que os meses de manifestações, no fundo bastante esquerdistas, de maio de 68, foi ter vivido a juventude em um período de engajamento massivo, de intensas lutas ideológicas, de uma formação marxista muito desenvolvida, que se estendeu até o período glacial dos anos 1990.

Depois disso, para as gerações seguintes, o neoliberalismo acabou por engolir tudo.

Eu vivi esse período como um momento que desencadeou minha mobilização política. Como a maioria dos meus camaradas, me organizei no sindicato estudantil e, no ano seguinte, participei de um grande evento em Paris: uma manifestação com o lema “100 mil jovens acusam o capitalismo”, organizada pela Juventude Comunista e pela União dos Estudantes Comunistas. Sou comunista desde então! E a luta contra o imperialismo permanece, desde a guerra do Vietnã, como uma marca do meu engajamento ao lado dos povos oprimidos.

¹ Sit-in: Forma de protesto em que manifestantes ocupam pacificamente um espaço público
ou institucional, permanecendo sentados.
² Quartier latin: Bairro histórico de Paris, conhecido por concentrar universidades e vida
intelectual. Foi o principal palco das manifestações estudantis de maio de 1968.
³ Acordos de Grenelle: acordos firmados em maio de 1968 entre governo, sindicatos e
patronato na França.

Escrito por Monique Piot, militante internacionalista e integrante do comitê de amigos do MST na França.
Traduzido por Milena Polini.

*Editado por Yuri Gringo