Artigo
A Força do Lugar: O centenário de Milton Santos e a Reforma Agrária Popular
No centenário de Milton Santos, artigo reflete como a ideia de lugar fortalece acampamentos e a defesa da agroecologia no campo

Por Rosa Negra*
Da Página do MST
Neste 3 de maio de 2026, o Brasil celebra o centenário de Milton Santos (1926-2001), um dos maiores geógrafos que o mundo já viu. Nascido em Brotas de Macaúbas, no sertão baiano, ele construiu um pensamento que nunca se acomodou na neutralidade fria da academia. Preferiu, em vez disso, mergulhar nas lutas populares. Sua obra, reconhecida internacionalmente, serve de base tanto para estudos sobre transformação estrutural quanto para a própria resistência social. Formado em Direito, mas apaixonado pela geografia, Milton abalou as estruturas da disciplina. Ele demonstrou que a urbanização não era sinônimo de progresso e que a globalização não era um destino inevitável. Durante os anos de chumbo da ditadura civil-militar, partiu para o exílio e espalhou suas ideias pela Europa, África e América do Norte, plantando o pensamento crítico em diversas universidades.
Milton Santos propôs uma geografia humanizada, focada na dimensão social do espaço. Analisou a fundo os problemas do capitalismo e alertou para a exclusão inerente ao neoliberalismo. Ao longo da vida, publicou mais de 40 livros em vários idiomas. Seus textos funcionam como manifestos: ensinam que, para entender a realidade, é preciso primeiro compreender o território em que vivemos. O reconhecimento máximo veio em 1994 com o Prêmio Vautrin Lud, o Nobel da Geografia, uma homenagem justa a quem redesenhou os limites da área. Ele foi mais um intérprete da realidade brasileira que nos deixou uma bússola ética para ler o mundo e uma ferramenta para que os (as) marginalizados (as) pudessem enxergar suas próprias correntes e lutar por libertação.
Sua visão sobre a globalização ganhou contornos profundos nos anos 90, especialmente em duas obras. Em “A Natureza do Espaço”, ele discute como o capital fragmenta o espaço geográfico. Já em “Por uma Outra Globalização”, critica a lógica excludente do modelo neoliberal e aponta caminhos para um mundo mais justo. Pioneiro nessa análise crítica, Milton argumentava que a globalização estava sendo moldada de forma perversa para atender ao neoliberalismo. O resultado? Mais riqueza e poder para as elites, enquanto a exclusão e a desigualdade se aprofundavam nos países periféricos.
Para ele, o espaço nunca é neutro. Cada rua, bairro ou fronteira carrega as marcas da injustiça, mas também as sementes da esperança. O espaço é um tecido onde se misturam objetos (naturais ou construídos) e ações (intencionais ou não). É o palco material da vida. Com essa perspectiva, ele desmonta as engrenagens da paisagem, do território e do trabalho, convidando-nos a refletir sobre como a técnica e as normas moldam o chão que pisamos.
Neste ano de centenário, muito se fala sobre a grandeza de sua obra e como ela nos ensina a ver a geografia pelos olhos do povo. Seguindo esse caminho, fica claro que nas trincheiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e especialmente na proposta de Reforma Agrária Popular, os conceitos de espaço, território e lugar ganham vida. Eles se revelam chaves fundamentais para entender o Brasil atual.
Com Milton Santos, aprendemos que o espaço geográfico não é um cenário passivo. É uma instância social viva, que pulsa junto com as relações humanas. Em “A Natureza do Espaço” (1996), ele define o espaço como o encontro entre o que está construído (a natureza modificada, a infraestrutura) e o que está em movimento (o trabalho, a vida social). Essa visão nos obriga a encarar a questão agrária não só como uma disputa por terra, mas como um choque entre projetos de mundo. Que campo queremos construir? A resposta esbarra na ferida do racismo estrutural: o latifúndio brasileiro é, na sua essência, branco.
A concentração fundiária nas mãos de uma elite branca é o mecanismo estruturante de um projeto de exclusão que perdura até os dias de hoje. A questão agrária no Brasil está intimamente ligada à questão racial. Fomos os últimos nas Américas a abolir a escravidão, em 1888. A Lei Áurea não garantiu um palmo de terra ou qualquer reparação à população negra recém-liberta. Pelo contrário, o Estado a empurrou para as margens, negando-lhe o direito a uma existência digna.
Quando o MST derruba as cercas de um latifúndio improdutivo, vemos um levante. É o renascimento de um território historicamente marcado pela negação. O latifúndio materializa o poder concentrado. Ao ocupar e criar um assentamento, subverte-se a lógica da propriedade privada, tão valorizada pelo capital. Novos significados brotam daquela terra: alimento saudável, cooperação, escolas no campo, agroecologia. O espaço geográfico é refeito pela ação da sociedade. Fica evidente, então, que democratizar a terra é uma forma de reparação histórica.
Avançando pelas ideias de Milton Santos, vale ressaltar que, mesmo a questão agrária ou racial não sendo o foco central de sua obra, sua teoria nos dá ferramentas para analisá-las. O conceito de “território usado” mostra que um território vai além das fronteiras no mapa; ele é definido pelo uso que a vida faz dele. É a arena onde os interesses do mercado global colidem com as necessidades urgentes do povo.
Sob o controle do agronegócio, o território vira mero suporte para o lucro internacional, inundado por monoculturas e agrotóxicos. A Reforma Agrária Popular propõe o oposto. Defende que a terra e a natureza devem servir à vida, garantindo comida na mesa e respeito ao meio ambiente. Ao plantar sementes crioulas e adotar a agroecologia, os assentamentos criam um território a serviço da existência, resistindo à ideia de transformar a natureza em mercadoria.
Mas é no conceito de “lugar” que o pensamento de Milton Santos e a luta camponesa se encontram de forma mais poética. Para ele, o lugar é a dimensão do cotidiano, o refúgio da solidariedade, a trincheira contra a “globalização perversa” (2000). A “força do lugar” está na união orgânica que enfrenta a frieza das grandes corporações. Ele o define como o “espaço do acontecer solidário”, onde a vida diária cria laços de cooperação, opondo-se à lógica abstrata do mercado. Como ele dizia, “cada lugar é, à sua maneira, o mundo”. O local não é isolado; é a conexão única entre o global e o local.
Diferente do espaço geográfico, que pode ser mais técnico e abstrato, o lugar é o espaço banal, da vida concreta, das relações pessoais e das emoções. Enquanto a “localização” atende aos interesses do capital, o “lugar” é construído por quem vive ali, tornando-se um refúgio de identidade. Santos denunciava que a globalização beneficia poucos, mas lembrava que as mesmas ferramentas técnicas que geram desigualdade podem ajudar a criar um “outro mundo”. A luta popular ganha força quando o lugar de vivência vira um espaço de contrapoder, resistindo às imposições do capital global.
Os assentamentos e acampamentos materializam essa força do lugar. São espaços de encontro, de resgate da ancestralidade e de invenção de novas formas de ser humano. Ao priorizar a democratização da terra, a educação, a defesa da natureza e a produção agroecológica, a Reforma Agrária Popular transforma o lugar em uma comunidade de resistência e abre portas para novos futuros.
Essa visão de um campo vivo chega até a cidade, pois ambos estão conectados. O veneno das lavouras vai parar nas torneiras urbanas; quem deixa o campo acaba nas periferias. Ao propor a produção de alimentos saudáveis para as cidades, o Movimento cria pontes de solidariedade, unindo lugares, fortalecendo a ideia de que a solidariedade só acontece entre a classe trabalhadora.
Se usamos as ideias desse geógrafo baiano para entender a resistência camponesa, a própria luta no século XXI nos desafia a atualizar seu pensamento. A disputa pelo espaço geográfico vai além da técnica e da informação. A violência física, baseada em relações raciais de poder, ainda dita as regras no campo. O sangue derramado e a criminalização dos movimentos provam que o espaço também é, infelizmente, um lugar de morte orquestrada pelo agronegócio.
Apesar disso, o MST e os movimentos populares do campo seguem na defesa da vida, de forma incondicional na defesa do direito de existir de forma diferente. A força do lugar se mostra, assim, como a coragem de lutar por um lugar justo e bonito para viver. Atualizar o legado de Milton Santos, no ano de seu centenário, é entender que o espaço geográfico é um campo de batalha tecnológico, político, cultural e racial. A “força do lugar” que ele imaginou sobrevive hoje na coragem de quem defende a terra, a vida e a diversidade.
A obra de Milton Santos é um método vivo para interpretar o mundo, fortalecido por pessoas que nos ensinam que mudar o espaço exige mudar as relações de poder. A Reforma Agrária necessária é popular, antirracista, antipatriarcal e antilgbtfóbica. Que o centenário desse gigante do pensamento brasileiro nos inspire a continuar plantando a utopia de um território onde a vida, em todas as suas formas, possa finalmente florescer.
Referências:
MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA (MST). O que é o Programa de Reforma Agrária Popular do MST? 16 jul. 2021. Disponível em: https://mst.org.br/2021/07/16/o-que-e-o-programa-de-reforma-agraria-popular-do-mst/.
CPT. Relatório Anual de Conflitos no Campo. Disponível em: https://cptnacional.org.br/2026/04/27/dados2025-conflitosnocampo/
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
*Maria Rosineide Pereira, mais conhecida como Rosa Negra, faz parte da Coordenação Nacional do MST, pelo Coletivo Terra, Raça e Classe e é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da Universidade de São Paulo-PPGH/USP
**Editado por Fernanda Alcântara



